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O Disparatado

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

O décimo primeiro carácter a que Teofrasto dedica nove pontos muito breves é o disparatado, termo com que o leitor da atualidade está inteiramente familiarizado. O retrato que dele faz o autor grego é, na verdade, curto, sugerindo talvez nesta extensão a brevidade do “disparate” que é, nas suas palavras, “uma atitude espalhafatosa e chocante” (Char. 11.1). A julgar pela definição enunciada, estamos em crer que vivemos atualmente num “disparate” constante, pois são tantas as situações ilustrativas de espalhafato e os episódios que nos chocam diariamente que só podemos concluir o seguinte: estamos a conviver com um mundo “disparatado”!

Quanto ao perfil deste tipo ético, Teofrasto enumera circunstâncias hilariantes que nos permitem encontrar facilmente correspondências, nos dias de hoje, daquele que, “diante de senhoras, arregaça as fraldas e mostra o sexo” (Char. 11. 2) ou, “no teatro, bate palmas quando os outros deixam de bater; assobia aos atores que os outros admiram; e, no meio do silêncio geral, estica o pescoço e arrota, de modo a fazer o anfiteatro inteiro voltar-se para ele” (Char. 11.3). É uma figura caricata de facto, mas bastante comum na nossa contemporaneidade. Pelo menos na de Ponta Delgada ou, em sentido lato, na nossa ilha de S. Miguel.

Ainda há um ou dois anos a comunicação social impressa noticiava casos de exibição dos genitais por indivíduos sem-abrigo aos turistas que se passeavam pelas artérias centrais da capital micaelense. Os estrangeiros, pensando aqui encontrar o “paraíso perdido” – não o de Milton, mas o de uma revista turística qualquer –, deparavam-se com uma imagem pervertida do jardim do Éden, onde homens despiam as calças e abanavam o “mangalho”, no canto de uma das várias ruelas que compõem o centro histórico de Ponta Delgada. Acredito que tenha havido quem tivesse gostado de apreciar o estado masculino autóctone na sua mais nua representação, mas, por outro lado, não deixa de ser um grande “disparate” ter de lidar com situações como essas. De há algum tempo para cá deixou de se ouvir falar sobre os disparatados que baixavam as calças ou os calções para exibir a potencialidade (caída) do abono de família! Terão encontrado abrigo ou terão sido acolhidos por algum(a) turista que neles reconheceu potencial naquela sua arte exibicionista? Nunca se sabe…

Outros disparates, porém, mantêm-se e tendem a constituir traços caracterizadores intrínsecos de um certo tipo de gente apalermada. O que “bate palmas quando os outros deixam de bater” é um indivíduo que persiste. Não no teatro, que aqui, na nossa terrinha, não há espetáculos dessa arte com a frequência e a fartura com que existem noutras cidades. O disparatado local aplaude comícios, perante a verborreia dominante de discursos políticos vazios e mal estruturados; louva, com aplausos, as figuras públicas da praça, sobretudo aquelas que chegaram onde chegaram por uma série de disparates; bate palmas a si próprio, porque não tem qualquer noção do quão disparatado é. Não “assobia aos atores”, mas grita “buhhh”, quando alguém com dois dedos de testa anuncia um bom plano estratégico para a resolução de um dado problema, ou “arrota” diante de alguém respeitado, simplesmente porque se quer fazer notar. Vistos os cenários nesses prismas, temos mesmo de considerar a hipótese de o nosso mundo se ter convertido num autêntico e enorme disparate.

Por outro lado, há episódios espalhafatosos e chocantes que convidam à presença o disparatado. E estes episódios são, aliás, bem corriqueiros. Quantas vezes não “passa um sujeito com quem [o disparatado] não tem intimidade nenhuma e ele põe-se a chamá-lo pelo nome” (Char. 11.5) como se fossem grandes amigos? Quantas vezes “um fulano vem a sair do tribunal, depois de ter perdido um processo importante e o nosso homem [i.e. o disparatado] salta-lhe em cima para lhe dar os parabéns” (Char. 11.6)? É claro que, nestes casos, o disparatado se confunde com o despropositado, aquele indivíduo que, não tendo ideia do ridículo a que se expõe, atua com a maior das naturalidades nas circunstâncias mais caricatas ou adversas.

Em tempos ouvia-se amiúde da boca dos adultos – dos nossos pais e avós, por exemplo – a expressão “não digas disparates”, como forma de negar um dado pedido aos mais novos. À primeira vista até nos pareceria desadequado usar o termo “disparate” para dizer “não” a um “posso sair logo à noite com os meus amigos?”, mas, se pensarmos um pouco, veremos que o propósito da pergunta prevê uma situação espalhafatosa ou até chocante. Basta para isso atentarmos no estado em que os jovens adolescentes regressam a casa às cinco da manhã, completamente alcoolizados e drogados. Foi um disparate! Ou, então, quando se anunciava alguma coisa sem sentido, descabida aos olhos dos mais velhos, era também vulgar escutar-se o “não digas disparates”. Muitas vezes estes “disparates” coincidiam com rumores, maledicências que se tinha ouvido a fulano ou beltrano e que desonravam sicrano ou sicrana. 

Por isso é que se vive da forma como se vive, dando atenção a disparates e sendo conivente com disparatados. Há que ter a noção de que chocar os outros não é – nunca foi – uma atitude eticamente louvável. Opõe-se ao ato de disparatar a consciência da discrição, propriedade de carácter em vias de extinção. Porque se antes os disparatados atuavam numa esfera social paralela, a mais provinciana, hoje lideram empresas e governam países e tomam decisões em nome do disparate em que se metamorfoseou o seu cérebro. Quer isto dizer que se tornaram numa espécie ética em autêntica proliferação. É lamentável, portanto, mas é a realidade.

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Rui Tavares de FariaProfessor e Investigador