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Carta a um jovem poeta

– (porque se eu ao menos tivesse lido esta carta antes…)

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Caro jovem poeta, de dezoito anos, Júlio,

Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de saúde e cheio de jovialidade.

Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como é, está, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, está adiado e, assim, para sempre, a glória que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, está perdido; não há, como querias, um pedaço deste Céu.

Caro poeta, mas não desanimes. A vida se é longa, ou curta, não importa – importa mais a sua ligeireza aos assuntos do coração – e da razão.

Diria eu, do alto do meu posto, onze anos à frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel é mesmo essa, a palavra – absurda – “Vazio”, a mesma que tu adiarás constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu coração, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de mágoas.

Publicarás; é certo – mas quem não neste ermo? Isso não é critério e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.

Escrever versos dói – dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, à latitude desse verso, uma distância concreta entre o passado e o futuro – dói saber quem somos, e o que somos, enfim, (só) a penugem do Tempo, o pó da calçada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da maré alta.

Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim – com “y”, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu não és uma má pessoa; és uma pessoa à qual más coisas aconteceram – e, para tal, movido pela fúria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperançoso, demorado, ansioso, adiado …e, muitas vezes, odiado.

Espero-te, jovem poeta Júlio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que não consegues enxergar com esses olhos cheios de esperança e de virilidade: fala-te quem já passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem já viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.

Não basta escrever bem; é preciso ter uma boa fama no público, ser apupado e respeitado pelas elites; é necessário conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus próprios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consciência cheio de urina pálida. Sim: de escura urina, para não dizer outra palavra – porque nada mais importa do que ser verdadeiramente “importante” nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual quê, também falhará.

Assim te vês, decerto, no presente: muito “importante”, inédito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, ó jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e inéditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno – prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo cânone ou pelo Nobel… ou pelo premiozinho literário.

Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas não nos futuros louvores, mas em ti. E, embora não o vás fazer, que o faças, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho – longe de todos: vale a poesia a pena nas mãos de um jovem poeta?

Escrevo-te para te salvar; embora já esteja perdida, de pouca absolvição, a tua nobre, e genuína, pena… Então, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servirá mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinatário.

Assim o farás: porás estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de alguém verdadeiramente amigo e lúcido, terás a tua jovem consciência, virtuosa, a afirmar-te com raiva: “É um grande disparate!”. E, não obstante acompanhado de outros poetas – mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles também te deixarão à berma da estrada, por só… e só, somente sozinho com a tua consciência.

Restar-te-á, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atrás. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, Júlio. Não se desfaz. Não há remédio. Nem retorno. Nem absolvição.

Mas não será, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa só sua?

Então, também a terás, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.

Lamento contar-te, mas, de ti, verá auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solidão ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio – terminarás, ó se sim…, os primeiros degraus académicos e, por ora, não te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, só por isso – eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles…

Termino, ó jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: lê! Lê! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.

Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremediável. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o coração e, claro, a escrita.

Com enorme estima,
o teu
Júlio Tavares Oliveira

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