
Um tear é uma máquina de tecer, onde com pequenas tramas se fazem tecidos. No Centro de Intervenção “TEAR” – Transformar, Educar, Acolher, Reabilitar, localizado na freguesia de Santa Cruz, na Lagoa, não se tecem roupas ou mantas mas tecem-se competências e emoções para fortalecer os tecidos mais frágeis da sociedade.
“O TEAR funciona naquele edifício, que nós temos ali em frente à câmara da Lagoa. As entidades, algumas estão de segunda a sexta, outras não. As pessoas podem dirigir-se aqui presencialmente, ou por contato, ou por referenciação” começa por explicar Graça Costa, vereadora da câmara da Lagoa, com os pelouros da Ação Social e Saúde. No mesmo espaço, encontram-se várias instituições: a Associação Novo Dia, a Arrisca – Associação Regional de Reabilitação e Integração Sociocultural dos Açores, a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e a Kairós.
O Diário da Lagoa esteve à conversa com os responsáveis de três destas quatro instituições no edifício dos Paços do Concelho junto com a vereadora Graça Costa.
“ Só os técnicos podem atender as pessoas naquele local e é uma forma também de dar uma resposta descentralizada e de proximidade às pessoas”, destaca a autarca.
Uma vez por mês, os responsáveis das várias instituições que formam o TEAR, reúnem-se para fazer um balanço da rede. “ Acho que é sempre muito importante quando juntamos o grupo e nestas reuniões mensais vão surgindo várias ideias, várias propostas e também fazemos diagnóstico das necessidades”, sublinha Silvia Branco, da APAV.
“A APAV tem uma abrangência maior, não só no público-alvo, mas também nos tipos de crime. Fazemos apoio a vítimas de crimes patrimoniais, furtos ou abusos, ofensas à integridade física, violência sexual, ou seja, o nosso leque de intervenção é muito abrangente. O fato de nós termos aqui um espaço físico aqui na Lagoa permite-nos chegar a mais pessoas aqui do concelho de Lagoa. Este serviço de proximidade elimina barreiras geográficas”, considera Silvia Branco. A responsável indica que há cada vez mais pessoas a recorrer aos serviços da APAV: “qualitativamente, nós temos cada vez mais pessoas a solicitarem o nosso apoio. As pessoas estão cada vez mais informadas. Por isso, este registo de aumento é importante e significa que uma pessoa informada pode, efetivamente, fazer valer aqueles que são os seus direitos”.
Quem recorre aos serviços da associação são sobretudo mulheres, vítimas de violência doméstica. “Maioritariamente são vítimas de violência doméstica, aquilo que nós sentimos é que as vítimas dão o primeiro passo ou alguém dá por elas. Nós sabemos que o crime de violência doméstica é um crime que toca na esfera privada das pessoas, é um crime que é difícil denunciar.Toda a situação tem um impacto, a nível psicológico, muito negativo. Mas, como também diziam aqui há pouco, a partir do momento em que conseguimos estabelecer uma relação de empatia, de confiança, vamos dando passos pequeninos”, acredita a responsável.
O crime de violência doméstica é um crime público. “Todos nós temos esta obrigação de denunciar, mas a nós importa que a vítima, a nível psicológico, esteja bem, para que depois possa, efetivamente, dar início ao processo. E, a nível emocional, nem sempre as vítimas, no primeiro momento, estão capazes para o fazer”, alerta Silvia Branco. O que a APAV faz é “capacitar” as vítimas a prosseguir com as queixas “não só a nível psicológico, mas a nível de informação”.
Numa outra esfera de ação situa-se a Associação Novo Dia. “Nós temos aqui [na Lagoa] a equipa de Saúde na Rua, tal como também já existe em outros concelhos. A equipa começou em outubro e é constituída por um psicólogo, que sou eu, um enfermeiro e assistente social”, começa por explicar Alexandre Soares, da Novo Dia. Interage na exclusão social, ajudando quem vive na rua. “Podem ser pessoas que atualmente têm consumos e pretendem mantê-los. Pessoas que se encontram sem abrigo ou pessoas que estão à procura de tratamento “, sublinha o psicólogo. Alexandre Soares diz que “a Lagoa tem sido bastante desafiante” porque “somos uma equipa que vai ao encontro das pessoas, não ficamos à espera”. E para isso é preciso estabelecer vínculo com quem está na rua. Saem de quarta a sexta-feira: “Vamos nós comunicar e vamos conversar com as pessoas. Realmente é grande a diferença do dia-a-dia, porque nós vamos ao encontro das pessoas. Apesar de termos alguns momentos em que estamos aqui à guarda, mas a grande parte do nosso trabalho é sempre feito no terreno” destaca o responsável. “No início as pessoas ficam sempre um bocadinho desconfiadas, pensam que nós somos da polícia. Mas depois que começamos a estabelecer uma relação com os nossos utentes, as coisas realmente vão evoluindo. Os próprios utentes passam a palavra uns aos outros e realmente conseguimos ter aqui uma grande confiança, tal como já temos nos outros concelhos”, diz.
Numa espécie de fim da linha, está a Bio Kairós. A Kairós é uma cooperativa de incubação de economia solidária. A linha Bio, como o próprio nome indica, cultiva e produz produtos hortícolas e frutícolas biológicos, tendo uma das plantações na zona da Malaca, no Cabouco. Cada funcionário é devidamente remunerado e os produtos são de venda ao público e até chegam a hotéis de várias estrelas.“Promovermos a agricultura biológica e a integração e inserção de pessoas, essencialmente com doença e deficiência mental” explica Raquel Vargas, responsável pela Bio Kairós. “As pessoas que lá chegam têm de ter alguma estabilidade enquanto funcionários, mas para chegar a funcionários existe um percurso. E aí entra também esta parceria com a câmara municipal. Nós acabamos por ser privilegiados porque todas as equipas têm de intervir, desde a equipa da câmara, da Arrisca, do Novo Dia, a APAV, para depois eles chegarem à Bio Kairós com alguma estabilidade para que eles possam ver o retorno daquele esforço que tem vindo a ser feito por eles”, destaca a responsável.
Para isso, é preciso conseguir integrar, em quem tem mais dificuldades, rotinas simples como saber cumprir um horário laboral ou andar de autocarro. “O nosso trabalho é muito prático, é trabalhar muito a pessoa, precisamos muito uns dos outros. Esse projeto [TEAR] acho que é fundamental e muito necessário para que nós consigamos trabalhar um bocadinho melhor uns com os outros”, considera Raquel Vargas. Contribuir para a autonomia das pessoas, com maiores dificuldades, é um dos principais objetivos da cooperativa de economia solidária.
“Aquilo que fazemos com a prática agrícola é ensinar muito a relação com o outro, o respeito pelos colegas, perceber que é respeitado. As pessoas muitas vezes chegam lá e acham que estão sempre a fazer pouco deles, acham que a gente dizer para cumprir uma tarefa é fazer pouco. Fazemo-los perceber que todos fazemos o mesmo”, explica a responsável da Bio Kairós. “Não estamos a falar de pessoas que é fácil a intervenção, são pessoas que nunca foram aceites e fazermos ver que eles valem alguma coisa e que são válidos, não é fácil. Portanto, realmente, ter esse conjunto de pessoas que intervêm é muito bom, a Kairós neste momento é privilegiada”, considera.
O TEAR tem diferentes horários de acordo com as diferentes associações que lá estão.

Gabinete de Apoio à Vítima de Lagoa
Horário de Atendimento: Terça-feira e sexta-feira das 09h00 às 12h30.
E-mail: apav.lagoa@apav.pt | Telefone: 296 24 99 88
Situação de exclusão social, a dormir na Rua?
Equipa de Saúde da Novo Dia
Horário de Atendimento: De Segunda-feira a Sexta-feira das 09h00 às 16h30.
E-mail : saudenarualagoa@novodia.org | Telefone: 296 24 99 85
A consumir drogas ou álcool, precisa de apoio?
Marque o atendimento com a equipa da ARRISCA
Email: arrisca.pdl@gmail.com | Telefone: 296 281 658
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