“Onde há uma cultura é porque há uma comunidade de artistas”

Residência de Artistas realizada no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, nos meses de maio e junho, acolheu nove artistas, nacionais e internacionais. O Diário da Lagoa (DL) conversou com todos eles para perceber qual o sentimento de permanecer na ilha durante dois meses num regime de criação artística

Artistas do continente português, do Brasil e dos Açores frequentaram curso de artes visuais na Ribeira Grande © Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas

O trabalho de pesquisa e criação desenvolvido durante dois meses resulta na exposição patente no Arquipélago “chave na serradura”, um projeto de Catarina Lopes Vicente, Gabriel Siams, Inês Carvalho, Joana Hintze, João Amado, Juliana Matsumura, Mariana Malheiro, Rita Senra e Vasco Marum.

A exposição não se traduz numa síntese do curso, nem dos trabalhos individuais, é uma mostra representativa do percurso realizado pelos artistas. É possível observar nas obras as técnicas adquiridas e aperfeiçoadas, bem como uma variedade de linguagens e estilos. Segundo a presidente do conselho executivo da FLAD, Rita Faden, houve todo um conjunto de experiências que levaram os artistas a chegar “a este estado da arte”,  como a ligação entre eles, o debate crítico e a imersão na ilha de São Miguel e nas comunidades locais.

Ao conversar com os artistas, apercebemo-nos que algo transversal a todos eles era a proximidade a um determinado elemento da natureza. Dos nove artistas residentes, cinco são naturais do continente português, dois do Brasil e um dos Açores.

Inês Carvalho, de 26 anos, é natural de Vila Nova de Poiares, perto de Coimbra. Licenciou-se em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e expõe desde 2017. Em conversa com a artista, percebemos que estabeleceu uma grande proximidade com os elementos.

Na exposição, a artista apresenta um vídeo que representa a interação que teve com a areia, desde formas mais violentas a mais suaves. Além disso, trabalhou com carvão encontrado pela ilha, areia vulcânica da praia e furos realizados sobre papel com uma agulha. Para Inês, “Desenhar é descobrir o desenho”.

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Gabriel Siams é natural de Nitéroi, no Rio de Janeiro, Brasil, e reside em Portugal há cinco anos. Estudou Arte e Multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, e já expôs no MAAT e na Culturgest, em Lisboa. 

Em São Miguel, o elemento que fascinou Gabriel foi o enxofre. Assim, o artista apresentou um total de três peças que incluem o enxofre, mas também uma relação com o sagrado bíblico. Ao visitar o convento de Santo André, Gabriel ficou a conhecer os báculos utilizados pelas freiras que, segundo conta, imediatamente lhe fizeram lembrar tacos de snooker. Foi da associação entre esse elemento religioso e o fascínio pelo enxofre, que despertara ao visitar as Furnas, que resultou a obra em exposição.

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Também impressionada pela força dos vulcões e do fumo a sair da terra ficou Juliana Matsumura. A artista brasileira reside em Lisboa há nove anos e é natural de Moji das Cruzes, uma cidade no interior de São Paulo, Brasil. Parte da sua família vem do Japão e outra parte do nordeste do Brasil. Juliana estudou Desenho no Ar.Co e frequentou o curso de Têxtil e Moda na Universidade de São Paulo e o curso Artes e Humanidades na Universidade de Lisboa. Na exposição “chave na serradura” apresenta uma montagem em vídeo.

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Rita Senra, de 29 anos, tinha uma expetativa diferente em relação a vir para os Açores. “Nunca tinha estado nos Açores. Estava na minha lista de viagens a fazer”, confidencia ao DL. A artista, natural do Porto, trabalhou com pigmentos naturais de frutas e legumes para tingir o papel, uma experiência que considera ter dado resultados surpreendentes. Rita é licenciada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, expõe desde 2014 e integra a equipa do Sismógrafo desde 2016.

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Hintze é um nome familiar ao concelho da Ribeira Grande. Joana Hintze também se lhe tornou familiar. A artista, de 28 anos, conta ao Diário da Lagoa que, tendo familiares em São Miguel, já não era a primeira vez que visitava a ilha. Mas foi a primeira vez que a jovem lisboeta passou tanto tempo longe de casa. A artista expõe desde 2017. É representada pela galeria Módulo – Centro Difusor de Arte, vive e trabalha em Lisboa, e em 2018 terminou os estudos em Fotografia na escola Ar.Co em Lisboa. 

Na exposição “serra na serradura”, apresenta um trabalho em vídeo que reflete a sua experiência deambulante pela natureza micaelense. Nele surgem elementos como pássaros e mar.

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Mariana Malheiro tem 27 anos e é natural de Lisboa. É licenciada e mestre em Pintura, pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Em 2022, apresentou a exposição individual “Humanos sem remorsos”, em Lisboa. Durante a residência desenvolveu trabalhos de pintura figurativa, para os quais se inspirou em tradições que foi conhecendo ao longo da sua estadia na ilha. Nos seus quadros é possível identificar, por exemplo, uma mesa cheia, como se estivesse preparada para receber convidados. À sua volta juntam-se pessoas e crianças vestidas de anjo, como se estivessem a celebrar uma comunhão.

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Catarina Lopes Vicente, de 31 anos, e também natural de Lisboa, pegou nas palavras da colega Mariana  “São Miguel tem muito para oferecer em termos de matéria para trabalhar” e levou-as ao limite. A artista, bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, fez o mestrado em Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Para o trabalho apresentado em exposição, usou pedaços de madeira encontrados na Lagoa de São Brás e fez deles o elemento principal do seu trabalho.

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Do sul  do país, do Algarve, veio Vasco Marum. Licenciado em Artes Visuais (2015) e pós-graduado em Artes Visuais e Performativas (2017) pela Universidade do Algarve, Vasco é membro fundador da Associação 289 e da associação de artes visuais Alfaia.

O artista de 30 anos, especializado em fotografia, realizou um trabalho de introspecção durante a estadia nos Açores, zona do país que, considera, está num processo de transformação e massificação devido ao turismo semelhante ao que o algarve passou nos anos 60 e 70 do século passado. Para o trabalho apresentado, Vasco utilizou uma toalha de praia com a imagem do Santo Cristo dos Milagres estampada, símbolo da “comercialização” das tradições.

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Finalmente, chegamos à palavra com o artista residente micaelense, João Amado. Aos 29 anos, João era o único artista natural dos Açores a participar na residência. Era também o único sem formação académica em artes. Segundo conta o colega Vasco, a experiência para João foi “especialmente violenta”, uma vez que embarcou num trabalho de introspecção e auto-reflexão relativamente ao seu trabalho.

Na exposição “chave na serradura”, João apresenta dois trabalhos: uma tela, onde se destacam várias camadas, sobrepostas quase aleatoriamente, de papel em recortes, que dispõe em torno do centro da tela. Pode ser interpretada como a constituição do próprio sujeito em várias camadas. A segunda peça, escultórica, constitui um cubo de parafina sobre o qual o expectador se pode debruçar para encontrar o ponto/eixo central, novamente remetendo para a capacidade de reflexão.

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A exposição “chave na serradura” continua patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas até dia 4 de setembro.

Mariana Lucas Furtado

Categorias: Reportagem

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