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Aborto espontâneo e infertilidade

Maria João Pereira
Farmacêutica

O desejo de gerar uma vida é, para muitos casais, um sonho acompanhado de dúvidas, expectativas e até frustrações, caso os planos não se realizem conforme o esperado. Por isso, é importante desmistificar certos conceitos – como aborto espontâneo e infertilidade – e falar sobre eles abertamente. Afinal, o conhecimento pode oferecer algum conforto quando tudo parece seguir um caminho diferente do planeado.

Primeiramente, ter um aborto espontâneo não significa ser infértil, e em nenhum dos casos significa incapacidade definitiva de gerar vida. Os abortos espontâneos costumam ocorrer até à 12ª semana de gestação, sem intervenção externa. Já a infertilidade consiste na dificuldade em engravidar após um ano de tentativas (ou seis meses no caso de mulheres com idade superior a 35 anos).

Embora pouco falada, a perda gestacional ocorre em até 20% das gravidezes confirmadas. Sim, é mais comum do que se fala. Os fatores que podem levar a uma perda gestacional são diversos: fatores genéticos, como anomalias cromossómicas; problemas uterinos e do colo do útero; idade materna avançada; gestação anembrionária, quando o embrião se forma, mas não se desenvolve; problemas de saúde maternos como doenças auto-imunes, fatores endócrinos, infeções sexualmente transmissíveis (IST), doença crónica não controlada e obesidade; hábitos nocivos como tabaco, droga e álcool.
E, em alguns casos, a causa do aborto espontâneo permanece desconhecida. Isso significa que não poderá gerar vida numa próxima tentativa? Não. Embora a perda gestacional represente um luto legítimo, que deve ser reconhecido e vivido, é essencial não desanimar e procurar ajuda médica e psicológica, se necessário.

A infertilidade pode ser primária (na primeira tentativa de engravidar) ou secundária (quando o casal já teve filhos anteriormente). Alguns casos têm a sua etiologia desconhecida, mas grande parte está relacionada com fatores masculinos e/ou femininos.

No caso dos homens, os fatores mais comuns incluem alterações na produção ou na capacidade de movimento dos espermatozoides, alterações nos testículos, desequilíbrios hormonais, consumo de álcool, tabaco e drogas, além da exposição frequente a fontes de calor elevadas (que interferem na produção dos espermatozoides). Relativamente às mulheres, a lista de fatores inclui doenças como a síndrome dos ovários poliquísticos e endometriose (entre outras), ISTs, a idade avançada, o estilo de vida e o stress, uma má nutrição, peso fora dos valores normais, consumo de tabaco, álcool e drogas.

Le diagnóstico de infertilidade pode ser demorado e emocionalmente desgastante, já que envolve diversos exames para identificar a causa e decidir o tratamento mais adequado. As opções incluem medicamentos, cirurgias, reprodução assistida ou inseminação artificial e, embora não haja garantia de sucesso absoluto, os avanços da medicina têm permitido a muitos casais a possibilidade de gerar uma vida.

Como em tudo na área da saúde, manter um estilo de vida saudável e sem hábitos nocivos pode reduzir riscos tanto de aborto espontâneo como de infertilidade.

A jornada de gerar uma vida nem sempre é simples ou linear. Entre perdas, esperas e tratamentos, cada casal escreve a sua história. O importante é relembrar que não se está sozinho nesse caminho – há sempre cuidados, acolhimento e, sobretudo, a esperança que renasce a cada nova possibilidade.

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