Almas Gémeas

© LIDIA MENESES
Ilustração e texto de Lidia Meneses

Múltiplas vezes ilustradas, filosofadas e transplantadas para a 7.ª Arte. Umas ficcionadas, outras verídicas e outras usadas como ardilosas manobras mediáticas. Conhecemos, com certeza: Cleópatra e Marco António, Romeu e Julieta… (1) Porque persiste esta ideia — almas gémeas — hoje mais do que nunca?

A ideia de que existe alguém com o poder de nos completar e fazer feliz, como se precisássemos desse complemento, tem sido amplamente difundida. A notável expressão de amor, em forma de arquitetura, de um imperador indiano para a sua consorte favorita, o templo Taj Mahal para uma de suas esposas, a Mumtaz, é exemplo disso. Este ícone realizado com as melhores matérias-primas, de então, quase foi perfeito, não fosse construído, apenas, após a sua morte, ao dar à luz o seu 14.º filho. Em consequência da morte da sua favorita, a quem lhe foi fiel, o imperador terá entrado numa lenta e tortuosa descida aos infernos, sacrificando os criadores do túmulo com recompensas tenebrosas, tais como a mutilação dos seus membros e olhos, pois nada refletia a perfeição da amada e a dor dessa perda.

Na arte, a presença ou idealização desta outra metade já culminou em diversas obras grandíloquas. Grandes amores foram celebrados, na evocação de doces recordações de enamorados, em símbolos e outras formas. Temos várias provas em Portugal, a Serra de Sintra e a Quinta das Lágrimas, entre vários outros palácios, templos e casas de família. Na literatura, estas histórias são, por infortúnio, muitas vezes, ultra dramatizadas e terminam, quase sempre, em cabeças rachadas e corações trespassados.

O mito da alma gémea surge, pela primeira vez, na obra O Banquete de Platão, escrito há 2400 anos. Na origem, existiriam três sexos: homem, mulher e a junção deles. Estes últimos, os andróginos, tinham quatro braços e quatro pernas e uma cabeça com dois rostos virados para lados opostos, podiam rolar, caminhar para a frente e para trás. Estes seres eram tão poderosos que o ciumento Zeus decidiu dividi-los ao meio como se fossem maçãs. Tal ação, enfraqueceu-os, provocando-lhes o desespero. Abraçavam-se e ficavam assim. O primeiro a morrer provocava a desorientação do outro. Assim, Platão criou o mito das almas gémeas, quando, na verdade, tenta explicar, ao longo da sua obra, o que é o amor.

Como sabemos, os mitos existem para explicarem os nossos sentimentos e comportamentos, através do uso de uma linguagem poética. Este mito, em especial, tenta explicar o vazio, relata uma saudade incurável e a busca por uma metade, na ânsia de encontrar completude, sentido e paz. A humanidade segue, contudo, nessa busca da sua cara metade, dado que, agora, está à distância de um clique e, com o milagre da ciência e da tecnologia, da programação e dos números, ao serviço da felicidade absoluta, o que é que pode correr mal? Uma notícia publicada pelo jornal Observador dava conta de que um terço do mercado de relacionamentos online pertence ao império Match Group, cuja jóia da coroa é o Tinder, com cerca de 50 milhões de utilizadores mensais. Apenas uma das muitas aplicações (apps) disponíveis para ajudar nesse que será um dos maiores enigmas da existência humana, o encontro com a alma gémea. Com 50 milhões de almas inscritas em apps de encontros, a procura é notória. Brad Wilcox, professor de Sociologia e diretor do Projeto Nacional de Casamentos da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, observa um aumento deste apelo das almas gémeas, desde 1970, com o surgimento da cultura do individualismo: «Agora, as pessoas estão mais dispostas a procurar relacionamentos que as façam felizes e realizadas», afirmou. O planeta é constituído por oito biliões de pessoas; parece muita coincidência que almas gémeas possam, de facto, encontrar-se na mesma escola, na mesma sala de aula, num elevador ou mesmo num encontro arranjado. Parece, realmente, isotérico, mas a ideia da alma gémea persiste ao longo de muitas épocas e sociedades diferentes. O que há sobre este conceito de tão irresistível?

Não é por acaso que os crentes tendem a ter a chamada mentalidade «do destino». Bem ou mal fadados estão à espera de uma alma perfeita. Podem, portanto, ser mais propensos a duvidar de atuais relacionamentos e de os terminar. Esperam ver cumprido o destino. Não será, antes, a esperança de se ser resgatado, na espera de um «Cavaleiro Andante» ou uma «Fada do Lar»? Não parece justo querer o outro igual, na nossa vida, para nos servir, para nos ser refém, para estar à nossa mercê, para ser perfeito, só para nós. Talvez, só mesmo, com a revolução e aprimorar da Inteligência Artificial.

 A ideia de alma igual reúne diversos sistemas filosóficos e religiosos, na crença da reencarnação — especialmente, a do hinduísmo. Partem do princípio de que a alma tem o poder de subsistir  à morte física e poder encarnar em diversos novos corpos, ao longo do tempo, com o objetivo específico de se auto aperfeiçoar. Isto porque, nesta filosofia, todos os nossos atos geram consequências. Já para o Budismo, existem almas parceiras. São duas almas que foram geradas juntas e, quando estão no mundo, procuram encontrar-se para se completarem. Há vários tipos de parceria: casal, mãe e filho, irmão e irmã, e assim por diante. Por fim, é preciso explicar à luz da Psicologia e da Psicanálise o que são, afinal, almas afins. A pinça da ciência nunca deixa nada por explicar, portanto, fica um pouco difícil acreditar ou aceitar este conceito, tão… irracional. Essas áreas dão uma explicação para esse sentimento de ter encontrado um pedaço perdido da nossa existência. Para psicólogos e psicanalistas, não existe alma gémea, pelo menos, não à luz de algumas crenças. O psicanalista Carl Jung chamou-lhes arquétipos — modelos idealizados para dar algum valor momentâneo a alguém, visto que há pessoas com traços semelhantes, em todos os lugares. Neste ponto, os destinados, isto é, os crentes, quase perdem a esperança de reconhecer a outra metade e de lhe chamar, antes, uma ilusão romântica tola.

As pessoas experientes sabem, porém, que o outro é identificado, de imediato, como alguém muito familiar e que há uma compreensão mútua de que nada será igual, a partir dali. Como se, nesse encontro inusitado, tempo e som parassem. Portanto, não é uma escolha, é um acaso. Na sensação de familiaridade e conectividade, pode haver simples explicação: como terem partilhado infâncias e vivências, terem crescido na mesma rua, serem colegas de profissão na mesma área ou partilharem de conhecimentos e gostos comuns. Os modos de pensar são semelhantes, nem sempre concordantes. Devido a tal intensidade, o relacionamento pode ser caótico e destrutivo, especialmente se agirem como espelho refletor. Muitas vezes, atraem-se fisicamente, outras podem ter uma relação baseada, apenas, na estimulação intelectual, o que pode ser um desafio para egos mais fortes. A intensidade pode assustar. Acontece uma eterna perseguição, a partir daí. Mesmo separados continuam lado a lado, como se um fio invisível os conectasse. Os parceiros da vida ou, melhor, da eternidade estão espiritual e emocionalmente vinculados. Há uma ligação profunda, uma respeitável admiração mútua pelas suas qualidades e diferenças, bem como pelos pontos comuns e tangentes. Não existe egoísmo ou a rudimentar noção de posse, mas, antes, a sensação de pertença.

Porque existe tanto poder, nesta sorte? A vibração e a luz emanada destas reuniões, a qual proporciona, motiva e inspira, pode ser sentida, por todos os que os rodeiam. Os outros, também, reconhecem-nos, neste encontro inusitado. Diz-se que podemos achar uma  alma gémea de diferentes formas: numa amiga, num amigo, numa família completa, num professor e até num animal de estimação. Por vezes, pode acontecer reunir-se toda uma equipa de almas gémeas, na qual todos se admiram, compreendem e sabem o seu lugar na engrenagem de um mecanismo, em modo quase automático. Partilham o máximo de si, na pretensão de se agradarem, possuem grande confiança e valores comuns. Este é um tema muitas vezes debatido nos departamentos de Recursos Humanos de empresas, no sentido de se criar a melhor sinergia, ao albergar-se a diversidade. Dos Queen aos Il Divo, dos Nirvana até à grande empresa Delta, não são raros os casos, de grupos musicais e de empresas familiares, criadas por casais, espinhas dorsais de grandes empreendimentos. Há, até, um modelo utilizado, em empresas, na gestão de pessoas e na seleção de novos talentos, o Eneagrama: descreve nove tipos de personalidade, interconectáveis e facilmente observáveis, no dia a dia. É uma técnica bastante eficaz para fortalecer aspetos positivos dos nossos comportamentos pessoais e profissionais, estimular o  trabalho em equipa, entre profissionais com diferentes estilos, além de orientar na superação dos comportamentos considerados mais frágeis. Um modelo multifacetado para a nossa dimensão humana, já que, por meio destes nove perfis, as personalidades são definíveis e combináveis. Existem outros inúmeros métodos, contudo,  para os experientes, o elixir para encontrar e reter a outra metade, a que nos transcende as maneiras e espoleta ambições recai, sobretudo, na coragem. Este é um épico desafio, pois dominar a arte do fogo, tal como Camões o declamava, requer perícia, astúcia, temperança e determinação. Quiçá algum estoicismo.

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(1) Akenaton e Nefertiti, Adão e Eva, Jesus e Maria Madalena, John Lennon e Yoko Ono, David Bowie e Iman, Pierre e Marie Currie, Rainha Vitória e príncipe Alberto, Afrodite e Ares, Vénus e Marte, Osíris e Ísis, Aristotle Onassis e Maria Callas, Pedro I e Inês de Castro, príncipe Harry e Meghan Markle. 

 

Categorias: Opinião

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