A pedagogia do João Pedro d’Água de Paú

RoberTo MedeirOs

Quem não conhece, em Água de Pau, o JOÃO PEDRO? É deveras uma figura típica que nunca se esquece, nem o seu percurso de vida, nem as suas peripécias. Todas as terras têm a sua história.
Todas as terras têm as suas figuras típicas. O povo memoriza as suas manias, os seus defeitos, as suas características e até as suas virtudes, pois também as têm. O João Pedro tem isso tudo, como todos nós também temos.
Atualmente o João Pedro vive da reciclagem de tudo e de nada, de coisas que não lembra ao diabo, mas há quem diz que ele faz dinheiro de tudo o que – para casa leva!
Se é verdade, não sei. Só sei é que os vizinhos, não gostam, porque muitas das vezes a casa ou o quintal, parece mais uma lixeira do que um Centro de Recolha de Metais ou Vidros, nem tão pouco de Valorização Orgânica por Compostagem, pois de tempos a tempos, tem de ser alguns voluntários ou a Câmara Municipal de Lagoa que tem de ir lá exigir ou limpar tudo.
Mas o João Pedro vai vivendo. Não se trata de criticá-lo, nem de criticar nenhuma instituição que devesse apoiá-lo, pois várias já o tentaram. Ele não deixava nem com as mesmas queria conversa. Felizmente, há poucos anos João Pedro aceitou ajuda alimentar.

A sucata é o modo de vida do João Pedro Foto: Roberto Medeiros

Passemos à frente e entremos no túnel do passado e recordemos o nosso amigo João Pedro ainda jovem, no período da «Tropa».
Nessa altura, na década de 1970, o meu amigo do Liceu de Ponta Delgada, José Manuel Braga, furriel do Regimento de Infantaria de Ponta Delgada (RIPD), com a unidade de artilharia sediada em Belém “Bateria”, lembrou-se de realizar, com o seu pelotão, uma corrida de preparação física até ao Termo da Lagoa, início de Água de Pau.
Bem o João Pedro, que era soldado e fazia parte do mesmo pelotão, arranca endiabrado, deu corda nas botas e deixa o grupo, ultrapassa o seu oficial e desaparece de vista. Furioso, pensa o furriel que depois se iriam reencontrar no Termo da Lagoa e depois o soldado «fugidio do grupo» levaria a respetiva reprimenda.
Bem, quando lá chegou o grupo, João Pedro não estava. Onde estaria?…Para não fazer a história mais comprida, pois o nosso amigo, não se ficou pelo “termo” da Lagoa (!!!), foi sempre direto para casa, para Água de Pau.
Sem perceber bem, alguém informou o Furriel, que o mais certo era ele ter ido «p’ra casa». O furriel nem queria acreditar. Então, e, depois de alguns esclarecimentos de alguns soldados da mesma terra do João Pedro ao Furriel, aconselharam-no a mandar o mesmo para casa, de vez, claro!
Ele nunca acertava: em marcar passo, virar à esquerda ou à direita,… nunca dava certo!!… nem sei como levaram tanto tempo a perceber isso?! Se fosse hoje o João Pedro nem ia à tropa… pois é, já não há guerra no Ultramar!
Bem, mas o que se sabe e todos se recordam na sua terra, é que, o João Pedro quando era «rapaz» participava nalgumas corridas de atletismo do concelho e algumas vezes levava a taça para casa!
Tinha muita resistência e estava habituado a fazer longas caminhadas diárias entre Água de Pau e Lagoa. Só não percebia, era como vencia as provas…mesmo de botas de cano!… não há explicação, para isso!

A sua atividade é reconhecida nos Cortejos Etnográficos de Nª Sª Anjos Foto: Roberto Medeiros

De vez em quando, alguém vai a casa do João Pedro e faz uma «limpeza geral», nem todos estão autorizados a fazerem isso. Só quem ele quer. Na rua fala com todos e todas falam com ele…tem uma conversa «muito própria» …não há outro igual…é como em todas as terras…se não têm um João Pedro têm o Zé Maria dos Galos,
etc…mas a todos eles tenho res
peito… porque afinal, somos todos irmãos uns dos outros… todos iguais, todos diferentes.
João Pedro, ele tem esta vida há já muitos anos. Ele recolhe materiais que podem ser reciclados para vender. Ele tem alguém que vem a casa dele recolher estas coisas todas e paga-lhe. Como expliquei antes ele é que prefere essa vida. Já tentaram ajudá-lo para mudar de vida mas ele gosta de viver assim e temos de respeitar.
Mas histórias do João Pedro não faltam…e engraçadíssimas, mas ficam para outra ocasião.
O João Pedro quando exerce a sua atividade faz pedagogia. Nas escolas os professores ensinam aos alunos como devem fazer reciclagem – trata-se de uma aula teórica. Quando os alunos saem da escola
vêm o João Pedro, a reciclar – trata-se de uma aula prática!! E ele faz isso, sempre com um sorriso de todo o tamanho… ora vejam lá na foto, mais uma vez!!

A comunidade prefere o João Pedro na entrega da sua sucata Foto: Roberto Medeiros

Ála-i-ála!… diz na passagem, o João Pedro, cumprimentando e acenando todos os que vai encontrando no caminho enquanto vai empurrando o seu «carrinho-de-bébé” cheio de sucata recolhida pelas ruas da Vila de Água de Pau, no concelho de Lagoa – Açores.
Das redes sociais e no Facebook destaco um dos comentários mais interessante a ele dirigido por José Carlos Carrilho: “Certamente que o João Pedro, neste momento, nem sonha os amigos que estão a falar bem dele! Ele merece: Façam o favor de o cumprimentar por mim.”

(Crónica publicada na edição impressa de julho de 2020)

Categorias: Opinião

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