
Ana Moutinho
Especialista em Pediatria no Hospital CUF Açores
O engasgamento em bebés é um dos maiores receios dos pais – e com razão, já que se trata de uma situação de emergência.
Nos primeiros meses, o bebé ainda está a aprender a coordenar a sucção, a deglutição e a respiração. Na segunda metade do primeiro ano de vida, quando começa a explorar o meio que o rodeia, pequenos objetos podem tornar-se em potenciais perigos.
As causas mais comuns que dão origem a este tipo de episódios incluem: um fluxo de leite demasiado rápido, uma posição inadequada durante a alimentação, a oferta de alimentos não apropriados à idade, e o acesso a pequenos objetos que são levados à boca.
É importante distinguir o engasgamento de um vómito ou regurgitação, pois no engasgamento verdadeiro, o bebé pode ficar silencioso, com dificuldade em respirar, com tosse ineficaz, ou coloração arroxeada dos lábios – a que chamamos cianose.
Recordo um caso, relatado pelos pais de um bebé de seis meses, que passaram por um susto durante a introdução de alimentos sólidos. Ofereceram um pedaço de maçã crua “para ele experimentar” e quando o bebé o levou à boca, engasgou-se e deixou de conseguir chorar. Felizmente, o pai tinha assistido a uma formação de primeiros socorros e soube agir de imediato. O desfecho foi positivo, mas poderia ter sido diferente.
Este caso ilustra dois pontos essenciais, quando falamos de engasgamento em bebés: a prevenção e a preparação para agir.
Algumas medidas simples reduzem significativamente o risco. No caso da alimentação através de biberão, é importante garantir que o fluxo é adequado, ou seja, que não existe uma saída do leite demasiado rápida. Na introdução dos alimentos sólidos, o bebé deve sempre ser alimentado sentado e com supervisão. Por outro lado, é importante evitar alimentos duros, redondos ou pequenos (como uvas inteiras ou cenoura crua), cortar os alimentos em pedaços apropriados e adaptar a textura à idade. A recomendação é que a introdução alimentar respeite o desenvolvimento do bebé, privilegiando texturas macias e seguras.
Mas, mesmo seguindo todas as medidas preventivas, pode acontecer um episódio de engasgamento. Nesse caso, o que fazer? Se o bebé estiver a tossir eficazmente e a chorar, os pais devem manter a calma e permitir que ele tente expelir o objeto sozinho, sob vigilância. Mas se não conseguir respirar, chorar ou tossir, se apresentar cianose, ou se houver perda de consciência, é necessário agir.
Em primeiro lugar, o bebé deve ser colocado de barriga para baixo, sobre o antebraço, com a cabeça mais baixa do que o tronco. Nessa posição, aplicar até cinco pancadas firmes entre as omoplatas. Se este procedimento não resultar, o bebé deve ser colocado de barriga para cima para realizar até cinco compressões torácicas, no centro do peito, com dois dedos. Os cuidadores devem alternar estas duas ações até à desobstrução das vias aéreas do bebé, ou até à chegada de ajuda médica, que deve ser acionada através do 112.
Ter formação em suporte básico de vida pediátrico aumenta a confiança e melhora a capacidade de resposta em situações críticas. O engasgamento é assustador, mas a informação certa faz toda a diferença. Se prevenir é o primeiro passo, saber agir pode salvar uma vida.
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