
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
O termo Software é utilizado para descrever conteúdo informático intangível, isto porque não tem uma componente física que possamos ver e sentir, ao contrário do Hardware, que é utilizado para caracterizar os componentes de um sistema informático que podemos manusear. No caso particular deste artigo está a ser escrito utilizando o software Microsoft Word, e o hardware é um portátil. Software e Hardware são complementares, no sentido em que o meu portátil sem Software é apenas um pisa-papéis muito caro, e o Microsoft Word sem hardware para ser instalado nem para pisar papéis serve.
Todo o software é construído utilizando linguagens de programação, que de uma forma geral, são um conjunto de instruções que, pelo menos na sua intenção, descrevem tudo o que pode ser feito e acontecer durante utilização do software em questão. A linguagem de programação de um software é denominada de código-fonte, porque a partir desta, é possível produzir o software na sua forma final. Uma analogia possível é considerar o código-fonte como sendo a receita, e o software na forma como o utilizamos, o prato pronto a comer.
Diz-se que o segredo é a alma do negócio, e por isso há receitas que são muito bem guardadas, como a da Coca-Cola em que num dado momento apenas duas pessoas sabem a receita completa, ou a do Ketchup Heinz cujo número de pessoas que conhecem a receita completa é estimado que seja inferior a dez. Sabendo a receita, conseguimos reproduzir o produto sem ter que o comprar, e com o Software acontece o mesmo, sabendo o código-fonte, posso reproduzir o software e utilizar sem ter que o comprar, tenho apenas que o preparar.
No mundo da informática, há muito e muito bom software cujo código-fonte é disponibilizado a qualquer um que o queira utilizar, ficando assim com o nome software de código aberto, ou OpenSource, como o sistema operativo Linux ou o navegador de internet Firefox. O modelo OpenSource, a meu ver, é um pilar do mundo informático e permite não só contribuir para algo maior que nós que poderá ser utilizado por milhares ou milhões de pessoas, mas também aprender com outros membros.
Mas o software OpenSource tem vantagens bastante tangíveis, uma empresa com um produto OpenSource conta com uma comunidade que ajuda sem custos ao desenvolvimento contribuindo ativamente para o mesmo, ou utilizando e reportando os problemas que encontra. Outra hipótese é oferecer um serviço para utilização do software para clientes que não tenham os conhecimentos para o implementar, se voltarmos à analogia da receita, todos sabemos algumas receitas, mas continuam a existir restaurantes a vender pratos com base nestas receitas, isto porque tem outros serviços associados. Existem licenciamentos específicos para OpenSource que indicam o que pode ou não ser feito com o software, havendo licenças que permitem apenas o uso particular e algumas que permitem também o uso comercial.
A meu ver, a principal vantagem do software OpenSource é a transparência do mesmo, pois estando o código-fonte disponível, o software deixa de ter segredos, sabemos exatamente que ações realiza, sem haver elementos escondidos a fazer sabe-se lá o quê com os nossos dados, e isto é conseguido através de escrutínio da comunidade que o mantém analisando e revendo todo o código-fonte da mesma.
Toda e qualquer solução de código fechado requer que acreditemos que ela faz apenas o que diz fazer por quem tem interesse na sua utilização. As aplicações chinesas da Baidu em 2020 foram removidas da PlayStore, porque liam e comunicavam dados dos utilizadores como listas de contactos e localização, comprometendo não apenas os dados de quem as instalou, mas também dados dos seus contactos.
Existem fatores negativos na utilização de software OpenSource, nomeadamente a necessidade de conhecimento técnico ou suporte dedicado, mas estes podem ser ultrapassados contratando os mesmos a empresas que utilizam soluções OpenSource, mantendo assim o melhor de dois mundos.
Eu recomendo a utilização e apoio ao software OpenSource, seja desenvolvendo ativamente, se tiverem conhecimento, utilizando e reportando bugs, ou mesmo financeiramente se a utilização do produto o justificar, pois não tem apenas o produto, como também a transparência de saber o que faz. Há um ditado que diz que quando não pagamos pelo que utilizamos, o mais certo é sermos nós o produto e não o usufrutuário, à semelhança de uma vaca que não paga pela comida e medicamentos que toma, porque o produto é ela própria.
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