
A história partilhada entre o arquipélago dos Açores e o Brasil ganhou, esta semana, um novo capítulo com a inauguração da Praça dos Açores e do Memorial Açoriano, no Centro Histórico de São Luís, no Maranhão. O evento contou com a presença do secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, e do governador do Estado do Maranhão, Carlos Brandão.
A iniciativa serviu para homenagear formalmente o contributo dos açorianos que, há mais de 400 anos, foram fundamentais para a fundação e povoamento daquela cidade brasileira. Segundo informações enviadas pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, este novo equipamento urbano, localizado na zona da Praia Grande, pretende ser um polo de valorização histórica e turística, celebrando a resiliência de um povo que atravessou o Atlântico para desbravar terras e implementar tradições que ainda hoje perduram, como a devoção ao Divino Espírito Santo.
Na ocasião, Paulo Estêvão destacou a fidelidade do projeto à identidade das nove ilhas, agradecendo a forma como a obra “captou tão bem a alma açoriana”. O governante recordou o percurso dos primeiros colonizadores que, partindo de um arquipélago isolado, levaram para o Brasil o conhecimento da agricultura e das pescas. “Onde os açorianos chegaram, e chegaram a muitos sítios, tinham esta resiliência de conseguir desbravar as terras e pôr as terras a produzir”, afirmou o secretário regional, enaltecendo o sucesso da diáspora espalhada pelo mundo.
O espaço agora inaugurado inclui um museu memorial, a inscrição dos nomes das nove ilhas no pavimento e um portal com o nome de figuras históricas, como Simão Estácio da Silveira, que liderou a chegada de famílias em 1615. A componente artística fica marcada por dez painéis de argila da autoria de Eduardo Sereno, que retratam a viagem e o legado insular através de jogos de luz natural.
Para o governador Carlos Brandão, a criação desta praça corrige uma omissão histórica no reconhecimento das raízes da capital maranhense. “Hoje, prestamos essa homenagem para fazer justiça às pessoas que vieram aqui e nos ajudaram a fundar a nossa ilha de São Luís”, sublinhou o governante brasileiro, acrescentando que “faltava essa homenagem aos açorianos que ficaram na região do Desterro e que, agora, estão representados”.
A cerimónia, acompanhada pelo presidente da Casa dos Açores do Maranhão, Raphael Aragão, serviu igualmente para cimentar a cooperação estratégica entre os dois governos. Paulo Estêvão colocou as instituições açorianas e a influência da região na União Europeia ao serviço do Estado do Maranhão, finalizando o ato com um convite oficial ao governador Carlos Brandão para visitar o arquipélago açoriano.

A diáspora açoriana no Brasil está no centro da agenda política regional nos próximos dias, com o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, a dar início a uma visita oficial de alto significado simbólico. Segundo a nota enviada pelo executivo açoriano à nossa redação, a deslocação ocorre num momento de particular relevo histórico, coincidindo com as celebrações dos 50 anos da Autonomia dos Açores. O governante, acompanhado pelo diretor regional das Comunidades, José Andrade, e pela investigadora Susana Goulart Costa, tem como objetivo estreitar os laços com as comunidades lusodescendentes nos estados do Rio Grande do Sul e do Maranhão, num périplo que combina diplomacia cultural, apresentações académicas e a inauguração de novos espaços de memória.
O roteiro arrancou este sábado, 21 de março, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde a comitiva visitou a Casa dos Açores local para celebrar o 23.º aniversário da instituição. O programa em terras gaúchas ganha especial contorno em Porto Alegre, cidade que detém o título de maior metrópole do mundo fundada por açorianos. No Teatro da Santa Casa, inserido nas festividades da “Semana de Porto Alegre”, será lançada a obra “Açores: Nove Ilhas, Nove Histórias”, da autoria de Susana Goulart Costa. Este livro, editado pela Secretaria Regional em parceria com a Casa dos Açores local, pretende ser uma ferramenta de proximidade e conhecimento sobre a realidade atual e histórica do arquipélago junto dos descendentes de terceira e quarta gerações.
A segunda etapa da viagem foca-se no Nordeste brasileiro, especificamente em São Luís do Maranhão, onde a agenda institucional atinge o seu ponto alto na segunda-feira, 23 de março. Antes dos atos protocolares, Paulo Estêvão realizará uma visita de cortesia ao antigo Presidente da República do Brasil, José Sarney, seguindo-se uma apresentação académica da obra de Susana Goulart Costa na Universidade Estadual do Maranhão. O culminar da visita oficial acontecerá durante a tarde, com o governante açoriano e o Governador do Estado do Maranhão a presidirem à inauguração oficial da “Praça dos Açores” e do “Museu Açoriano”. Estas novas infraestruturas representam um marco decisivo na preservação do legado cultural dos nossos antepassados naquela região, garantindo que a identidade açoriana permaneça viva e visível no quotidiano brasileiro.

Em nota divulgada esta quarta-feira, dia 18, no site da Presidência da República, o novo presidente da República de Portugal, António José Seguro, anunciou que a ilha Terceira, nos Açores, será o palco das comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 2026, mantendo a prática de celebrar o 10 de Junho também na diáspora, desta vez no Luxemburgo.
A escolha da Terceira assume significado especial por homenagear as autonomias regionais, que este ano assinalam 50 anos desde a sua consagração constitucional. Segundo a Presidência da República, celebrar a data nos Açores reforça a importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário, sublinhando os valores da unidade nacional e da coesão territorial.
O 10 de Junho será também celebrado no Luxemburgo, um país que, de acordo com a Presidência da República, acolhe uma das mais expressivas e dinâmicas comunidades portuguesas na diáspora, reforçando o reconhecimento do contributo dos portugueses residentes no estrangeiro para o desenvolvimento do país e para a afirmação internacional de Portugal.
No dia 12 de junho, António José Seguro participará ainda numa sessão comemorativa na Madeira, assinalando os 50 anos de autonomia e os 40 anos de integração europeia da região.
A prática de celebrar o Dia de Portugal em território nacional e na diáspora foi iniciada em 2016 pelo então presidente Marcelo Rebelo de Sousa, mantendo-se nos anos seguintes:
2016: Lisboa e Paris
2017: Porto e Brasil
2018: Açores e Estados Unidos da América
2019: Portalegre e Cabo Verde
2020: Lisboa (somente, devido à pandemia)
2021: Madeira (somente, devido à pandemia)
2022: Braga e Reino Unido
2023: Peso da Régua e África do Sul
2024: Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera e Coimbra, e Suíça
2025: Lagos, Alemanha e Macau
No discurso de tomada de posse, a 9 de março, na Assembleia da República, António José Seguro já tinha anunciado que pretende manter a tradição do seu antecessor de celebrar o 10 de Junho tanto em Portugal como junto das comunidades portuguesas no estrangeiro.
Referindo-se a Jorge de Sena, o chefe de Estado afirmou que “Portugal é feito dos que partem e dos que ficam”, destacando que Marcelo Rebelo de Sousa compreendeu esse sentimento ao iniciar a prática de realizar as comemorações do Dia de Portugal em território nacional e na diáspora, uma tradição que decide agora prosseguir por partilhar a mesma visão.

A Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, promoveu, no passado dia 3 de março, uma conversa com o escritor açoriano Diniz Borges, integrada no ciclo “Escritores da Diáspora”.
O encontro decorreu no auditório da instituição e reuniu participantes interessados em refletir sobre a experiência da emigração e o papel cultural das comunidades açorianas no estrangeiro.
Natural da Praia da Vitória, na ilha Terceira, Diniz Borges reside nos Estados Unidos desde os 10 anos. Ao longo da sua carreira, dedicou-se à docência da Língua e da Cultura Portuguesas junto de alunos do ensino secundário, desenvolvendo também diversos projetos pedagógicos destinados a valorizar a presença e os valores das comunidades açorianas na sociedade americana.
Durante a conversa, o autor abordou temas presentes na sua produção literária e ensaística, nomeadamente a experiência da emigração, a diversidade cultural dos Estados Unidos e a herança cultural açoriana preservada pelas comunidades emigrantes.
A sessão permitiu ainda refletir sobre o papel da diáspora na preservação da identidade cultural açoriana e no reforço das ligações entre as ilhas e as comunidades espalhadas pelo mundo.
Para além da sua atividade académica e literária, Diniz Borges tem também colaborado regularmente com a imprensa local e comunitária, contribuindo para ampliar o diálogo entre as comunidades da diáspora e os Açores.
A iniciativa integrou a programação cultural da Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, que assinala 70 anos de atividade, promovendo eventos dedicados à literatura, à história e à reflexão sobre a identidade cultural açoriana e a presença das comunidades no exterior.

A estação portuguesa TVI prepara-se para lançar “Terra Forte”, a nova grande produção da ficção nacional lusa, que promete unir paisagens deslumbrantes e emoções intensas entre os Açores e o Brasil. A trama, escrita por Maria João Costa, autora de sucessos como “Ouro Verde” e “Cacau”, conta com a coprodução da Plural Entertainment e da plataforma Prime Video.
Com gravações iniciadas em julho deste ano, a novela percorreu inicialmente o estado brasileiro de Santa Catarina, no Sul do país, seguindo depois para a ilha das Flores, nos Açores, onde decorrem cenas em locais como a Fajã Grande e Santa Cruz das Flores. É ali que se desenrolam os primeiros capítulos da história protagonizada por Flor (Benedita Pereira) e António (João Catarré), casal central desta narrativa marcada por reviravoltas dramáticas e encontros do passado.
A personagem de Flor, dada como morta no Brasil, regressa quase duas décadas depois aos Açores determinada a recuperar a sua história, confrontando verdades ocultas e traições antigas. Ao reencontrar Sammy, o homem que a amou, e descobrir que ele casou com a sua melhor amiga, Maria de Fátima, a protagonista mergulha num enredo de suspense emocional, com um passado que a liga a uma tentativa de homicídio em alto-mar. Ao seu lado está António, com quem mantém uma relação sólida, e que a apoia no regresso a Florianópolis para enfrentar as dores do passado.
O elenco conta com nomes como Rita Pereira, José Fidalgo, Custódia Gallego, Francisca Salgado, Gustavo Alves, Sofia Nicholson, entre outros. As gravações em estúdio tiveram início a 28 de julho, nas instalações da Plural, em Bucelas, Lisboa, e a estreia está prevista para breve.

Em entrevista ao Diário da Lagoa, a secretária de Estado do Turismo de Santa Catarina, Catiane Seif, explica como surgiu a parceria entre o Governo de Santa Catarina e a produção da novela “Terra Forte”.
“Com a abertura do voo da TAP, o destino Santa Catarina despertou o interesse da Europa. Além da forte ligação histórica entre cidades geminadas de Santa Catarina e Portugal, iniciamos uma aproximação com a TVI em março, durante a BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa). Outro fator que ajudou muito é termos um governador visionário que acredita na internacionalização do Estado e apoia estratégias inovadoras e pioneiras que visam impulsionar o turismo, e assim, nossa economia”, diz.
E acrescenta: “Em vez de focar em cidades e locais específicos, decidimos destacar o Estado de Santa Catarina por inteiro. Dessa forma, conseguimos mostrar a diversidade e a qualidade das nossas paisagens, que vão desde as belas praias do litoral até as serras. A ideia é mostrar que Santa Catarina oferece múltiplas experiências num só lugar. A equipa de produção e o elenco ficaram entusiasmados e surpresos com as belezas naturais que encontraram. Eles expressaram o desejo de abordar mais a cultura e os lugares, pois consideram o Estado completo e com uma vasta diversidade. Mesmo com as filmagens tendo ocorrido no inverno, os atores conseguiram aproveitar os momentos ensolarados e os belos pores do sol”.
A novela, ainda em fase de gravações no arquipélago, estabelece uma forte ligação entre os Açores e o Brasil, especialmente com Santa Catarina, estado historicamente marcado por influências açorianas, pontos que, de acordo com Catiane Seif, foram valorizados durante os trabalhos em solo brasileiro.
“Conseguimos captar a forte ligação entre o nosso Estado e Portugal através de cenas que destacaram a gastronomia, a arquitetura similar e o modo de vida da nossa gente, preservando a herança cultural açoriana”, refere a secretária, que não esconde o desejo de conhecer o resultado desta iniciativa: “As nossas expetativas são altas.”
Por sua vez, o diretor regional das Comunidades do Governo dos Açores, José Andrade, adianta que “a gravação de uma novela portuguesa na ilha das Flores e na ilha de Santa Catarina demonstra que a cultura pode estar – e tem estado – ao serviço das históricas relações entre os Açores e o Brasil”.
“A “Terra Forte” começa no extremo ocidental dos Açores, de Portugal e da Europa, com filmagens na freguesia da Fajã Grande ou na vila de Santa Cruz, e chega até emblemáticos lugares catarinenses de povoamento açoriano, como Santo António de Lisboa ou Ribeirão da Ilha, ficcionando uma história de emigração que será vista em mais de 90 países durante 10 meses de exibição. Quase três séculos depois, revisitamos assim, ainda que simbolicamente, a saga heróica dos casais açorianos que foram povoar o Sul do Brasil a mando da coroa portuguesa, sucessivamente em Santa Catarina (1748), no Rio Grande do Sul (1752) e até no Uruguai (1763)”, adianta.
Para José Andrade, “esta produção televisiva tem fundamento no passado, mas tem, sobretudo, potencial para o futuro, na medida em que promove e valoriza a notoriedade e o relacionamento da Região Autónoma dos Açores e da sua décima ilha”.
Santa Catarina conta com uma Casa dos Açores, constituída por descendentes de açorianos que chegaram a Santa Catarina entre 1748 e 1753 e por simpatizantes da Açorianidade. A entidade, liderada por Sérgio Luiz Ferreira, é conhecida por ter um perfil diferente da maioria das Casas dos Açores, já que não é constituída por pessoas nascidas nos Açores, mas por descendentes de sexta, sétima, oitava e nona geração. Fundada em dezembro de 1999, a Casa promove o desenvolvimento social, económico e cultural das comunidades de raiz açoriana no Estado de Santa Catarina.

Um protocolo tripartido de colaboração foi assinado neste mês pelo presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas, Flávio Martins; pelo diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores, José Andrade; e pelo diretor Regional das Comunidades e Cooperação Externa do Governo da Madeira, Sancho Gomes.
Segundo apurámos, com a assinatura, os dirigentes estabeleceram, “além de reuniões regulares e um relatório anual público de verificação do progresso, elos de cooperação para a valorização da diáspora portuguesa no mundo, o fortalecimento dos laços entre as comunidades, com o Estado português e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira”.
O acordo também prevê iniciativas em áreas como a juventude lusodescendente e a participação cívica, além de outras ações estratégicas conjuntas.
Estão sobre a mesa ainda ações como a “participação de representantes dos departamentos e conselhos em eventos promovidos pelos signatários, o fortalecimento da comunicação externa por meio da divulgação coordenada de iniciativas institucionais, a articulação conjunta de plataformas de comunicação e a promoção da marca e da imagem institucional de cada entidade junto às comunidades, autoridades locais e ao público”.

O Governo dos Açores, por meio da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, lançou na segunda-feira, 26 de maio, a revista “Açorianidade”. Com 232 páginas e periodicidade semestral, é publicada em português e inglês, em edição impressa e digital, com a tarefa de fortalecer os “laços entre a Região e as suas comunidades, promovendo a partilha de ações e iniciativas que enriquecem a relação entre o arquipélago e a sua diáspora”.
O evento foi realizado no Palácio da Conceição, por ocasião da cerimónia de receção “a emigrantes representativos presentes nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres”, que foi oferecida pelo presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro.
Durante a sessão inaugural, houve pronunciamentos dos oradores nos sete painéis do encontro, que constituem a base editorial da edição inaugural da “Açorianidade”. O primeiro número é dedicado ao primeiro Colóquio Internacional “Pensar a Diáspora” realizado nos dias 20 e 21 de março, no Coliseu Micaelense.
Organizado pela Direção Regional das Comunidades, responsável pela criação da revista, o evento reuniu diversas personalidades representativas de várias áreas de especialização da sociedade açoriana, provenientes das Bermudas, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América e Uruguai.
Na primeira edição da revista, há uma “mensagem institucional” de Bolieiro e um prefácio escrito pelo secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão. Também foram apresentadas contribuições do presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Luís Garcia; do presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral; do diretor Regional das Comunidades, José Andrade, que foram apresentadas na sessão de abertura do encontro, incluindo uma conferência inaugural proferida por Onésimo Teotónio Almeida.
Os textos nas duas línguas estão nas “comunicações apresentadas por António Cabral e Martin Medeiros (Painel Político), Lélia Nunes e Maria João Maciel Jorge (Painel Cultural), Diniz Borges e José Carlos Teixeira (Painel Social), Duarte Miranda e Manuel de Medeiros (Painel Económico), Richard Ambrósio e Roberto Rodriguez (Painel Geracional), Francisco Resendes e Norberto Aguiar (Painel Comunicacional), Francisco Viveiros, Régis Marques Gomes, David Pimentel, Paulo Jorge Cabral e Manuela Meneses (Painel Institucional)”.

O secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, declarou, no passado dia 14 de abril, que a Rede Internacional de Organizações de Serviço Social dos Açores e da Diáspora, cujo protocolo de constituição foi assinado por cerca de duas dezenas de entidades, representa um “momento histórico” para os Açores e as suas comunidades.
“Estamos a enfrentar uma situação sem precedentes. Os últimos números do Governo português são que o país tem um milhão e meio de imigrantes. Trata-se de um crescimento muito significativo. Um país de emigrantes transformou-se num país que acolhe. Ao mesmo tempo, continuamos a ter uma população emigrante muito significativa. É uma conjuntura única”, declarou o governante, em Ponta Delgada, na sessão de encerramento de um seminário internacional dedicado à constituição da Rede.
Para o secretário regional com a tutela das comunidades, “esta situação extraordinária e histórica levanta desafios ao país” e aos Açores.
“Há uma conjuntura recente que tem a ver com a política de emigração da nova administração norte-americana. Neste momento, tendo em conta não propriamente as ações em relação à comunidade portuguesa, mas sobretudo o discurso, não há um número de deportações superior ao normal, essa situação não aconteceu. Se há neste momento um regresso em número significativo de açorianos é um regresso voluntário que tem a ver com o impacto do discurso da administração [norte-americana] e o medo que esse discurso possa ter consequências práticas”, assinalou.
Paulo Estêvão lembrou ainda os conflitos bélicos atualmente existentes, reconhecendo ser “muito difícil planificar seja o que for”, e dando exemplos como os números de exportações ou indicadores macroeconómicos.
“O que estamos aqui a fazer é contracorrente: juntar um conjunto de instituições regionais e da diáspora, no âmbito do serviço social, para partilharem conhecimento e juntos fazerem mais”, frisou, contrastando esta ideia com a do protecionismo político e económico de algumas democracias.
“Este protocolo tem essa importância de estarmos aqui todos com o espírito de ajudar, termos um apoio social cada vez mais alargado, que possa atingir mais gente. Estou verdadeiramente impressionado com o trabalho de todas estas instituições”, valorizou, depois de ter assistido à apresentação do conjunto de atividades de várias entidades da diáspora e parceiras neste projeto de cooperação.
A Rede Internacional de Organizações de Serviço Social dos Açores congrega associações e/ou outras organizações que desenvolvem atividades de índole social junto das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América, Canadá e Bermuda e na qual a Direção Regional das Comunidades assume o papel de promotor e coordenação.
Segundo comunicado da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, a entidade visa, entre outros objetivos, “promover a troca de informação permanente, promover um conjunto de respostas de suporte sociocultural que permitam, através da cooperação entre diferentes entidades, contribuir para a integração efetiva dos açorianos emigrados e açorianos regressados à Região, ou integrar na ação de intervenção social a envolvente imediata, família e comunidade do emigrante e do emigrante regressado, sempre que possível”.

A identidade açoriana está profundamente ligada à diáspora e às comunidades lusófonas que, ao longo dos séculos, têm encontrado nos Açores um ponto de encontro entre culturas e tradições. O Governo da Região Autónoma dos Açores, através da Direção Regional das Comunidades (DRC), tem desempenhado um papel fundamental no fortalecimento destes laços, tanto no apoio aos imigrantes lusófonos que vivem no arquipélago, como na valorização da vasta diáspora açoriana espalhada pelo mundo.
Em entrevista à nossa reportagem, José Andrade, diretor regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores, falou sobre o trabalho desenvolvido nos Açores e a importância de iniciativas como esta Gala Beneficiente da Associação “Mais Lusofonia” para a união e cooperação entre povos que partilham uma história e um idioma em comum, além de enumerar os projetos futuros.
DL: Esteve no continente a participar numa Gala promovida pela Associação Mais Lusofonia, com sede em Castelo Branco, que foca as suas ações na comunidade lusófona. Qual o nível de parceria entre a DRC dos Açores e a referida associação?
A Direção Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores e a Associação Mais Lusofonia partilham objetivos coincidentes na sua missão estratégica, designadamente, ao nível da ligação às comunidades lusófonas. Por isso, temos um promissor caminho a percorrer, com possíveis iniciativas conjuntas ou atividades partilhadas, no âmbito de uma parceria que se quer crescente e mutuamente vantajosa.
DL: Como avalia o evento e o que pôde experienciar?
Fiquei muito bem impressionado com o espírito voluntarioso e a capacidade empreendedora dos seus dirigentes e associados, mas sobretudo com a liderança inspiradora da sua fundadora e presidente, Sofia Lourenço. Ela própria é um exemplo notável de solidariedade ao serviço da lusofonia, porque nasceu no Brasil, vive em Portugal e trabalha em benefício do desenvolvimento social dos países africanos de língua oficial portuguesa. Destaco aqui o trabalho solidário que tem vindo a desenvolver em Cabo Verde, a que nos ligam especiais relações de cumplicidade. Nos extremos da Macaronésia, Açores e Cabo Verde partilham o mesmo oceano Atlântico, a mesma condição arquipelágica, o mesmo número de ilhas habitadas, a mesma história, a mesma língua, a mesma cultura e, até, a mesma vocação emigratória – somos muitos mais na nossa diáspora do que nas nossas ilhas – com comunidades comuns na costa Leste dos Estados Unidos. Portanto, Cabo Verde é uma das causas comuns que o Governo dos Açores partilha com a associação “Mais Lusofonia” e isso mesmo tive ocasião de confirmar em contatos desenvolvidos com autoridades cabo-verdianas, igualmente presentes nesta Gala da Lusofonia.
DL: As comunidades lusófonas têm auxiliado no desenvolvimento económico dos Açores? Tem números atualizados dos imigrantes e as suas nacionalidades residentes na região?
As comunidades lusófonas em geral – e, em especial, a comunidade brasileira, mas também, por exemplo, a comunidade cabo-verdiana – são parte integrante e interessante do desenvolvimento dos Açores, a nível cultural, social e económico. Brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, moçambicanos ou guineenses, como a generalidade dos imigrantes nos Açores, mas com a facilidade acrescida da cumplicidade linguística, contribuem para reforçar e valorizar a diversidade cultural, para compensar a erosão demográfica e para ultrapassar as carências locais de mão-de-obra adequada, designadamente, na hotelaria, na restauração e na construção. Segundo o mais recente relatório da AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, relativo ao ano de 2023, residem oficialmente na Região Autónoma dos Açores mais de seis mil cidadãos estrangeiros provenientes de 98 países. Destes cidadãos ainda sem cidadania portuguesa, 1.834 são naturais de outros países lusófonos: 1.351 do Brasil, 315 de Cabo Verde, 58 de Angola, 43 de Guiné Bissau, 34 de São Tomé e Príncipe, 31 de Moçambique e 2 de Timor Leste.
DL: Por fim, como carateriza o trabalho desenvolvido pela Direção Regional das Comunidades e qual a importância de se valorizar e promover iniciativas tendo em vista a comunidade lusófona residente no arquipélago e a diáspora açoriana?
A Direção Regional das Comunidades do Governo dos Açores tem uma dupla missão, que cumpre com gosto: fomentar a Açorianidade, com os açorianos e açordescendentes residentes no exterior da Região, e facilitar a Interculturalidade, com os imigrantes que se encontram radicados nas nossas ilhas. Em ambos os casos, a língua portuguesa é um instrumento importante, seja através da sua preservação junto das novas gerações da diáspora açoriana, seja através da sua aprendizagem por parte dos “novos açorianos” que nos chegam de países não lusófonos. Na diáspora, apoiamos o funcionamento de organizações comunitárias, como, por exemplo, a escola oficial portuguesa da Bermuda. Nos Açores, promovemos Cursos de Português para Falantes de Outras Línguas, já com 36 turmas em 12 anos envolvendo 690 formandos de 55 nacionalidades diferentes.

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, considerou esta quinta-feira, 20 de março, que o grande desafio no relacionamento com a diáspora é dar a conhecer às novas gerações de açordescendentes o que a região oferece, defendendo que “devemos estimulá-los a investir e, quiçá, viver aqui”, apelando à criação de oportunidades para os jovens açorianos residentes e descendentes de emigrantes.
“Os Açores de hoje são, felizmente, muito diferentes daqueles que viram partir muitas das suas gentes. Hoje somos uma terra de oportunidades. Em muitos domínios somos “califórnias de abundância”, sublinhou o presidente da Assembleia Legislativa na abertura do colóquio “Pensar a Diáspora”, que teve lugar no Coliseu Micaelense, destacando áreas como a Agricultura, o Mar, o Turismo e o Espaço.
Defender uma maior representação da diáspora no parlamento açoriano foi outro ponto destacado por Luís Garcia, que reiterou a necessidade de revisão da Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa dos Açores. “Se o país lhes garante esse direito a nível nacional, não há razão para que se continue a fazer da distância física um entrave à participação na vida da sua região ou da sua ilha”, afirmou, reforçando a importância de assegurar direitos de representatividade para os açorianos que vivem além-fronteiras.
Destacando a importância da “união de esforços”, o presidente da ALRAA aproveitou a ocasião para apelar à colaboração de todos, mas em especial da Cônsul dos Estados Unidos nos Açores para enfrentar os desafios decorrentes de um possível aumento de emigrantes açorianos deportados dos EUA, para que, “com diálogo e diplomacia, contribua para ultrapassar este momento”.