João Amado: o artista açoriano que passou dos números à tela

João Amado tem 29 anos e é um artista micaelense, autodidata. Já expôs a solo, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. Nos últimos dois meses, integrou a residência de artistas que decorreu na Ribeira Grande promovida pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD)

Artista foi o único açoriano a integrar residência de dois meses no Arquipélago © Álvaro Miranda/ Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas

Além de ser o único açoriano no grupo de nove selecionados para o curso de artes visuais da FLAD, João Amado é também o único artista sem formação académica em artes. 

Mas, afinal, o que é uma residência de artistas e o que leva um jovem natural de São Miguel a querer permanecer, durante dois meses, numa dessas residências? Vamos por partes.

É natural de Ponta Delgada, tirou o curso de Economia na Universidade dos Açores. Mais tarde, seguiu para Lisboa, para o mestrado de Gestão e Empreendedorismo. Durante toda a sua vida procurou ocupar o seu tempo, com duas das suas paixões: o skate e o surf. Olhando para trás, e mesmo sem ter um histórico de artistas na família, explica ao Diário da Lagoa (DL) que os grupos com quem se dava eram sempre “o pessoal das artes”. Decidiu estudar economia, mas não encara isso como um desvio no seu caminho. Foi, aliás, enquanto esteve a tirar o mestrado em Lisboa que se “encontrou” com o mundo das artes. De forma autodidata, começou a experimentar. Hoje vive dos seus trabalhos e da sua criação artística. Ao DL conta como é esta experiência de partilhar casa e local de trabalho, durante dois meses, com outros artistas que vêm do continente português e do Brasil.

O que é uma residência artística?

São espaços, físicos ou virtuais, que podem existir em vários formatos. De um modo geral têm o mesmo intuito: dar a conhecer diferentes tipos de propostas e emergir em culturas distintas. Uma residência pode ser considerada uma espécie de “ateliê temporário” para os artistas, onde podem encontrar novas inspirações, focar-se num projeto específico e desenvolver novas ideias junto de outros artistas sob a orientação de tutores que guiam quem integra as residências.

Durante dois meses, o Arquipélago recebeu nove artistas de várias nacionalidades. Ficaram a residir em três casas, no concelho da Ribeira Grande, e a trabalhar diariamente em ateliê, no próprio Arquipélago. Durante a estadia, os artistas realizaram várias visitas por toda a ilha de São Miguel, não só para conhecer os locais, mas também para recolher materiais e ganhar inspiração. 

Para João Amado, esta foi uma experiência única: “como venho de economia, sinto que há uma necessidade de colmatar essa falta de bagagem teórica e muitas vezes técnica, de formulação de pensamento artístico. Como se estrutura um projeto, desde a investigação até a apresentação de uma peça”, explica o artista. “Achei que seria uma ótima experiência para mim, para poder reduzir estas distâncias e para dar um bocadinho mais de engrenagem em torno desse universo mais artístico”, diz.

“Foi sempre uma aura de alegria”

Quanto à convivência com os outros artistas, João não tem dúvidas: “foi espetacular!”. E acrescenta: “temos uma grande ligação, mas cada um mantém a sua identidade, é curioso como é que nove pessoas com personalidade e contextos diferentes, não criam conflitos entre si. Parece que já nos conhecemos há tanto tempo, criámos um sentido de agregação tão forte. Claro que há nuances, uns altos e baixos entre o grupo, somos humanos. Foi sempre uma aura de alegria e isso transpõe-se para fora do universo do curso.”

O facto de ser o único açoriano é algo que João encara de forma positiva. Para integrar a residência, a FLAD e o Arquipélago lançaram uma Open Call, um concurso aberto, ao qual os artistas podiam concorrer, atendendo a determinados requisitos. “Fiquei surpreso porque acho que não houve muita gente de cá a candidatar-se”, explica o micaelense, que ficou a saber da existência do concurso através da página de Instagram do Arquipélago. 

A idade e o trabalho apresentado em portefólio, eram alguns dos requisitos para integrar o curso.  “Tinhas de ter dois meses disponíveis da tua vida para poder vir para aqui, e eu acho que é essa a principal razão que levou outros artistas açorianos, nomeadamente daqui de São Miguel, a não concorrerem”. Para muitos artistas, não é possível ter dois meses completamente livres para  se dedicarem a um curso de artes visuais como este, esclarece João. O facto de trabalhar como freelancer ajudou à participação nesta iniciativa. “Eu vejo isso do ponto de vista de um investimento que vai dar certamente frutos porque, para além de todo o conhecimento, de todos os conselhos, as frustrações que se passaram aqui, o nível de ligação que nós, enquanto alunos e grupo criámos, foi muito forte”, precisa.

Durante dois meses, nove artistas estiveram em regime de criação num curso de artes visuais promovido pelo Arquipélago em conjunto com a FLAD © Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas

Também para os outros artistas a participar na residência, seis naturais do continente e dois do Brasil, foi importante a participação de um local. Dois dos artistas conheciam já a ilha Terceira, mas nenhum tinha estado em São Miguel. Para isso, contam como foi importante a presença de João para ajudar a descortinar certos costumes e tradições, mas também para chegar aos locais certos. “Nós vamos passear, visitar a ilha, e esse olhar de quem já vive cá, há muitos anos, ajuda a ir aos sítios certos, a promover as melhores experiências, quando temos tempo reduzido, é preferível irmos diretos ao assunto”, conta João.

Em várias circunstâncias, o conhecimento do micaelense também facilitou o trabalho dos colegas. “Sendo um local que já tem conhecimento do meio, acelera o processo. Digo logo «olha, conheço um amigo meu que trabalha muito bem com madeira» ou «estás a precisar de um carro?» São meros exemplos mas que ajudam a fazer essas pontes”.

A presença de um micaelense no grupo não é um mero facilitismo. “Um dos valores ou políticas do Arquipélago é essa crescente inclusão e aproximação da arte ou dos programas à comunidade local, e seguindo essa linha de ideias, não fazia sentido ser só pessoal de fora, ia pôr em causa toda essa política.”

O trabalho desenvolvido por João durante a residência, e apresentado agora na exposição “Chave na Serradura”, em conjunto com os outros artistas, é um trabalho de sobreposição. Apresenta duas peças, uma em papel e outra uma estrutura de parafina, em que as camadas se sobrepõem a um corpo. “Embora o gesto de acumulação de camadas seja evidente, a ideia subjacente reside no confronto com a primeira camada, aquela que fundamenta o trabalho e que se centra num plano mais recuado” – pode ler-se na folha de sala da exposição. João considera que este é um trabalho de auto-reflexão, que obriga o espectador a procurar e focar-se no centro da obra. “Não vim para o curso para me esquecer de quem sou e então essa ideia de voltar a pensar: o que é que eu faço, o que é que eu fazia”.

Mariana Lucas Furtado

Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2022

Categorias: Reportagem

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