
Alexandra Manes
Aos Açores compete ter a noção mínima e não aplaudir aqueles que põem o mundo em chamas só porque depois aparecem com um balde. Assim deve ser, em qualquer contexto, mas neste momento particular da nossa tímida história, talvez seja importante falar às claras, citando a coragem dos nossos vizinhos ibéricos.
Neste caso, é sobre a emboscada à SATA, o assunto da Ryanair e do Subsídio que agora é Mecanismo, que escrevo. Após anos de péssima gestão e de empurrões sucessivos, em nome de problemáticas constitucionais e integridades territoriais, voltamos, mais ou menos, à estaca zero, com o acréscimo de termos perdido mais umas quantas valências associadas à nossa acessibilidade. O Governo Regional é, em primeira instância, o grande culpado, e os partidos que o sustentam não possuem qualquer legitimidade para se fustigar, por terem tentado interromper a enchente a meio da inundação que criaram.
Na verdade, e contrariamente à realidade da Madeira, o caso açoriano, ao abrigo da extrema bem direita que o sustenta, foi preparado propositadamente, para que se possam manobrar negociações entre o setor privado, o semipúblico e o grande buraco que lhes interessa que cresça. Para a governança neoliberal da Secretaria das Finanças, que anda de mãos bem dadas à Senhora Secretária da Mobilidade “Só Para Alguns”, a realidade que almejam criar é cada vez mais evidente.
Está é cada vez mais selvagem. Mas os neoliberais continuam a achar que o conseguem domar, até porque normalmente quando se afastam dos cargos há uma posição a abrir na direção das empresas e fundações de amizade do peito.
A realidade é esta: a SATA é um problema alimentado pelas forças mais conservadoras da sociedade civil açoriana, que se entrelaça partidariamente.
A SATA é um problema porque querem que seja, da mesma maneira que o Subsídio de Mobilidade só levantou comichão quando foi preciso usar o umbiguismo institucional do centralismo lisboeta para escudar os erros a nível local. Lisboa, claro está, responde sempre ao repto de nos oprimir. Mas isso não pode legitimar os partidos açorianos, que agora surgem de balde na mão, para apagar uma parte ínfima do fogo que vão ateando na Região.
A acessibilidade não pode ser a bandeira de governos que, sistematicamente, se vão esquecendo de partes dos seus territórios. De pouco ou nada nos serve a organização de encontros e eventos na ilha das Flores, quando as estimativas mais simpáticas apontam para anos de trabalho até que volte a ter uma operacionalidade mínima no seu porto comercial. Apregoar aos sete ventos as virtudes do setor espacial em Santa Maria não servirá para nos fazer esquecer os barcos que para lá deixaram de operar, ou as milícias políticas que continuam a destruir a sua sustentabilidade orçamental interna.
A reconquista de algumas das coisas boas que o Subsídio nos trazia, limitando-se essencialmente a repor o que já antes acontecia, é apenas um placebo para a população, e uma forma de granjear alguns votos, principalmente para os que temem perder o seu lugar. A remodelação está ali à espreita, e as facas serão longas. Não haverá Mecanismo que salve da incompetência.
Termino, relembrando a data histórica de 1974, a qual Sophia Andresen tão bem nos descreve “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo“. 25 de Abril, sempre!
Deixe uma resposta