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Lagoa assume liderança nacional na renovação habitacional, mas enfrenta pressão nos preços

Município lidera a construção de casas novas em Portugal, mas o recorde de oferta é acompanhado por uma escalada de preços: no último triénio, a avaliação imobiliária disparou 23,4%

Lagoa já se tornou o segundo município mais caro da sua zona de influência em São Miguel © DL

O município da Lagoa, na ilha de São Miguel, destaca-se atualmente como o concelho português com a maior proporção de construção de casas novas face ao parque habitacional existente. O dado, sustentado por estatísticas da Pordata e do Instituto Nacional de Estatística (INE), revela um crescimento robusto entre 2022 e 2024, consolidando o território como um caso de estudo no dinamismo imobiliário regional e nacional. Entre 2021 e 2023, o concelho registou a conclusão de mais 143 habitações familiares em comparação com o triénio anterior, atingindo uma densidade de 117,2 alojamentos por km2.

Para o presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, os números são um sinal de vitalidade. “Estes indicadores confirmam a Lagoa como um concelho em crescimento, com uma oferta habitacional em expansão”, afirma o autarca em nota de imprensa enviada às redações, sublinhando que a estratégia local tem resultado num “mercado imobiliário dinâmico”. No entanto, por trás destes indicadores, os números revelam também desafios crescentes de acessibilidade. Embora a autarquia defenda que este cenário reforça a atratividade para famílias e investidores, a realidade dos preços sugere uma pressão inflacionista superior à dos seus vizinhos diretos.

Em 2024, o valor mediano da avaliação bancária na Lagoa atingiu os 1.291 euros por metro quadrado. Este indicador é fundamental para justificar o novo peso regional do concelho: apesar de estar abaixo da média nacional (1.662 euros), a Lagoa já se tornou o segundo município mais caro da sua zona de influência em São Miguel, superando o custo do imobiliário em concelhos vizinhos como a Ribeira Grande ou Vila Franca do Campo. Esta ascensão é explicada por uma subida acentuada de 23,4% nos valores de avaliação desde 2021, um ritmo que coloca o mercado local sob forte pressão.

A análise detalhada dos dados de transação expõe ainda o fosso entre o mercado de construção nova e o de casas usadas. Quem procura habitação nova no concelho enfrenta um preço mediano de 1.835 euros por metro quadrado, um valor substancialmente superior aos 1.248 euros pedidos pelas casas já existentes. Este diferencial de quase 50% indica que a nova oferta imobiliária está a entrar no mercado com preços que refletem um posicionamento de elite, distanciando-se progressivamente da realidade económica de muitas famílias locais.

Em suma, os dados confirmam que a Lagoa deixou de ser uma alternativa periférica para se tornar um motor de construção nova. Contudo, como refere o autarca lagoense, se por um lado a Lagoa é o “município com maior proporção de casas novas em relação às existentes”, o sucesso estatístico traz consigo o risco da gentrificação, uma vez que a valorização imobiliária em dois dígitos poderá, a curto prazo, comprometer a mesma acessibilidade que o município procura promover. Este risco é sustentado pelo fosso entre a valorização imobiliária e o poder de compra local: com os preços das casas novas a subirem num ritmo que ultrapassa largamente a evolução dos rendimentos médios nos Açores, a Lagoa enfrenta o desafio de evitar que a nova oferta residencial se torne exclusiva para segmentos de alto rendimento, alienando a população jovem e a classe média que o município pretende fixar.