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Quando a fileira cresce, mas o produtor perde

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Os números mais recentes do setor leiteiro açoriano merecem mais do que uma leitura superficial.

Segundo dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores, no primeiro trimestre de 2026 a recolha direta de leite aumentou 1,1%, atingindo 153,28 milhões de litros, mais 1,7 milhões de litros face ao período homólogo.

À primeira vista, o dado parece positivo.

Mas quem conhece a fileira leiteira sabe que os mercados raramente se explicam por uma única variável.

No mesmo período, a produção de queijo nos Açores caiu 12,6%, passando de 8.633 para 7.541 toneladas.

E este dado muda completamente a leitura.

Porque o leite mede volume. Mas o queijo mede valor.

Nem todo litro de leite gera o mesmo retorno económico. Um litro destinado a leite UHT ou a produtos de menor diferenciação não cria o mesmo valor que um litro transformado em queijo, sobretudo quando falamos de produtos com identidade, marca, maturação e posicionamento premium.

Por isso, a verdadeira pergunta não é apenas se estamos a produzir mais.

A pergunta é: estamos a criar mais valor ou apenas mais volume?

E este ponto é decisivo.

Os Açores não ganharão uma competição assente apenas na quantidade. Somos uma região ultraperiférica, com custos logísticos elevados, forte dependência de fatores externos e limitações de escala.

A nossa competitividade só pode estar na diferenciação, na transformação e na capacidade de fazer com que cada litro de leite valha mais.

É por isso que a quebra do queijo merece atenção.

Pode haver explicações técnicas legítimas: ajustamento industrial, gestão de stocks, pressão comercial, necessidade de liquidez ou desvio para produtos com menor tempo de imobilização financeira.

Tudo isso faz parte da lógica dos mercados.

Mas há um dado adicional que não pode ser ignorado.

No início deste ano, produtores de algumas ilhas viram o preço pago ao leite diminuir cerca de 3 cêntimos por litro.

E aqui a leitura torna-se mais exigente.

Porque passamos a ter três sinais simultâneos: mais leite; menos queijo; menos preço pago ao produtor.

Ou seja: mais esforço produtivo, sem garantia de melhor remuneração.

Quem trabalha no setor sabe o que representam três cêntimos por litro.

Numa exploração com 500 mil litros anuais, falamos de menos 15 mil euros por ano.

Numa exploração com um milhão de litros, menos 30 mil euros.

Não estamos a falar de um detalhe estatístico.

Estamos a falar de rendimento, tesouraria, investimento, previsibilidade e, muitas vezes, da diferença entre continuar ou desistir.

Há ainda um paradoxo que quem conhece a produção leiteira compreende bem.

Quando o preço pago ao produtor desce, a reação económica imediata raramente é produzir menos.

Pelo contrário.

Numa exploração leiteira, os custos fixos mantêm-se: salários, energia, maquinaria, financiamentos, manutenção, rendas.

A estrutura continua lá.

E quando o litro vale menos, a reação de sobrevivência tende a ser simples: produzir mais para tentar compensar o que se perdeu.

Mas é precisamente aqui que reside um dos maiores riscos do setor.

Aquilo que faz sentido à escala individual de uma exploração pode, quando replicado em larga escala, agravar o problema: mais oferta, maior pressão sobre o mercado, novo aperto no preço.

Perante esta realidade, uma das respostas que o Governo tem vindo a assumir passa pela reconversão de explorações leiteiras para produção de carne.

A medida pode fazer sentido em determinados contextos e em determinadas ilhas.

Mas levanta uma questão essencial: qual é afinal a visão para a fileira do leite e dos lacticínios nos Açores?

Porque há uma diferença entre gerir ajustamentos conjunturais e aceitar, como resposta estrutural, a redução da própria capacidade produtiva.

Se perante a pressão sobre o preço a solução passa por reduzir produção, corremos o risco de responder a uma dificuldade de mercado com retração produtiva, em vez de enfrentar a verdadeira questão: a criação e distribuição de valor ao longo da cadeia.

E é precisamente aqui que entra a política.

Não para contrariar artificialmente o mercado.

Mas para garantir visão estratégica sobre a forma como a fileira se organiza, valoriza e distribui riqueza.

Porque se a fileira cresce em volume, mas quem produz perde rendimento, então há uma pergunta inevitável: quem está, afinal, a ficar com o valor gerado ao longo da cadeia?

Os Açores não podem resignar-se a um modelo em que a resposta às oscilações do mercado passa por produzir mais, transformar menos em valor acrescentado e ajustar o equilíbrio financeiro sempre à custa do elo mais vulnerável.

Porque no fim, os números sobem e descem.

A fileira ajusta-se. A indústria reorganiza-se. O mercado oscila. A distribuição protege as suas margens. Mas quem absorve a pancada continua a ser quem acorda às cinco da manhã para fazer a ordenha.

Isto não é sustentável.

Porque sem produtores não há leite.

Sem leite não há indústria.

Sem indústria não há fileira.

Mas há uma verdade mais profunda do que qualquer indicador económico: nenhuma fileira resiste quando quem trabalha todos os dias deixa de sentir que o esforço compensa.

Quando a esperança se vai tornando mais curta do que os dias de trabalho.

Quando acordar às cinco da manhã deixa de ser sinal de compromisso e passa a ser apenas resistência.

E quando se perde um produtor, não se perde apenas produção.

Perde-se conhecimento.

Perde-se território.

Perde-se economia local.

Perde-se identidade.

Perde-se futuro.

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