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Méritos e critérios

Rui-Almeida-Opinião

Há 40 anos, todos os alunos, em qualquer parte do território português, estudavam a geografia nacional e, com ela, a divisão geográfica e administrativa do arquipélago dos Açores. Há 20 anos, estas matérias deixavam de figurar nos compêndios e, pior do que isso, nas obrigatoriedades de estudo ou, sequer, nos brios de cultura geral dos jovens. Agora, apesar das facilidades que resultam da aplicação de um conjunto de tecnologias de fácil e liberal acesso, os Açores continuam conhecidos no exterior em situações de catástrofe natural e pela pronúncia (ou sotaque) mais ou menos acentuados de algumas das suas vilas, cidades ou ilhas. Mas também pelo desporto, pelos seus praticantes, e pela eventual promoção da região que alguns fazem e pela qual muitos recebem. 

As verbas consignadas para a promoção da região autónoma no exterior por força da atividade desportiva de alto rendimento ou, não se tratando de um enquadramento profissional, por aquela que leve os seus representantes a participar em eventos de caráter nacional, foram sempre objeto de dúvidas metódicas e questões práticas.

Dúvidas metódicas em relação aos critérios que as norteiam. É justificável – mesmo compreendendo que o futebol é a modalidade que maior potencial retorno gera – a continuidade de um investimento desmesurado (quando em comparação com outras atividades representativas da região) na participação de uma equipa açoriana num segundo escalão profissional do futebol em Portugal? É defensável a “regra de primazia”, em caso de promoção de um outro emblema, dada, num primeiro ano, à agremiação que se mantém nesse escalão, quanto às verbas dispensadas?

Questões práticas quanto ao âmbito e alcance da promoção açoriana fora de portas. Por exemplo: será que uma equipa profissional de futebol gera fluxo promocional suficiente para justificar as verbas que anualmente são dispendidas pelo erário regional com a justificação do transporte do “bom nome” dos Açores extramuros?

Será que se trata de promoção positiva um sucessivo arastamento, em termos puramente competitivos, acumulando resultados desportivos de baixo nível e prestações de duvidosa qualidade, ao mesmo tempo que revela uma absoluta incapacidade para agregar vontades de investimento e, sobretudo, para demonstrar qualidade de gestão desportiva (de que o número de treinadores contratados e dispensados, nos últimos anos, é apenas o pormenor mais visível)?

A região não pode suportar, por força das suas limitações geográficas e financeiras, o atual quadro de subsídios. Mas, ao revê-lo (e aos respetivos critérios) deverá encontrar parâmetros de “qualidade de representação”, por um lado, e de “prémio ao esforço”, por outro, aplicando-se esta regra a todas as modalidades, independentemente do âmbito individual ou coletivo de cada uma.

E estes parâmetros (qualidade de representação e prémio ao esforço) encontram na formação, na promoção de valores locais, na capacidade de interação com as comunidades em que se inserem, na perspetiva de valorização do seu património e no respeito pelas massas adeptas e, eventualmente, associadas, fatores incontornáveis para um eventual sucesso.

Este é um esforço de todos os agentes: os desportivos, que, ao nível das células de desenvolvimento parceiras da sociedade civil – os clubes – perceberão certamente a importância de uma crescente aproximação aos valores “da terra”, e os políticos, que reconhecerão o significado e o alcance do apoio em face da expansão e efetiva promoção dos seus concelhos e da sua região, encarando-a como um investimento duplo (ao potenciar a formação de novos talentos, por um lado, e ao refletir a imagem das suas terras e das suas gentes para lá das barreiras oceânicas, por outro).

Voltamos à primeira forma: critérios. Os dinheiros públicos são um bem… público. Geri-los com parcimónia não deve ser sequer objetivo. Deve ser obrigação dos representantes do poder político local e regional. E reconhecer a justeza da sua aplicação, o mérito dos seus beneficiários e a qualidade do seu retorno é o princípio básico para a geração de critérios justos, uniformes e transparentes. Gerir ao sabor do vento, significa não acautelar tempestade…

Rui Almeida

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