
Depois de um atraso inicial de uma hora, o capitão do navio de Fjord Lines anuncia sucessivos atrasos por problemas com os motores na partida do catamarã de Hirtshals na Dinamarca para Kristiansand na Noruega.
Afinal não é só na travessia dos canais de São Jorge ou do Faial para o Pico que os motores dos catamarãs tendem a enguiçar e a tornar a travessia mais prolongada que a dos navios convencionais.
O navio que era suposto demorar duas horas e um quarto, tendo em conta o atraso levou quatro e meia, mais tempo do que as três e meia a quatro do navio de casco único da mais tradicional Color Lines (antiga Norway Lines) leva a cobrir os 140 km de percurso.
A última vez que tinha passado por Hirtshals tinha vindo diretamente de Oslo numa rota entretanto descontinuada pela Color Lines, e as travessias de ferry eram mais frequentes a ligar as estradas norueguesas agora mais cheias de pontes ou de túneis de dimensões por vezes impressionantes.
Cheguei aos Açores em 1980 vindo precisamente da Noruega, e lembro-me de ter ficado surpreendido pela inexistência de ferries com roll-on roll-off utilizados por toda a Europa para cobrir distâncias semelhantes, sistema que só décadas depois se começa a utilizar entre nós.
Também então me pareceu que o sistema de pesca turística praticado pelas embarcações mais tradicionais ou o turismo rural baseado em cabines situadas perto da exploração teriam imensas virtualidades se aplicados aos Açores, embora nestes casos a aplicação não seja tão simples e automática como no caso dos ferries.
Passei a noite na ilha de Bokna, a Norte de Stavanger, numa cabine rural que nada parecia ter mudado das que eu me recordo dos anos 70. Aquecimento elétrico, mas água na banca da cozinha a ser trazida à mão do ponto onde também estava a casa de banho, num anexo ao estábulo onde a água corrente e quente não podiam faltar para a limpeza da ordenha fixa.
E na verdade, já nos anos setenta, quando episodicamente trabalhei em explorações leiteiras, não tenho memória que existisse alguma que não dispusesse de ordenhas fixas, prática que está ainda longe de ser a norma nos Açores.
Nesta época na Noruega não há verdadeiramente noite, mesmo se a Sul do círculo polar ártico, o Sol põe-se apenas brevemente sem nunca deixar de iluminar, mas não é necessariamente ideal atravessar um pasto sob chuva para ir do quarto à casa de banho, estou de acordo, e alguma modernização seria bem-vinda.
O que sempre me impressionou no confronto entre a experiência de turismo rural norueguesa e a portuguesa foi o de a primeira ser obviamente pensada como forma de melhorar o rendimento do agricultor, preocupação praticamente inexistente em Portugal.
O português não tem qualquer problema em se adaptar a ambientes diferentes – e a vastíssima diáspora portuguesa demonstra-o à saciedade – pelo que tão pouco há qualquer razão para pensar que ele deva ter qualquer problema em adaptar em sua casa práticas que se revelem mais eficazes que as domésticas.
E por isso, a Noruega faz-me sempre pensar nos Açores. Ou mais precisamente, fá-lo de há trinta e quatro anos a esta parte.
Bergen, 2014-06-19
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