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O Cine Teatro Lagoense “Francisco d’Amaral Almeida”

Sandra-Monteiro-opiniao-cronicas-antigamente

O teatro, símbolo e local para ascensão e vanglória da burguesia, no séc. XVIII, era local para a ostentação de privilégios dos bem-nascidos mas também espaço de apresentação, de oportunidade para relações ou lançamento de jovens com aspirações a carreira literária e política. Em Lisboa, o Teatro Nacional de S. Carlos foi inaugurado em 1793 e cinco anos mais tarde, no Porto, o Teatro Nacional de S. João, fruto da ação burguesa local. No séc. XIX o Teatro Nacional D. Maria II e vários outros teatros foram fundados, com destaque para o Teatro Lethes, em Faro. Em 1913, surge o Teatro Politeama e em período republicano, o teatro era entendido como formação de consciências, união da Pátria e difusão da cultura.

Em S. Miguel, no séc. XIX, existiam teatros em Ponta Delgada, como o Teatro de São Sebastião e o Teatro da Sociedade Filarmónica (Teatro Sta. Cecília) que entretanto se perderam. O Teatro Micaelense resultou da ação da passagem, pela ilha, de intelectuais liberais oitocentistas. O Coliseu Micaelense, inaugurado em 1917, com o nome de Coliseu Avenida, era situado numa zona nova e moderna da cidade e o Teatro Ribeiragrandense foi noticiado, pela primeira vez, em 1919. Sobre o cinema sabe-se que em 1913, funcionavam, em Ponta Delgada, o Salão Avenida e o Variedades e no Teatro Micaelense também havia sessões.

Francisco d’Amaral Almeida nasceu na freguesia do Rosário, Vila da Lagoa, em 25 de dezembro de 1873. Foi um homem muito culto, interessado no desenvolvimento e progresso da sua terra tendo realizado várias ações de cariz cultural em prol da Lagoa e dos lagoenses. O principal legado que chegou até hoje foi o Cine Teatro.

A inauguração do, então designado, Teatro Amaral ocorreu a 1 de fevereiro de 1913.

Autor da planta do edifício, Francisco d’Amaral Almeida foi também responsável pela execução do mesmo, sob a forma de administração direta, e da modelagem de quatro figuras femininas para a fachada do edifício que simbolizavam as Quatro Estações do Ano. Para o interior, manufaturou um escudo com o busto da República, em madeira, colocado posteriormente, na boca de cena e pinturas para o pano do mesmo local.

A sala era composta por palco, com boca de cena, e lugar para o ponto, plateia com bancos corridos de madeira, sem costas, que saíam quando havia bailes ou outras atividades, e três séries de camarotes, sendo um reservado para a família. Por baixo do palco ficavam os camarins e o chão da sala era cimentado. Existia ainda um pequeno quarto que servia para deitar a dormir as crianças da família, enquanto assistiam aos espetáculos e aos filmes ou colaboravam nas tarefas necessárias para pôr o espetáculo a funcionar, desde dar à manivela a máquina de projeção, pôr a funcionar o gramofone, fazer subir e descer o pano e, até mesmo, cobrar os bilhetes ou limpar e organizar o espaço.

Para anunciar o início, o intervalo e o fim da sessão de cinema, o talentoso proprietário elaborou imagens, isto é, caleidoscópios que encaixavam na lente da máquina de projeção. No dia do espetáculo, circulava pelas ruas da Lagoa, uma carreta puxada pelos seus trabalhadores e, outras vezes, por rapazes que em troca entravam sem pagar, onde eram expostos os cartazes, também muitos deles, elaborados pelo dono do espaço.

Com a morte do proprietário e fundador, em 1948, deram-se as partilhas e a sua filha, Maria Eduarda Mota Amaral Borges e seu marido João Pedro Borges, tornaram-se então, os novos proprietários deste espaço cultural lagoense. No início da década de 50 foram feitas remodelações e modernizações e, realizadas projeções ao ar livre numa esplanada situada na Rua do Vigário.

Nos anos 60-70, a nova geração da família, filhos dos anteriores proprietários, toma conta do espaço que passa a designar-se Cine Lagoense. Novas atualizações foram feitas aos novos tempos que se viviam. As atividades que se destacaram, neste período, foram as conferências organizadas pelo Círculo de Amigos da Lagoa.

No final da década de 70 o espaço foi alugado mas, na década de 80, voltou para propriedade da terceira geração da família Amaral.

Os proprietários enviaram um ofício à Câmara Municipal de Lagoa para venda daquele espaço, em meados da década de 90, e após as obras de requalificação, a inauguração ocorreu a 28 de abril de 2001, já como propriedade camarária.

Hoje, como nos ideais do seu fundador, o Cine Teatro Lagoense – Francisco d’Amaral Almeida continua a ser um espaço cultural e educativo importante na informação e formação de gerações lagoenses.

Sandra Monteiro 
CHAM – FCSH/NOVA-UAc
ICPJJT

TeatroAmaral_anos 40

Teatro Amaral – Arquivo Particular da Família Amaral, anos 40

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Frontispício Atual do Cine Teatro Lagoense “Francisco d’Amaral Almeida” – CML, 2011

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