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O achismo da nossa opinião

Octávio Lima
Professor

Há muito tempo que dois chavões, empregados com excessiva frequência por comentadores da rádio e da televisão, me causam particular incómodo. Refiro-me ao “eu acho” e “esta é a minha opinião”. Confesso que ainda não consegui discernir os objetivos desta tendência, o que me suscita várias interrogações. Conto com a vossa colaboração para as esclarecer.
Serão estas expressões um selo de independência, uma forma de reforçar a credibilidade perante um público específico? Farão parte de uma estratégia retórica mais ampla, destinada a criar uma ligação de suposta autenticidade e a reduzir a defensividade do ouvinte? Convenhamos que ao apresentar uma ideia como mera perspetiva pessoal, o comentador não só torna o argumento mais palatável e difícil de contestar frontalmente, como também se facilita a introdução de afirmações fortes ou polémicas sob o manto da subjetividade.

E não estaremos perante um mecanismo de defesa, consciente ou não, contra a chamada cultura do cancelamento e a condenação sumária nas redes sociais? Ao demarcarem o território do “mero ponto de vista”, estarão os comentadores a resguardar-se antecipadamente de críticas mais contundentes?

Será que o “achismo” usa a opinião como escudo protetor? Perante a ausência de dados ou rigor, a “minha opinião” converte-se muitas vezes numa licença para a descarga de banalidades – uma estratégia retórica que, afinal, nivela todos os discursos, colocando um facto comprovado e um preconceito infundado no mesmo plano.

Mas se tudo se reduz ao território da “mera opinião”, da análise do especialista ao palpite do leigo, não estaremos a perder a capacidade coletiva de hierarquizar a qualidade e a fundamentação dos discursos? Ao normalizarmos que qualquer afirmação, por mais frágil, merece igual respeito, não estaremos a abdicar de um critério essencial para o pensamento crítico? E, na prática, quando a autoridade da evidência é posta sistematicamente em pé de igualdade com a assertividade da convicção vazia, o resultado inevitável não será o empobrecimento do debate público?

Ao “achar” e imediatamente declarar que se trata de uma “opinião pessoal”, não se estará a fomentar uma tríade perniciosa: a preguiça intelectual, a inibição da crítica (e da autocrítica) e, em última análise, uma cómoda desresponsabilização pelo que se diz?

Ou estaremos, afinal, perante uma técnica dissimulatória? Ao amparar-se no manto da opinião pessoal, o comentador pode estar a introduzir uma acusação grave ou uma meia-verdade como se fosse um mero juízo inocente — uma manobra que o exonera do escrutínio factual e da responsabilidade pelo conteúdo emitido. Em suma, não será isto a pura arte de “lançar a pedra e esconder a mão”?

E, numa camada mais profunda, o abuso crónico destes chavões não funcionará como uma barreira retórica? Em vez de estimular o diálogo, a fórmula “é apenas a minha opinião” parece servir frequentemente para encerrá-lo, imunizando o discurso contra qualquer contraditório.
Tantas perguntas. Tantas dúvidas que este vício de linguagem, aparentemente inofensivo, acaba por suscitar.

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