A Canadinha, O Velho, as carroças e o poço… e a Polícia!

Até metade do século vinte tudo era transportado de carroça em Água de Pau

Roberto Medeiros

No meu tempo – estou a falar dos anos 60 –, quando era criança, a “Canadinha” que ligava a rua do Valverde de Baixo à rua da Carreira em Água de Pau, era um labirinto, escuro, terreiro, cheio de regatos, covas e propício a topadas, já que quase toda a gente andava descalço.

A escuridão era medonha, pois não tinha luz. Ao tempo, nem tão pouco as únicas duas casas no cimo da rua tinham luz ainda até.

Todos tinham medo de à noite passar na Canadinha. Quem por lá se atrevia a passar, teria de ser a pé e nunca de carro, porque não havia, pois em 1964 não chegavam à meia dúzia os conversíveis na nossa terra.

Mesmo quem os tivesse e quisesse lá passar não podia, porque não passava um carro, antes de se alargar a «Canadinha» na mesma década (vereação de meu pai, Manuel Egídio de Medeiros).

Outra razão ainda era o facto de as pessoas, ao tempo também, temerem “O Velho”, recordam-se? As mães metiam medo aos filhos, avisando-os que se não chegassem cedo a casa podiam encontrar na rua o “Velho da Canadinha”. Fosse lá o que isso fosse, a intenção das mães era amedrontar as crianças para não permanecerem até muito tarde na rua.

E, aqui é que está a resposta ou motivo principal porque “no meu tempo todos tinham medo de “à noite” passar na Canadinha”… Era porque, antigamente, as crianças e os rapazes brincavam na rua! Hoje já não brincam!

Antes a gente andava e brincava nas ruas até «às Trindades» e hoje não tem hora para brincar na rua com amigos. Trocaram os amigos pelas «tablets sem chocolate» e agora é «boca-fechada» e «cabeça-no-ar» e dedos a «tocar-piano» nos telemóveis e outras formas de tecnologia moderna… e ficam toda a noite a jogar, na maioria das vezes – consigo próprio!

Voltando à Canadinha, que, como era escura «c’mó-demóne», a gente, os «rapazins» do meu tempo nem se atreviam a por lá passar, pois sem luz, aquele negrume, metia medo. Mais tarde foi alargada na curva, passou a ter luz pública, outras casas lá se construíram e as que lá estavam ganharam nova cara e depois viria a ser pavimentada, como hoje se encontra.

Mas, não podemos rapar nada da história de nenhum lugar. Podemos mudar, melhorar e passar por lá quando se quiser agora. Mas, a Canadinha, nunca me sairá da cabeça porque no meu subconsciente ao tempo de menino, era lá que estava “O Velho”!

Mas, a história não acaba aqui. Tem muitos outros episódios mais antigos, por isso vou contar, pelo menos mais um, para não esticarmos a martela, ou seja, não fazer a história muito comprida.

Moinho da Vila de Joaquim d’Arruda © D.R.

Ainda muito antes do meu tempo, anos 60, de quando brincávamos a amarrar portas pelos puxadores e depois batendo, fugíamos… no tempo de meu pai, nos anos 30, o que havia mais pelas nossas ruas eram carroças e carroceiros. Era o meio de transporte que havia. Nesse tempo, a juventude dava-se ao regalo de brincar também pregando partidas d’um corisco!

Em noites escuras, e quais eram as que não eram? Água de Pau possuía, à época, segundo o jornal «o Lagoense» 84 lâmpadas distribuídas pela vila toda! Então, alguns rapazes, cujos nomes até podia citá-los quase todos, organizavam-se em grupos de «malfazejas d’ocasião» e indo pelas noites escuras e frias, de rua em rua, levavam as carroças, paradas à porta dos donos, sem os mesmos por isso darem e arrastavam-nas para o Poço da Canadinha.

O Poço localizava-se nas traseiras do Auditório Municipal Ferreira da Silva. Esse poço recebia as águas das chuvas que corriam do Caminho do Mato e Valverdes, levadas pela Canadinha abaixo, enchendo-o no Inverno. No outro dia, era uma carga de trabalhos para se retirar as carroças de dentro do Poço, sobretudo, porque ficavam empilhadas umas sobre as outras!

Não se admirem os mais novos quando os pais lhes dizem “não façam isso, não façam aquilo”! É que eles já fizeram o mesmo e o pior é que estão a imaginar os filhos a passarem pelo que eles já passaram. No fundo, eles até querem que os filhos experimentem…, mas que não se magoem! E, pensam isso, como disse, com alguma saudade que uns expressam num sorriso escondido, se a experiência lhes foi favorável, ou com cara de poucos amigos, se a coisa não lhes correu lá muito bem, no seu tempo!

Voltando às carroças… no Poço! Era nesta altura que entrava em ação o senhor Ernesto Polícia. Deste ninguém tinha medo, pois tinha farda, falava alto, mas tinha bom coração, de manteiga, dizia-se!

Mas, a mulher (!) essa (?) não era para brincadeiras! Se ele é que vestia a farda, pois ela é que era conhecida por Maria Polícia! Obrigava o marido a correr os cantos todos de Água de Pau para dar cobro a todas as irregularidades ocasionadas com ou sem culpa voluntária. Cá se faz – cá se paga, dizia a Tia Maria Polícia!

Um dia, o tio Ernesto Polícia fez espera a dois carroceiros. Ambos eram compadres de meu pai. Um, era o tio Francisco Augusto de Medeiros, que ao tempo era ainda um rapazote e que, numa noite, vinha seguido pelo tio Virgínio Mestre, ambos nas suas carroças, carregadas de carga dos armazéns da cidade para A Cova da Onça, em Água de Pau.

Era noite serrada, regressavam nas suas carroças puxadas por bois, portanto, de tração lenta e pesados pela carga que transportavam também.

A viagem durara mais do que esperavam e as velas, luz de presença na estrada, tinham-se esmirrado, antes de chegarem a Água de Pau e assim vinham sem a iluminação obrigatória que se exigia aos meios de transporte que circulavam à noite nos caminhos.

Os dois carroceiros não se preocuparam, pois mesmo em noite escura como a que estava, os bois conheciam bem o caminho e por isso deixavam-se ser levados por eles.

Passaram as três cruzes (antiga fábrica da chicória), atravessaram o caminho velho (hoje parcialmente substituído por miradouro) e preparavam-se para descer a ladeira das Escaninhas (Foral Novo).

É aí que o Tio Ernesto Polícia está à espera deles, para ver se traziam luz de presença nas suas carroças. Ele sente o guincho das rodas das carroças de boi a aproximarem-se e coloca-se no meio do caminho e brada:

– Alto! Não tens luz. Estás multado! Identifica-te?

O carroceiro da frente que era Francisco Augusto de Medeiros face à pergunta responde:

– Cá e Lá! E, pica o boi para não parar nem abrandar o andamento.

– Cá e Lá? Isso é algum nome? C’mé o teu nome carroceiro?

Entretanto as carroças não abrandaram e avançaram em direção ao tio Ernesto Polícia. Como ele era baixinho e gordinho, com a escuridão, nem se atreveu a aproximar-se da carroça e afastou-se para não ser atropelado.

Vendo passar na sua frente o segundo carroceiro que era Virgínio Mestre, fez-lhe a mesma pergunta, já que também não trazia luz de presença:

– Alto! Estás multado! Identifica-te? Veio logo a resposta.

– Lá e Cá! Atira-lhe o Virgínio Mestre atiçando o boi com a aguilhada, para que se apressasse a descer a ladeira do Foral Novo.

– Mas, o que é isso? Um é o ‘cá-e-lá’ e o outro é o ‘lá-e-cá’, isso é nome de gente? Quando eu souber quem vocês são, vão os dois ‘pá pioula’, vão ver!

O que os dois queriam dizer, com cá-e-lá e lá-e-cá, era que a suas vidas, era andar de Água de Pau para a cidade e da cidade para Água de Pau, no transporte de mercadorias.

Afinal até responderam bem, mas, também, isso não era nenhuma espécie de identificação, já se sabe e bem entendido!

Fico por aqui… por hoje.

Crónica publicada na edição impressa de junho de 2022

Categorias: Opinião

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