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As pessoas tristes

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

As pessoas tristes ouvem músicas tristes. As pessoas tristes falam, para si, melodias tristes; são pessoas que entoam ritmos, maneiras de se expressar, de sentir o mundo, com os outros, à sua volta bastante novas e surpreendentes.

As pessoas tristes normalmente não fazem de conta que estão tristes. Ou estão, na maioria das vezes, virtualmente felizes; ou estão, à socapa das vezes, aparentemente, felizes; ou estão, nas suas pequeninas miudezas, no sótão do seu pequeno apartamento, escondidas do mundo exterior, tristes e sozinhas.

Mas as pessoas tristes não são músicas tristes. Muito pelo contrário! Isto, apesar de ouvirem músicas lentas, ecoando melodias tristes; são pessoas que passaram por situações muito difíceis, muito complicadas; pessoas cujas histórias, e estórias, são tão difíceis de compreender que, uma vez compreendidas, teríamos de voltar a perceber como funcionam, do início, para entendermos a maneira como as pessoas tristes são, aparentemente, tão felizes.

As pessoas tristes têm sempre um sorriso no rosto. Sim, elas carregam, sempre, consigo, um sorriso no rosto. Para os outros, principalmente; porque sabem bem o que custa a tristeza dos outros.

São assim as pessoas tristes: altruístas na tristeza; simples e capazes de meter um sorriso em andamento, num compasso bem seguro; num altruísmo que tem tanto de dar ao outro, como de tirar de si mesmo, da sua própria e negra tristeza, para dar imensa felicidade ao outro, à tristeza do outro.

Porque, e para bom entendedor, todos nós somos pessoas verdadeiramente tristes. Todos nós alavancamos uma tristeza, carregamos, dentro de nós, intimamente, uma tristeza bem funda dentro de nós.

O papel das pessoas tristes é esse: arranjar uma forma de, com a sua fundeada e crónica tristeza, sublimá-la, reciclá-la, e dar um nome novo a essa forma de melancolia carregada na forma da felicidade nova dos outros, de mais alguém, mesmo que seja de um mero desconhecido na rua.

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