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Diretor do Museu das Flores destaca identidade, memória histórica e papel da ilha na hospitalidade e abertura ao mundo

Luís Filipe Vieira salientou o papel do museu como guardião da memória coletiva e motor de desenvolvimento local, sublinhando que a ilha das Flores combina segurança, património, natureza e uma tradição histórica de acolhimento que continua viva nos dias de hoje

Luís Filipe Vieira, diretor do Museu das Flores © DIÁRIO DA LAGOA

O diretor do Museu das Flores, na ilha das Flores, nos Açores, Luís Filipe Vieira, considera que a missão da instituição ultrapassa largamente a preservação de objetos e documentos históricos, assumindo-se como um espaço vivo ao serviço da comunidade e do desenvolvimento local. O responsável afirmou que o Museu das Flores é “essencialmente um museu da História da ilha e das suas gentes”, funcionando como instrumento de valorização identitária e também de atração de visitantes.

Em declarações ao Diário da Lagoa, Luís Filipe Vieira, diretor do museu desde 2001, refletiu sobre o papel da instituição, a evolução histórica da ilha açoriana, os desafios da insularidade e o futuro do território, deixando também um convite a quem ainda não conhece a ilha: visitar um lugar marcado pela paisagem, tranquilidade e hospitalidade.

Segundo explicou, o museu permite “fixar valores identitários e práticas históricas já caídas em desuso”, mas também usar esse património “em benefício do presente”, ajudando a captar turismo e a mostrar aquilo que distingue a ilha no contexto açoriano e europeu: “Nada melhor do que a nossa história e aquilo que nos difere dos outros”, sublinhou.

Para Luís Filipe Vieira, o conceito de comunidade deve ser entendido de forma ampla, abrangendo não apenas os residentes permanentes, mas também quem visita temporariamente a ilha.

Temos a perspetiva do museu ao serviço da sua comunidade e aqui entendemos como comunidade os que cá estão e aqueles que temporariamente partilham a sua existência connosco”, afirmou.

Ao longo do ano, o museu promove iniciativas dirigidas a públicos muito diversos, desde crianças a adultos, numa estratégia de formação de novos públicos e de ligação ao território. O diretor destacou atividades para os mais novos, concertos, exposições de fotografia e pintura, conferências e visitas de campo, explicando que o museu só faz sentido se a população se rever no seu trabalho.

Se eles não nos acharem nenhum préstimo, seremos apenas um armazém de coisas velhas e era isso que eu gostava que o museu não fosse”, declarou.

Questionado sobre a identidade florentina, Luís Filipe Vieira descreveu a população da ilha como resultado de séculos de cruzamento de povos e culturas.

Quem somos? Uma amálgama”, resumiu, recordando que às Flores chegaram gentes do território continental português, flamengos, italianos, espanhóis e também contingentes africanos escravizados nos primeiros tempos do povoamento.

Essa mistura, defende, ajudou a moldar uma cultura aberta ao exterior e marcada pela hospitalidade. Citando antigas referências históricas, lembrou que já no século XVI se reconhecia aos florentinos a capacidade de acolher quem aqui chegava em dificuldade:

Uma das características que ele refere para este povo é que gostavam muito de agasalhar aqueles que aqui aportavam”, assinalou, numa alusão às descrições do cronista açoriano Gaspar Frutuoso.

O nosso entrevistado recordou ainda que a ilha das Flores foi durante séculos ponto de passagem de rotas marítimas entre a Europa, África, Oriente e Américas, acumulando uma herança náutica singular.

As Flores são um santuário da Arqueologia Subaquática”, afirmou, defendendo que essa riqueza histórica representa uma valência com grande potencial futuro “quer para a história, quer para o turismo e para a própria comunidade”.

Sobre a modernização da ilha, Luís Filipe Vieira entende que o século XX chegou tardiamente às Flores, apontando o ano de 1966 como momento decisivo, com a instalação de uma estação francesa no âmbito de acordos internacionais. Segundo explicou, foi esse processo que trouxe melhorias estruturantes, como o aeroporto, novas estradas, hospital e reforço energético.

Apesar do atraso histórico, mostra-se confiante quanto à evolução recente da ilha, sobretudo em matéria de acessibilidades e telecomunicações.

Eu sou um otimista. Eu acredito que as coisas avançam, podem não avançar à velocidade que nós queremos, mas as coisas têm melhorado”, referiu. Como exemplo, recordou que há quatro décadas existiam apenas dois ou três voos semanais, enquanto hoje existem “dois ou três diários, já nesta altura do ano”.

Também a chegada da fibra ótica e o acesso digital alteraram profundamente a realidade local.

Hoje, nas Flores, quem quiser estará tão bem informado e terá uma noção tão objetiva quanto possível da realidade, como quem esteja noutro centro qualquer”, sustentou.

Ao descrever a vivência atual na ilha, o diretor destacou a serenidade social e a qualidade de vida como marcas distintivas.

As Flores, as suas gentes, sempre foram características de gente calma, serena, ponderada”, disse, acrescentando com humor que tem “um amigo que diz que padece de stress por não ter stress nesta ilha”.

Para quem chega de fora, Luís Filipe Vieira acredita que a principal surpresa é encontrar um território seguro, acolhedor e de enorme valor natural.

Encontram uma ilha com aquilo que eu acho que hoje em dia não tem preço, que ainda é uma segurança enormíssima. Você vai na rua e ninguém o vai roubar, ninguém vai fazer-lhe qualquer tipo de mal”, afirmou. A isso junta-se uma “paisagem fantástica”, que considera um dos maiores ativos florentinos.

Questionado sobre o futuro, preferiu prudência, reconhecendo que a velocidade da mudança tecnológica torna arriscadas previsões concretas. Ainda assim, deixou uma certeza.

Tenho a certeza que daqui a 30 ou 40 anos, quando eu já cá não estiver, será de certeza melhor do que é hoje”, enfatizou.

No plano migratório, Luís Filipe Vieira mostrou-se convicto de que a tradição de acolhimento permanece intacta.

Eu penso que essa gente será sempre bem-vinda nesta ilha”, afirmou.

O responsável recordou várias fases históricas de chegada de pessoas vindas do exterior, desde escravizados africanos aos franceses dos anos 1960, passando por trabalhadores oriundos de países africanos de expressão portuguesa nos anos 1980, afirmando que “uma boa parte deles casaram, estão perfeitamente integrados na comunidade e não se foram embora”.

Na mensagem final dirigida a quem pondera visitar a ilha, o diretor do Museu das Flores reconheceu que os custos de deslocação, alojamento e alimentação ainda constituem um obstáculo.

Tenho plena consciência que vir às Flores não é uma tarefa barata”, admitiu.

Ainda assim, acredita que a experiência compensa largamente.

Se encontrarem algumas dificuldades nos custos, outras coisas vão compensá-los, nomeadamente a segurança e a paisagem que é fabulosa”, sustentou.

Luís Filipe Vieira concluiu com um apelo simples e direto: “Nós também somos gente relativamente simpática e acolhedora, penso que valerá sempre a pena uma visita à ilha das Flores”, finalizou.

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Ígor LopesJornalista

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