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A típica pessoa «poucochinha»

"Somos grandes porque escolhemos caber nos mais pequenos; e não porque os mais pequenos escolhem caber em nós. Somos grandes, sim, porque, humildemente, tocamos os corações «apagados de cinzento» e acendemos ou reacendemos a esperança de quem revive para a (sua) esperança".

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

A prova viva de um mundo sem sentido, «poucochinho», é termos de um lado Trump, do outro lado Putin e, entre ambos, umas forças imensas (algumas bem disfarçadas) que pretendem minar, a todo o custo, o que (nos) resta ainda de qualquer sanidade moral – é viver entre alguns Arrudas, convivendo com outros, seus semelhantes, entre iguais. E nós, bem no meio desses dois enigmas e outros similares problemas, somos, ainda, o que resta de um mundo, hoje, que não veja, em breve, o fim, da tolerância, do respeito e da dignidade humana.

Hoje em dia, a maioria das pessoas, nas suas relações interpessoais, até políticas, e sociais, são descartáveis umas para as outras – são úteis em tempo certo, no tempo certo e válido, e, na hora a seguir, são totalmente lixo, ou seja, tornam-se «inúteis» e prescritas.

Vivemos imersos e «banhados» em relações feitas (algumas mesmo artificializadas) de astúcia, de pouco altruísmo, de muito egoísmo, de muito pouco, que, líquidas, e sem sustento, se comovem, em prazeres efémeros, com pouco, e se revelam, a muitos milhares de desconhecidos, em troca de tão escassas migalhas nas redes sociais.

A utilidade das pessoas «poucochinhas» é a de fazer de conta que são grandes; de fazer com que as grandes pessoas caibam nelas para seu benefício pessoal, intelectual e social; mas a boa notícia é que as pessoas grandes percebem, um dia, que as pessoas «poucochinhas» são demasiado «poucochinhas» para a sua grandeza – para a sua liberdade. Afinal, a utilidade das pessoas «poucochinhas» é essa: o entendimento que nos dão acerca de nós próprios, que somos, e seremos, sempre, pessoas grandes e intelectualmente livres.

Definimos «grandes» não em estatuto e em riqueza material e financeira, mas em função da total comodidade absoluta relativamente à grandeza – a nossa e a dos outros; não a usurpando para a aumentar exponencialmente e maquiavelicamente, e usando a mesma somente para outros fins que não sejam, eles, senão a discrição, a humildade, o reinvestimento dela apenas nos outros, no bem-estar comum dos outros.

Somos grandes porque, imensos, nos espalhamos, em liberdade, nos demais – nos pequenos como nós somos, e só sabemos ser, na verdade, onde realmente cabemos e pertencemos, respeitando e alinhavando comodidades mútuas; somos grandes porque escolhemos caber nos mais pequenos; e não porque os mais pequenos escolhem caber em nós. Somos grandes, sim, porque, humildemente, tocamos os corações «apagados de cinzento» e acendemos ou reacendemos a esperança de quem revive para a (sua) esperança.

Sou da opinião de que há que haver um erro para haver um ganho; e de que há que haver um ganho, cheio de erros, para haver uma vitória. A necessidade que nós, seres humanos, temos de, para tudo, fazer «tudo depressa» é inimiga, total, da coerência na vida – e a necessidade, total, de nos encaixarmos em «todos muito rapidamente» é inimiga, total, da coesão connosco mesmos. Não é, de somenos, que as principais virtudes linguísticas de um texto – a manter – sejam, também, a coesão e a coerência: assim como nos homens, também é verdade que assim seja.

Sou da opinião, renovo, que temos de saber fazer; e mais, de saber sair derrotados – por cima – também para saborear a grandeza, assumindo que podemos tomar como nossos momentos, alguns, porventura, «poucochinhos», mas que jamais assumiremos uma postura de «poucochinhos» a vida toda.

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