Log in

À Sofia Ferreira

Alexandra Manes

Como qualquer reflexão que se quer ponderada, começo por pensar na posição masculina, através do pensamento de homens que foram em tempos reconhecidos de forma determinante, e que por aí ainda andam na boca de infelizes, com mais frequência do que deveriam.

Falo de Aristóteles, por exemplo. Para quem ser Mulher representava uma desvantagem natural. Ou de Rousseau, que dizia que a Mulher servia para obedecer e agradar. Kant achava que uma mulher formada perdia o charme. Sem esquecer Pitágoras, que, pasmem-se, achava que o “princípio bom” era responsável pela criação da ordem, da luz e do homem, enquanto o “princípio mal” criara o caos, as trevas e a mulher. Jordan Peterson gosta de citar este último, mas não perco tempo com imitações “Temu”.

Silenciar as mulheres na sociedade não é responsabilidade que se limite a este tipo de censura de pensamento, todavia, há quem, pelo ridículo e pela deslegitimação da palavra, procure ser mais subtil, e exilar a pessoa, a sua emoção, o seu sentimento e o seu afeto. Para construir o poder patriarcal conforme o conhecemos, foi preciso adormecer o lado humano da Mulher. Em contrapartida, sempre houve mulheres que não aceitaram essa narrativa. Algumas, bem perto de nós, cruzando-se nas esquinas, de forma anónima, mas resistente. Por ocasião do Dia da Mulher, é dessas mulheres que quero falar, destacando as que fazem do bem-estar animal a sua missão, de forma séria e sem aproveitamentos políticos ou pessoais. É delas que falarei, pela pessoa da Sofia Ferreira.

Sofia tem-se feito ouvir na causa animal, e não só, sendo o rosto de vozes silenciadas, por receio de represálias. É o suporte de famílias que temem perder os seus animais. Denuncia maus-tratos, tendo até a coragem de não recuar perante os poderes vigentes que nos rodeiam. Conta com um percurso longo, onde coordenou o Núcleo de Aveiro da Associação Animais de Rua, especializada na Captura, Esterilização e Devolução (CED) para controlo populacional de forma ética. Pelos Açores, trabalhou com a Associação Animais de Rua, em S. Miguel, e mais tarde formou um grupo para praticar o método CED na ilha Terceira, onde depois criou a Ser – Associação de Sensibilização, Esterilização e Resgate Animal. Por ali, já conseguiu resultados a 100%, no que concerne ao controlo de várias colónias sinalizadas. Perante a realidade que encontrou, viu-se forçada a trabalhar de forma mais direta no resgate de animais, no fornecimento de cuidados veterinários e na articulação de processos de adoção responsável. Tem-no feito de forma incansável, contra duras marés.

Sofia, perante tantas dificuldades, sem procurares holofotes, redesenhas e afirmas o papel da emoção e do afeto, não baixando os braços ou reduzindo o teu lado feminino, recusando cadeiras reservadas, ou caminhos enviesados. Dás do teu tempo aos animais, e às pessoas. Dás da tua tristeza, quando não dá para salvar algum caso. Geres-te, e partes novamente, para o cuidado dos que continuam a precisar.

Permanece a tendência para gozar com a causa animal. Esquecem-se de quem fez o que podia para criar plataformas para a disponibilização de tetos, durante a crise de São Jorge, por exemplo. Eu não me esqueço de que foste tu, Sofia. E agradeço a tua persistência, muitas vezes incompreendida. Força da Natureza. Mulher livre, sem amarras. Com liberdade e frontalidade que amedronta o sistema patriarcal e a conivência de mulheres que permitem que ele continue a existir. Obrigada, Sofia.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

CAPTCHA ImageChange Image