“Por vezes temos pessoas lá fora à espera que alguém saia para poderem entrar”

Cafetaria Central Parque abriu em julho passado e está a superar as expetativas do proprietário que esteve à conversa com o Diário da Lagoa (DL) numa das mesas do icónico novo espaço da cidade

Marco Navalho é natural da Suíça e vive na ilha de São Miguel há cinco anos © CATARINA TEIXEIRA/ DL

Marco Navalho, 44 anos, é natural da Suíça e residente nos Açores há cinco anos. É o proprietário da mais recente pastelaria “Central Parque”, no centro da Lagoa. De contabilista, a motorista de autocarros de turismo, decide embarcar nesta aventura que considera ser um desafio. Repleto de críticas positivas, relata ao DL os seus objetivos, motivos e o funcionamento deste novo estabelecimento.

DL: Como é que decide criar este café?
Nunca tive um objetivo de criar fosse o que fosse. A ideia não era esta, ao início não era nada do que está aqui. À medida que iam avançando as obras, eu ia tendo uma ideia daquilo que gostaria de ter, se fosse eu o cliente.  Só tinha a ideia de abrir um espaço para me entreter. Essa foi a ideia e está a ser melhor do que aquilo que eu estava à espera. Cresci na Suíça, mas nunca pensei vir a ter fosse o que fosse assim deste género.  Foi algo que surgiu inesperadamente.

DL: Tem outro trabalho à parte ou é só isso que faz? E porquê no Rosário?
Agora é só este. Quando comecei a avançar com este projeto, comecei a reparar que aqui na Lagoa faltava algo que as pessoas queriam e não tinham. E as pessoas iam sempre para fora da Lagoa. Agora há muitas pessoas que ficam na Lagoa e há pessoas de fora da Lagoa que vêm aqui, é um lugar diferente, é aconchegante. Acho que o nosso serviço é um bocado diferente. Não só o aspeto do café, mas o atendimento que nós fazemos é um pouco diferente. Fui vendo as necessidades que havia. Aqui na Lagoa não existe nada assim tranquilo para uma família com filhos ou um casal de idosos. 
O sítio em específico não foi escolhido por mim, foi a minha companheira que escolheu porque ela nasceu e cresceu aqui na Lagoa. Ela tem muitas lembranças da infância dela neste espaço.  A partir daí começamos a montar e foi um dia de cada vez. 

DL: O que é que fazia antes deste espaço?
Quando eu vim viver para a ilha, há cinco anos, comecei por fazer um trabalho que não gosto que é de contabilidade. Fazia a contabilidade dos bancos todos cá da ilha e de alguns negócios. Então fui ser motorista de autocarros de turismo e depois disso, estou aqui.

DL: A vossa pastelaria não é a tradicional que se costuma ver noutras da ilha. De onde que vem a doçaria?
Dois, três dias antes de nós fazermos a inauguração, entrou aqui um casal. Ele é português e ela é do Canadá.  Ela tinha um negócio de pastelaria no Canadá, vendeu o negócio dela e vieram morar para aqui há uns meses atrás. Falou-me do que é que tinha e o que é que fazia. No dia da inauguração eu disse para ela fazer tudo o que ela sabia fazer, mas em miniaturas, para na inauguração, as pessoas darem o feedback. Ela fez muitos, as pessoas adoraram e eu disse-lhe que queria continuar, e foi assim. Ela faz exclusivamente para nós, todos os dias vou à costa norte buscar.

Cafetaria Central Parque fica situada em frente à Praça do Rosário © CATARINA TEIXEIRA/ DL

DL: Qual é o feedback que recebe?
99,9% é positivo. O ponto negativo é o espaço tornar-se pequeno. Por vezes temos pessoas lá fora à espera que alguém saia para poderem entrar. Tem horas mortas como em todos os espaços, mas quando há aquelas horas que toda a gente quer beber um chá ou um copo à noite, torna-se muito pequeno.

DL: O horário laboral é bastante extenso, acha que isso é uma vantagem para o negócio?
É sempre. Quando se tem um espaço com um horário reduzido, as pessoas vêm, está fechado, vão-se embora e depois se calhar já não têm paciência de voltar. Nós vamos ver a dinâmica dos clientes, se compensar nós aumentamos o horário da noite para fechar mais tarde. Não queremos é que entre aqui um tipo de clientela que vai estragar o que nós estamos a criar. Então por isso nós fechamos às 22 horas de domingo até quinta-feira e sexta e sábado fechamos às 23 horas.    

DL: Está a superar as expetativas?
Muito. Aquilo que era só para ser um projeto para me entreter e estar aqui no dia a dia, a conviver com pessoas, está a tornar-se em algo muito maior do que eu estava à espera. Tanto que digo constantemente que se tivesse mais 50m2 era muito bom. Está a superar as expetativas. Há muitas pessoas que passam, veem e não entram porque pensam que isto é só para gente fina. O que não é, de todo. Já fui lá fora buscar uma família, eles passaram, uma senhora disse para entrar e o resto da família disse “não, não, isso não é para nós” e eu disse “não, não, venham cá” e fui buscá-los. Não deixa de ser uma cafetaria, tem um estilo diferente, um design diferente do normal. São todos bem vindos a partir do momento que haja aquilo que nós queremos, que é o saber estar.
Uma vez por outra aparece um cliente mais atrevido e nós temos de saber lidar com a situação. Antes das 11 horas da manhã tentamos não vender álcool. Prefiro não vender do que estar a contribuir para a desgraça de alguém. 

DL: Perspetivas para o futuro?
Não tenho, vivo um dia de cada vez. O que vier agora eu aceito, não faço planos. Já me disseram “ah isto seria bom abrir outro ainda maior”. Não sou ganancioso, de todo. Para mim um dia de cada vez, hoje está bom, se amanhã tiver, melhor ainda. Quando somos novos a gente pensa muito no futuro e no que é que vamos fazer, mas depois chegamos a uma altura que não vale a pena.

DL: Sente concorrência?
Não, porque os nossos clientes não são de todo os clientes que frequentavam aí as zonas e eu fiquei super contente porque nós não tirámos clientela a ninguém, nada mudou. Este espaço trouxe outro tipo de clientela para a Lagoa, pessoas que não saíam aqui, quando saíam era sempre para fora da Lagoa porque não tinha um sítio do agrado deles. Se eu tivesse a casa cheia e o café além vazio por causa de mim, não me ia sentir bem porque todos nós precisamos de viver e tirar dos outros para mim, não faz o meu género, então fiquei contente. Adquirimos clientes que não eram clientes habituais da Lagoa. E ao mesmo tempo não estragamos o negócio a ninguém.

Catarina Teixeira

Entrevista publicada na edição impressa de setembro de 2022

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