Melhor ciclista açoriano de sempre na Volta a Portugal:“ foi uma volta especial”

João Medeiros ficou em 18º lugar entre os 105 atletas que terminaram a prova tendo sido o terceiro ciclista com menos de 22 anos

João é natural de Santo António, em Ponta Delgada, e é ciclista da LA/Alumínios/Credibom/Marcos Car © DL

Durante 10 dias consecutivos, fez sobre duas rodas, o continente português sob um sol abrasador, percorrendo 1.700 quilómetros. Partiu da capital rumo ao Alentejo, dando um salto a Badajoz, Espanha, e até subiu a Serra da Estrela, na Covilhã. 
Fez quase sempre mais de 150 quilómetros por dia, com outros 130 atletas de topo, de todo o mundo.
João Medeiros tem 22 anos, e desde os oito anos que corre, sobre rodas. É um “trepador nato”, ou seja, o seu forte são as subidas de montanha.
Foi o único açoriano a integrar a prova rainha do ciclismo português com as cores da LA/Alumínios/Credibom/Marcos Car, uma das equipas mais jovens da Volta. Fê-lo pela primeira vez o ano passado, e este ano, voltou a fazê-lo, no mês passado, fazendo história entre os atletas açorianos da modalidade: foi o terceiro melhor atleta com menos de 22 anos e ficou em 18º lugar na classificação geral, entre os 105 ciclistas que terminaram a Volta a Portugal. Nem o seu antecessor, o açoriano Fernando Ventura, que ficou em 27º lugar em 1984, conseguiu tal proeza.
Atualmente, pica a ilha de São Miguel, onde vive, e o continente português várias vezes por ano, fazendo do ciclismo o seu modo de vida.

DL: Tiveste um furo no sexto dia da Volta a Portugal.
Foi na etapa que saía de Águeda e terminava em Miranda do Corvo. Bati num buraco, continuei a andar e comecei a sentir a roda a tocar no chão, ali um gajo entra em stress. E como temos um rádio, falei para o Hernani que  tinha um furo. O Hernâni é um dos diretores que vão nos carros, temos dois, o outro é o Nicolau. O Hernâni é o carro um, ou seja, vai na primeira fila e, depois, na segunda fila vai o Nicolau. Ele avança, eu levanto o braço para o comissário ver que tinha um furo. Como tenho estes travões de pinça, posso tirar a roda. Tirei a roda e quando o Hernani chegou foi só meter a roda [nova] e partir.

DL: Perdeste tempo com o incidente?
Para aí um minuto, se tanto. É super rápido e, depois, o mecânico empurra-me e eu sigo. 

DL: Como funcionam os carros que vos apoiam nas provas?
Nós bebemos muita água, muitos bidões. Eu, numa etapa de cinco horas, bebo cinco litros. Tento beber um litro por hora. Levo sempre dois bidões e é aí que entra o espírito de equipa, porque ir buscar água acaba por ser cansativo, tens de ir ao carro, pegas nos bidões, tens de voltar para a frente, distribuir a água, isso tudo em prova.

DL: Vocês comem durante a prova?
Comemos muito, muito, muito. Por exemplo, o nosso pequeno almoço é esparguete com ovos, depois, normalmente, uma sandes mista e um doce como um croissant com chocolate. Normalmente o início da prova é ao meio dia e quarenta e depois termina pelas cinco. Quando vamos para a corrida, metemos comida nos bolsos, muito hidratos de carbono. Temos que comer entre 60 a 90 gramas de hidratos de carbono por hora.
Levamos comida, só que, entretanto, a comida acaba. Ali pelo quilómetro cem tem alguém a dar sacos onde normalmente tem sempre um bidon, géis, barras de cereais, pão de leite com marmelada, gelatina congelada para arrefecer um bocado o corpo, e uma coca-cola para ajudar aliviar o estômago.

DL: E como foi esta Volta para ti, mais fácil ou difícil que a do ano passado?
O ano passado não desfrutei nada da corrida, sofri muito. Este já consegui desfrutar mais e, por acaso, foi uma volta especial. Dentro da corrida sentia-me mais confiante. Quando havia partes em que o pelotão andava mais e nunca me senti como o ano passado em que havia momentos que “ui, se calhar eu não acabo isto hoje” e “será que eu consigo?”, não, este ano foi totalmente diferente.
Este ano geri melhor o calendário, aproveitei melhor o descanso, em momentos de dúvidas, não massacrar o corpo e correu tudo bem.

DL: Em termos psicológicos é uma prova dura, não?
É. Como são muitos dias, pensava sempre “pronto, deixa-me não olhar para o resto do livro”, porque recebemos um livro com as etapas. “Deixa-me não passar muitas páginas, deixa-me só passar página a página”.
Mas nunca senti que houvesse momentos de quebra, ia metendo esses objetivos mentais, etapa a etapa, e assim ajudava a aumentar a confiança.

DL: O que é que é muito importante para um atleta profissional?
É a disciplina, na bicicleta e fora da bicicleta. A disciplina na bicicleta é fácil, porque pegamos na bicicleta e vamos treinar, é o nosso trabalho. Como treinamos quatro a cinco horas por dia, temos mais tempo livre e temos que ter disciplina para não cansar o corpo, desnecessariamente.

DL: E disciplina é o quê?
É a alimentação, o descanso, o sono, fazer recuperação pós treino, massagem, alongamentos.

A Lagoa do Fogo é um lugar de boas memórias para João Medeiros e as subidas são o seu forte © DL

DL: Recuando um bocadinho, como surgiu o gosto pelo ciclismo?
Surgiu pelo meu pai. Quando eu era pequeno, ele também andava de bicicleta. Costumava acompanhá-lo nas corridas e sempre andei ali no meio das bicicletas. Depois ele criou a Associação e começou haver corridas para os mais jovens, em que comecei a entrar.
Eu aprendi a andar de bicicleta aos quatro anos e a minha primeira corrida como atleta foi aos oito anos.

DL: Há uma fotografia que tens aqui com o teu pai na Lagoa do Fogo, não é?
É. Houve aqui uma chegada aqui à Lagoa do Fogo em que eu estava na meta. Eu tenho uma recordação, aqui na Lagoa do Fogo, de realmente estar aqui em cima com o meu pai, já foi mais tarde, em que corri até lá baixo àquela curva que tem para aí a cem metros, para dar incentivo ao meu pai e depois vim a correr com ele até quase cá cima.

DL: E venceste, aqui recentemente.
Recordo-me, foi uma vitória especial porque foi a minha primeira vitória aqui na ilha de São Miguel, a um nível mais profissional. Foi uma vitória agridoce porque eu queria ganhar a geral da corrida mas não consegui, consegui ganhar aqui a etapa, o que me deu bastante visibilidade.

DL: Na ilha, há cada vez mais ciclistas a circular pelas estradas, junto com os carros. O que é que é importante para ciclistas e automobilistas?
Tentar dar mais distância quando ultrapassam o ciclista. Há muitos que não têm paciência de esperar até certo momento para ultrapassar e fazem ultrapassagens mais bruscas e passam mais rente a nós. Por exemplo, há muitas situações em que um ciclista está a aproximar-se de uma rotunda e, normalmente, em vez de o condutor esperar atrás do ciclista, não, ele ultrapassa o ciclista.
O ciclista só está a olhar para a frente e se um carro passa rápido até nos desequilibra com um susto, aí é mais perigoso.

Sara Sousa Oliveira

Entrevista publicada na edição impressa de setembro de 2022

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