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Não tive tempo para morrer!

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Sou frequentemente confrontado com a questão da morte. Não me é estranho a reflexão pessoal e comunitária sobre esta misteriosa certeza, mas, em agosto passado, Deus surpreende-me com uma questão.

Sentado á beira-mar, encontro o meu genuflexório preferido de verão. Como é bom rezar -mentalmente – olhando o mar. Num desses momentos Deus colocou-me a questão: Nuno… e se te pedisse para morrer hoje…?! De imediato respondi: Não posso! Não tenho tempo! Não é por mal, mas hoje ainda tenho tanto que fazer: missa…reunião. No mesmo instante, ressoaram gargalhadas no silêncio da minha oração.

A resposta não se prendeu com a vontade, a este nível estou bem resolvido, refugio-me sempre na afirmação de São Paulo «a meus olhos, a vida não tem valor algum; basta-me poder concluir a minha carreira e cumprir a missão que recebi do Senhor Jesus, dando testemunho do Evangelho da graça de Deus.» (Act.20.24), isto é, a minha vontade é continuar a anunciar e a testemunhar, na minha fraqueza, a grandeza de Deus, mas quando for chamado a juntar-me a Deus para sempre, aqui estou! O problema é que até para morrer pareceu-me não ter tempo.

Como homem deste tempo, vivo enredado no engano de não ter tempo, isto é, na dificuldade de centrar as horas, os dias, a partir do essencial. Hoje, no relativismo em que vivemos tudo tem, aparentemente, a mesma importante, mas todos sabemos que não tem.

Os ponteiros do meu, dos nossos relógios tem de ser as pessoas, os afetos, porque são eles que marcaram verdadeiramente cada minuto, cada segundo da nossa existência. Como é inquietante para um padre, para um pai ou para um filho não ter tempo para os outros… mas também é verdade que Deus sabe como nos esforçamos por acertar os ponteiros em cada dia.

Depois de tudo, apercebi-me que não deixei Deus acabar a pergunta: Nuno… e se te pedisse para morrer hoje: para a preguiça, para o comodismo, para a indiferença perante os que sofrem e estão tristes…?

Pois! Nem no silêncio da minha oração tive tempo para escutar o essencial: Deus!

Pe. Nuno Maiato 

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