
Chama-se “Trans-Lighthouses, Para além do verde: Faróis de soluções transformadoras baseadas na natureza para comunidades inclusivas”. Trata-se de um projeto de investigação à escala europeia e que, nos Açores, é liderado pela Universidade dos Açores em consórcio com outras entidades locais e com um único local a estudar: os Remédios da Lagoa, mais concretamente, tudo o que inclui e envolve o trilho da Janela do Inferno, localizado naquele lugar lagoense, para onde são atraídos, diariamente, centenas de turistas, em época alta. “A ideia é que este nosso trilho, o trilho da Lagoa, não seja só um trilho, queremos que possa ser um trilho diferente, diverso, único, na região dos Açores e que possa ser uma solução para outros problemas sociais complexos”, começa por explicar Eduardo Marques, professor e especialista em serviço social na Universidade dos Açores (UAc), ao Diário da Lagoa (DL). A conversa com o DL decorreu no lugar dos Remédios, na primeira assembleia participativa do projeto, no passado dia 17 de maio, dia em que foi inaugurada também uma exposição onde constam testemunhos, fotografias, desenhos e grafismos feitos pelos alunos de Serviço Social da UAc. Foram 35 os estudantes que andaram pelos Remédios a falar com os residentes, utilizando uma metodologia designada como “walkthrough”.
“A ideia é ter vários faróis para iluminar a governança e novas políticas públicas na Europa, ter luzes que nos apontem caminhos, que nos iluminem para podermos desenvolver uma outra economia e outras políticas baseadas na participação, numa governança colaborativa entre as várias partes que encontramos num território, designadamente as organizações públicas. Pode ser o governo, podem ser as autarquias, as empresas, a universidade e depois todo o setor social”, explica Eduardo Marques.
José Raul Medeiros, um dos moradores mais conhecidos dos Remédios, senão o mais conhecido, gostou de se ver no desenho que os alunos de Serviço Social fizeram dele e da esposa, e que está exposto na Casa da Água, nos Remédios. “Gostei mas mesmo que eu não estivesse ali, estava na mesma todo satisfeito com aquilo que está acontecendo”, diz ao DL. Contudo, José Raul Medeiros admite que são muitos os moradores dos Remédios que nunca fizeram o trilho da Janela do Inferno e não o conhecem. A mesma ideia tem Eduardo Marques. “A maior parte, ou um grande número de pessoas, está de costas voltadas para o trilho, nunca foi ao trilho, apesar de viver aqui na proximidade do trilho”, considera o professor. Ainda assim, ele é procurado por centenas de pessoas e isso impacta a zona que o circunda.

Eduardo Marques explica quais são os principais objetivos deste projeto pioneiro nos Açores. “A ideia é perceber como é que um ativo, um recurso importante, a «Rota da Água – Janela do Inferno», pode alavancar um processo de uma relação mais positiva com o trilho de forma a que também que a comunidade pudesse ter benefícios dessa relação com o trilho”, justifica. O responsável acrescenta que se pretende “transformar o trilho numa solução baseada na natureza para um turismo sustentável. Nós podemos inspirar-nos na natureza e no seu funcionamento para resolver problemas sociais complexos”. E dá exemplos: “como é que se resolve problemas de desemprego, como é que nos podemos inspirar, basear na natureza para resolver problemas de emprego versus desemprego, como podemos melhorar a saúde — temos soluções desde os anos 60 implementadas no Japão que são os parques de terapias da natureza que reduzem o stress, reduzem a tensão arterial — portanto, podemos utilizar a natureza para nos curar, para ser integrada nos sistemas de saúde, podemos integrar a natureza como dimensão da arte e cultura”.
Para o presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, “cabe-nos a nós, pessoas dos Remédios, junta de freguesia, câmara municipal, tirar proveito dessa avaliação”, ou seja, de todo o “Trans-Lighthouses”. O projeto, inclui várias fases, tem tido contributos da comunidade dos Remédios e pretende melhorar a vida de quem lá vive, sempre em consonância com um desenvolvimento harmonioso e respeitador do ambiente envolvente.

A autarquia lagoense bem como a junta de freguesia de Santa Cruz, e ainda o CEFAL – Centro de Educação e Formação Ambiental de Lagoa ou o OVGA – Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores são alguns dos parceiros locais deste projeto europeu. Para o presidente da junta de Santa Cruz, Sérgio Costa, “tudo aquilo que fica registado e aquilo que fica em arquivo é muito importante não só para agora mas também para aqueles que vêm à frente” mostrando-se disponível para “o que for necessário”.
“Acreditamos que só de uma forma colaborativa e interinstitucional poderemos desenvolver os territórios de uma forma sustentável e mais harmoniosa e sempre com o envolvimento da população local”, considera Eduardo Marques, responsável pelo projeto.
Na primeira assembleia participativa que decorreu nos Remédios, a população foi convidada a deixar ideias de negócio, sugestões e propostas para a requalificação de espaços bem como está convidada a conhecer o trilho, num passeio conjunto que deverá acontecer em agosto.
Os Remédios serão “talvez a primeira comunidade a ter um orçamento participativo de base local”, avança Eduardo Marques, que estará entre os cinco mil e os 10 mil euros.

O professor e investigador Eduardo Marques, da Universidade dos Açores (UAc), que apresentámos numa entrevista publicada na edição de janeiro do Diário da Lagoa (DL), tem trabalhado nas suas aulas uma corrente do Serviço Social designada de Eco Serviço Social. Paralelamente, tem escrito sobre “as terapias da natureza no combate à exclusão social e como estratégia para lidar com a saúde mental no contexto da intervenção em crise e com vítimas de desastres naturais”.
O professor, natural de Coimbra, mas residente em São Miguel desde 2018, trouxe este ano aos Açores a formação “Guias em Forest Mind”, que decorreu nos dias 31 de janeiro e 1 de fevereiro na UAc.
Para Eduardo Marques, este método é mais uma ferramenta no contexto dos estudos e, por isso, convidou a formadora Katriina Kilpi a visitar os Açores.
Katriina Kilpi, residente na Bélgica há cerca de 19 anos, é finlandesa, tal como o método criado em 2014 por Sirpa Arvore.

Trata-se de um programa de treino de competências mentais. São “banhos de floresta” que aliviam o stress, mas também estimulam a parte cognitiva.
“O objetivo é colocar toda a atenção na experiência vivida na caminhada, para conectar e relaxar o corpo e a mente, de modo a atingir uma tranquilidade profunda que abra possibilidades de introspeção, atenção plena, autoconsciência e capacidade de refletir sobre as nossas próprias situações individuais”, conforme explica o folheto de apresentação da iniciativa.
O método conta já com mais de 500 instrutores qualificados, a maioria localizados na Finlândia, bem como na Bélgica, Países Baixos, República Checa e, agora, também em Portugal e Açores.
No primeiro dia de formação, os participantes tiveram um primeiro contacto com os conceitos. No segundo dia, com a presença do DL, houve lugar para debate em ambiente de aula, seguido de atividade ao ar livre. Nesse momento, surgiu a pergunta:

A formadora finlandesa defende que o método pode ser praticado em qualquer lugar, mas que os Açores são um local perfeito pela natureza envolvente.
Ao DL, Katriina Kilpi revela que a vida dedicada ao Forest Mind é algo que “não escolheu”, foi o Forest Mind que a escolheu. E conta que, a certa altura da sua vida, percebeu que “queria trabalhar com pessoas” e que a sua paixão é simplesmente que “vejam o quão maravilhosa a natureza é, porque tem tudo o que precisamos”.
Acrescenta que, através da natureza, “se conseguirmos encontrar a paz em nós mesmos, também podemos tornar-nos mais pacientes para com os outros”. O Forest Mind “é realmente maravilhoso nesse ponto”, porque “somos parte da natureza e é, por isso, o melhor lugar para exercitar as nossas habilidades mentais, uma vez que a tranquilidade que encontramos na natureza tem a capacidade de nos acalmar”.
Os alunos passaram a tarde a realizar exercícios ao ar livre, apreciando pormenores que confessaram nunca ter observado, devido à aplicação da atenção e foco no momento presente. Em alguns exercícios, Katriina convidava-os a caminhar lentamente, a prestar atenção aos sons, aos elementos presentes e até a aceitar o ruído da azáfama citadina que não escapa ao ambiente universitário. No final de cada exercício, formavam um círculo para debater as ideias e partilhar a experiência de cada um.
Igualmente presente, conhecemos Leónia Nunes, de 44 anos. Natural da ilha da Madeira, deixou-a aos 18 anos para prosseguir os estudos em Coimbra, residindo agora em Lisboa. É formada em engenharia florestal, com mestrado e doutoramento pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Atualmente, trabalha no Instituto Superior de Agronomia (ISA), na Universidade de Lisboa, como investigadora no Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves”.
Ao nosso jornal, clarifica como descobriu o Forest Mind. No âmbito de uma ida a um evento final de dois projetos europeus, em Bruxelas, em 2023, relacionados com a floresta urbana, uma das atividades exteriores consistia em praticar o método num parque.
“Eu já tinha tido bastante contacto com os banhos de floresta, inclusive tinha participado em conferências e em várias atividades, mas ainda não tinha tido contacto direto com o Forest Mind. Portanto, coincidentemente, neste evento científico, tive contacto através de um passeio guiado por Katriina Kilpi”, recorda.

“Fiquei fascinada com a abordagem, muito mais integrativa, no meu ponto de vista, do que os banhos de floresta, porque vai buscar a parte sensorial dos banhos de floresta, mas, para além disso, introduz exercícios de presença e de reflexão que, de certa forma, nos possibilitam adquirir competências mentais com a natureza”.
Leónia Nunes justifica que foi algo que a “atraiu bastante”, porque considerou “que podia ser uma ferramenta bastante útil” para o mundo da investigação e da universidade, “em que o stress é elevado, e também para o mundo cooperativo”.
Foi assim que, depois, “quis imenso trazer a abordagem para Portugal e, através do centro de investigação onde trabalho e também da Sociedade Portuguesa de Ciências Florestais, da qual sou vice-presidente, organizei o primeiro evento para formar Guias em Portugal”.
A investigadora madeirense recorda que foi realizado na Tapada da Ajuda, onde está sediado o Instituto Superior de Agronomia, e que, nesse evento, foram formados 14 Guias em Forest Mind, sendo ela a primeira em Portugal.
Leónia conclui que se trata de “podermos estar na natureza e usá-la como veículo para chegarmos às nossas respostas”.
Segundo Leónia Nunes, na sequência de uma segunda edição, o professor Eduardo Marques ficou a saber que existia esta abordagem em Portugal e entrou em contacto para que fosse realizada a formação nos Açores.
“É a primeira vez que ela está a acontecer fora de Lisboa, nos Açores, e acho que é uma oportunidade extraordinária que estes jovens estão a ter de possuir uma ferramenta altamente valiosa, que podem aplicar não só para eles próprios, nas suas vidas, como também para as pessoas com quem vão lidar no futuro nas suas profissões”.
A investigadora do ISA explica ainda que, na perspetiva dos alunos de Serviço Social, “mais tarde poderão utilizar o método para trabalhar com famílias, crianças e com todas as pessoas no geral, ou aplicar a grupos específicos, seja num quintal, parque ou jardim”.

Quanto aos Açores, realça que “é este verde contínuo”, enquanto acrescenta que “o verde é a cor que o olho humano mais tonalidades consegue detetar. E também nós, seres humanos, evoluímos através da natureza, então há um sentimento de pertença, quando nós estamos na natureza, algo que a gente não explica”. A investigadora salienta que a ideia de praticar no jardim da universidade foi de “mostrar aos jovens que em qualquer espaço é possível”. “Mesmo no campus, eles podem ir até ao pé de um espaço verde, de uma árvore e fazer um exercício para eles próprios”.
Trata-se de “observar os pensamentos, ver as coisas com outra perspetiva, porque quando estamos num estado de stress, a natureza permite-nos serenar um pouco e abrir a perspetiva para ver melhor a solução”.
Para Ana Domingues, 23 anos, uma das estudantes de Serviço Social, “a experiência na formação foi verdadeiramente transformadora. Mais do que um simples contacto com a natureza, cada momento tornou-se uma oportunidade para desacelerar, observar e sentir tudo o que nos rodeia, permitindo-me perceber o impacto positivo que a natureza tem na mente e no corpo”.
Por fim, o investigador Eduardo Marques conclui: “a minha avaliação da iniciativa é muito positiva, pois trouxemos para os Açores conhecimentos e competências que não existiam na região”.

Catarina Fróes Faria 21 anos, Maia, Ribeira Grande
“A experiência foi muito enriquecedora. A formação em Forest Mind proporcionou-me uma nova perspetiva sobre o tema, com conteúdos bem estruturados e aplicáveis à prática. Gostei especialmente da abordagem dinâmica e dos exemplos práticos, que ajudaram a consolidar o conhecimento. Foi, sem dúvida, uma oportunidade valiosa para adquirir novas competências e aprofundar a compreensão sobre o assunto.
Considero que o conhecimento adquirido nesta formação é extremamente útil e acrescentará valor à forma como poderei exercer a minha profissão de assistente social no futuro. A formação em Forest Mind proporcionou ferramentas e metodologias que podem ser aplicadas na intervenção social, ajudando na análise de situações complexas, na tomada de decisão e na resolução de problemas. Para além disto, esta formação deu-nos também determinadas estratégias que poderiam ajudar os nossos utentes a desenvolver capacidades de controlo de ansiedade através do recurso à natureza, o que pode contribuir positivamente para um melhor equilíbrio emocional e uma tomada de decisões mais assertiva.”
Ana Luísa Rodrigues 22 anos, São José, Ponta Delgada
“A experiência foi extremamente enriquecedora a nível das competências profissionais e pessoais, foi possível termos contacto com a natureza interligando aquilo que aprendemos na prática. É crucial conseguirmos ter a possibilidade de aplicar os conhecimentos, embora que em pouco tempo, o que faz que estejamos elucidados sobre o que falamos. Além disso, possibilitou uma melhor compreensão dos desafios e das exigências que temos ao longo da vida, onde quando nos “desligamos” do que está ao nosso redor, promovemos uma sensação de bem estar e um crescimento pessoal. A oportunidade de interagir com profissionais experientes permitiu com que a aprendizagem fosse mais dinâmica e concreta.
O conhecimento que adquirimos durante a formação foi fundamental para que no futuro, consiga colocar em prática na minha área profissional.
Em primeiro lugar, aprendi novas metodologias, técnicas e ferramentas que acabam por facilitar de alguma forma, a resolução de problemas, e a gestão emocional. Outro ponto importante foi o desenvolvimento de competências transversais, como trabalho em equipa, a questão da gestão do tempo para que as pessoas que participam nas atividades não se dispersem e se distraiam do objetivo principal que foi pedido. A questão de termos pensamento crítico, sabermos adaptar-nos a qualquer desafio que nos é colocado, é importante para o nosso futuro pois em qualquer profissão necessitamos do mesmo. Essa formação irá ser muito benéfica para o meu percurso profissional e pessoal pois sentirei-me mais segura e confiante.”
Ana Domingues 23 anos, Vila de Capelas, Ponta Delgada
“A experiência na formação de Forest Mind foi verdadeiramente transformadora. Mais do que um simples contacto com a natureza, cada momento envolvido na natureza tornou-se uma oportunidade para desacelerar, observar e sentir tudo o que nos rodeia, permitindo-me perceber o impacto positivo que a natureza tem na mente e no corpo. Através das técnicas orientadas, aprendi a cultivar um estado de presença plena, reduzindo assim o stress. Além disso, a partilha com os meus outros colegas enriqueceu ainda mais a experiência, reforçando a importância da ligação entre as pessoas e o ambiente natural. Portanto, saio desta formação não só com novas ferramentas para aplicar no meu dia a dia, mas também com uma nova perspetiva sobre a relação entre a natureza e o bem-estar humano e aconselho vivamente a formação de Forest Mind a quem procura reduzir o stress e fortalecer a ligação com a natureza.
O conhecimento adquirido na formação de Forest Mind será uma mais-valia no meu futuro como assistente social, pois oferece ferramentas que podem ser aplicadas para promover o bem-estar de indivíduos em situações de vulnerabilidade. A conexão com a natureza e as técnicas de mindfulness podem ser utilizadas como estratégias complementares para reduzir o stress, melhorar a regulação emocional e fortalecer a resiliência, que são aspetos essenciais no trabalho com diferentes públicos. Além disso, ao integrar abordagens baseadas na natureza pode tornar as intervenções mais holísticas e eficazes, proporcionando um impacto positivo na qualidade de vida das pessoas que irei acompanhar.”
Carolina Avelar 22 anos, Vila de Capelas, Ponta Delgada
“Esta experiência foi sem dúvida muito gratificante, pois consegui ter a oportunidade de perceber e de valorizar a ligação da natureza com a nossa paz de espírito, foi uma oportunidade única.
Sem dúvida que o conhecimento que adquiri foi útil e essencial tanto para a minha vida pessoal e profissional, pois um assistente social, nunca se pode esquecer que trabalha com pessoas, o que implica muito da nossa sensibilidade. O Forest Mind fez-me ver as coisas de uma forma menos materialista e a dar mais valor ao que sentia e ao que os outros sentem.”
Vanessa Frias 21 anos, São José, Ponta Delgada
“A experiência foi incrível e muito enriquecedora. Esta formação permitiu-me aprender a conectar com a natureza assim como as diversas técnicas que podem ser utilizadas na prática do Mindfulness, que podem ser aplicadas diariamente e que beneficiam a nossa saúde mental, que nos dias de hoje é afetada pela rotina que de forma inconsciente criamos. Queremos fazer tudo ao mesmo tempo e o Mindfulness ensinou-me a parar e a ”respirar”.
Considero que o conhecimento adquirido ao longo da formação foi útil. As técnicas do Mindfulness e a conexão com a natureza podem ajudar-me a gerir melhor o meu stress e consequentemente a aumentar a minha produtividade e bem-estar. Essas técnicas são muito valiosas tanto para profissionais como para os sujeitos que estes intervêm.”
Gonçalo Santos 20 anos, Santa Cruz da Graciosa
“Consoante a minha experiência, achei muito enriquecedora no âmbito de várias dimensões, principalmente a nível pessoal e profissional. Ao longo da nossa caminhada vamos adquirindo diversas abordagens e ferramentas que acredito serem fundamentais para o nosso desenvolvimento. Levo a experiência do Forest Mind, não apenas para o domínio pessoal, que certamente contribuirá para a minha auto-regulação, mas também a nível profissional, procurando oferecer intervenções mais enriquecedoras, de modo a promover o bem-estar em vários âmbitos.
Do meu ponto de vista, considero fundamental para o exercício da minha futura profissão, na qualidade de assistente social, visto que é necessário haver mudanças nas nossas metodologias e ferramentas também, respeitando os recursos que nos envolvem e os valores dos mesmos, tais como os recursos naturais, que constituem o Forest Mind.”

Nasceu e cresceu em Coimbra, onde viveu a maior parte de sua vida. A 1 de janeiro de 2018 mudou-se para a ilha de São Miguel para romper com a “rotina profissional”. Escolheu os Açores para viver nesta nova fase da sua vida e apenas alguns meses depois a sua esposa e filha juntaram-se à nova aventura. Tem 58 anos e é professor e investigador na área de Serviço Social, na Universidade dos Açores.
Considera-se “um sonhador” e “uma pessoa preocupada com a natureza, com o futuro do mundo e com o desgoverno deste nosso planeta”.
“Incomoda-me ver tanta injustiça social, tanta desigualdade social e, nesse contexto, acho que estou na profissão certa, no sentido de poder ser protagonista, poder ser ator, poder colaborar, de alguma forma, para a transformação do mundo ou para que este mundo seja um lugar melhor”, afirma ao Diário da Lagoa (DL).
Eduardo Marques conta que sempre esteve ligado ao associativismo, tudo porque o seu objetivo sempre foi “ligar a teoria à prática e, com a prática, poder construir outras teorias” uma vez que “repetir aquilo que já existe”, não o estimula.
O professor e investigador revela uma tripla faceta, a “de professor e investigador que cria conhecimento e que escreve, oferece o conhecimento às atuais e futuras gerações do Serviço Social, não só numa perspetiva regional ou nacional, mas muito focada numa perspetiva internacional”. Numa entrevista de quase duas horas, nesta edição revelamos algumas das suas respostas.
DL: Porquê os Açores?
Foi uma escolha. Já tinha vivido mais de 50 anos em Coimbra. Nasci, estudei e trabalhava lá, mas andei sempre pelo mundo todo. Conheço quase 100 países e sempre me senti um cidadão do mundo. Não só por projetos, mas também porque dei aulas em diversas universidades europeias. Por exemplo, trabalhei muito com a Noruega, com a Itália, com a Áustria e com a Espanha, onde inclusive concluí o meu doutoramento. E sempre tive essa vontade de explorar mais o mundo, de conhecer outras realidades.
DL: Foi convidado pelo Governo de Timor-Leste para desenvolver um programa de voluntariado de competências. Pode contar-nos em que consiste?
Precisam de médicos, de enfermeiros, de professoras, de educadoras. E, nesse sentido, está-se a tentar desenvolver um programa vinculado aos timorenses, para levar daqui recursos. E uma das questões que eu coloquei é que gostaria de levar, pelo menos anualmente, um professor ou um profissional daqui e um aluno para criar estes diálogos entre quem sabe alguma coisa, quem já tem uma grande experiência profissional. E, é claro, quando surge esta possibilidade de poder contribuir para o bem-estar, para o desenvolvimento de outros países, para mim, é o ideal neste sentido de poder ser útil. A gente vai e deixa o nosso conhecimento, a nossa experiência, as nossas vivências, mas vimos lá muito mais ricos.
DL: Está ligado à questão ambiental. Como pode o Serviço Social contribuir para essa causa?
O compromisso do serviço social é com o desenvolvimento humano, com a criação de bem-estar, combater injustiças sociais. Hoje em dia não há possibilidade de combater as injustiças sem termos em consideração o respeito e a preservação dos ecossistemas e da natureza. Vivemos uma crise climática profunda que está a gerar milhões de desalojados, pobres e pessoas deslocadas. Não há outra forma se não trabalharmos em simultâneo com as questões ambientais. É trabalhar na prevenção, na ajuda após a catástrofe e, depois, o mais importante, trabalhar na recuperação das comunidades no pós-catástrofe.
Os assistentes sociais devem colaborar na educação ambiental, pois temos que preservar, temos que educar, temos que sensibilizar. Temos de criar uma lógica de reciprocidade de olhar para a natureza como nossa parceira, como a nossa casa comum, como algo do qual fazemos parte. Por vezes esquecemos que somos natureza, não há nós e a natureza, pois tudo faz parte do planeta, nós somos natureza.
DL: Portugal é um país envelhecido. Devemos ficar preocupados?
Portugal é um dos países mais envelhecidos e temo-nos descuidado e invisibilizado esta realidade que nos está a impactar e que vai criar um grande stresse no sistema de pensões. O nosso foco decididamente deve deixar de ser o dinheiro para passar a ser efetivamente as pessoas e o seu bem-estar. Portugal não é um país para idosos, ou seja, é um país que os maltrata e isso é vergonhoso. Como é que 50 anos depois do 25 de Abril, continuamos por não cumprir Abril, a não cumprir a Constituição da República Portuguesa? Isso choca-me e envergonha-me, pois continuamos a tratar os idosos como pessoas de segunda categoria. Essa desumanização é uma falta de respeito para com eles depois de tudo fizeram por nós. As pessoas idosas têm direito à segurança económica, portanto deixem-se de pensões de miséria. Aquilo que temos de fazer é dar-lhes segurança económica e isso resulta de terem pensões que lhes permitam viver com dignidade. E não me digam que é uma questão de dinheiro, pois o governo português mostrou que pode mandar milhões para uma guerra absurda e injusta, uma guerra por procuração que cumpre objetivos ocidentais e ninguém contesta.
Os idosos precisam mais do que alimento, cama e roupa lavada, eles precisam de ser tratados com dignidade, de ter a sua liberdade e de ter a sua autonomia para não sofrerem com o isolamento ou solidão. Os idosos devem poder conduzir a sua vida, viver e participar na sua comunidade. Eu diria que ainda há muito para fazer, embora reconheça e elogie o esforço de muitos diretores responsáveis por instituições que trabalham no campo do envelhecimento.
DL: Enquanto especialista em Serviço Social alguma vez foi contactado, por exemplo, pelos políticos, para contribuir com o seu saber para a legislação regional?
Nunca me pediram nenhum tipo de contributo ou de opinião e não têm que fazer, mas penso que podiam ouvir os especialistas do Serviço Social. Acabo, por exemplo, por ser mais requisitado por universidades americanas e noutros países. Recentemente em Espanha aconteceu o primeiro encontro de Assistentes Sociais em Desenvolvimento Comunitário e em Serviço de Comunidades, e é um bocadinho paradoxal como é que lá sabem que eu existo. Cá ainda há uma visão muito limitada, pensa-se que o Serviço Social é caridade, mas é muito mais do que isso e deveria ser um instrumento de transformação social, um parceiro na procura do diagnóstico de problemas e soluções. No fundo devia haver mais diálogo entre saberes, mas sempre nessa perspetiva de transformação social e menos de academismo. Ainda se valoriza muito o status quo, precisamos de criar mais comunidade. Eu diria que todos somos relevantes, mas o importante é aquilo que fazemos todos juntos.