
A Vila de Água de Pau reafirma-se como o coração do artesanato concelhio com a inauguração, no Auditório Ferreira da Silva, de dois projetos que homenageiam a identidade material e imaterial da Lagoa. A exposição “Fibras Vegetais” e o documentário “Memórias da Água” surgem como ferramentas de preservação de um legado que moldou o território e a vida das populações locais ao longo de gerações.
A mostra “Fibras Vegetais” é o resultado de uma residência artística de Sofia de Medeiros, que mergulhou nas oficinas dos artesãos Alcídio Andrade e Lurdes Couto para criar seis peças inéditas. O projeto destaca a vitalidade da arte cesteira, do trabalho em folha de milho e da espadana, matérias-primas que outrora nasceram da necessidade e que hoje ganham uma nova dimensão estética. Segundo uma nota enviada pela autarquia lagoense à redação, esta iniciativa valoriza não apenas o resultado final, mas todo o processo criativo assente em práticas que respeitam os ritmos da natureza.

Presente na inauguração, o presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, destacou o significado cultural da simbiose entre artistas e artesãos. “Esta mostra valoriza um património que está vivo, que une gerações e que respeita os ritmos da natureza”, afirmou o autarca, citado no comunicado da autarquia. Frederico Sousa enalteceu ainda o trabalho de Alcídio Andrade e Lurdes Couto, apelidando-os de “guardiões de alguns dos saberes tradicionais da nossa terra”.

A par desta valorização manual, o documentário “Memórias da Água” oferece uma viagem visual ao passado da comunidade. Construído a partir do espólio fotográfico de Roberto Medeiros, o filme resgata vivências coletivas e histórias de um tempo em que a água era o motor central do trabalho e da organização social na Lagoa. Sobre esta obra, o presidente da edilidade salientou que se trata de “um testemunho essencial da nossa identidade coletiva”, garantindo que as novas gerações compreendam a riqueza do seu passado.
Ao elevar os artesãos locais ao estatuto de protagonistas, estes projetos asseguram que as técnicas ancestrais continuam a ter lugar no futuro da região, transformando a tradição numa semente para novas experimentações artísticas e reforçando a coesão social da vila.

O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, inaugura na próxima sexta-feira, 6 de março, pelas 18h00, a exposição «Fibras Vegetais», da artista Sofia de Medeiros, e apresenta o documentário «Água de Pau: Memórias da Água», com base no espólio fotográfico de Roberto Medeiros.
O anúncio foi feito pela Câmara Municipal da Lagoa e revela que a exposição resulta de uma residência artística em colaboração com os artesãos lagoenses Alcídio Andrade e Lurdes Couto, focada na exploração e valorização das fibras vegetais, matéria-prima inserida no projeto municipal «Entrelaçar Fibras Vegetais».
De acordo com a autarquia lagoense, o projeto foi criado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e preservação da arte do entrelaçado com fibras vegetais, valorizando os saberes tradicionais transmitidos de geração em geração e o conhecimento das plantas e dos seus ciclos. Assentando em matérias-primas de maior expressão no concelho da Lagoa, como o vime, a espadana e a folha de milho, o projeto visa assegurar a transmissão destas técnicas e incentivar o surgimento de novos artesãos, face à redução do seu número atualmente.
O projeto estrutura-se em dois eixos: um dirigido à comunidade em geral e outro à comunidade escolar do concelho de Lagoa. No eixo escolar, a arte de entrançar fibras vegetais integra a disciplina de Educação Tecnológica do segundo e terceiro ciclo, sensibilizando os alunos para a sua importância e promovendo competências técnicas e criativas.

O documentário «Água de Pau: Memórias da Água» é um registo audiovisual que recupera histórias, vivências e identidades locais através das imagens da coleção fotográfica de Roberto Medeiros. Este trabalho constitui um importante testemunho visual da comunidade pauense e da sua evolução ao longo do tempo, propondo uma reflexão sobre a fotografia enquanto instrumento de memória e identidade coletiva.
O documentário abordará numa primeira parte o colecionismo e o papel do colecionador na construção da memória social. Numa segunda parte, através da coleção fotográfica, destaca a importância do elemento água na história da vila, explorando dimensões como vida, espiritualidade e património, e reforçando o sentimento de pertença da comunidade à sua terra.
Este momento cultural pretende afirmar-se como um espaço de encontro entre arte contemporânea, património e memória coletiva, reforçando a criação artística enquanto instrumento de preservação e valorização da identidade local. A entrada no Auditório Ferreira da Silva será livre.

A Câmara Municipal de Lagoa irá promover o projeto “Entrelaçar Fibras Vegetais”, com o objetivo de garantir a sustentabilidade e perpetuação da arte e técnicas de entrelaçados com fibras vegetais, segundo nota enviada pela autarquia.
O projeto arranca com uma residência artística, a cargo da artista Sofia de Medeiros, entre 26 de agosto e 30 de setembro, no Centro Comunitário João Bosco Mota Amaral, em Água de Pau, e entre 2 e 6 de setembro, na residência da artesã, na freguesia da Ribeira Chã.
Na vila de Água de Pau, a artista vai privar com o artesão Alcídio Andrade e, na Ribeira Chã, com a artesã Lurdes Couto, onde irá aperfeiçoar a manipulação de algumas fibras vegetais (vime, espadana e folha de milho), fazendo contraste com o ferro, uma das matérias-primas preferenciais da artista para a criação das suas esculturas, lê-se, na mesma nota.
Estima-se que, a nível do trabalho com os artesãos, a residência artística tenha a duração de três semanas. O resultado desta residência vai ser incorporado nas peças que integram a coleção de arte da Câmara Municipal de Lagoa, “sem prejuízo de estar exposto em outros espaços culturais geridos pela autarquia”, explica o comunicado.
Sofia de Medeiros nasceu em Ponta Delgada, em 1975, onde reside e trabalha atualmente. É licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e bacharel em Escultura pela Faculdade de Belas Artes do Porto. É mestre em História da Arte pela Universidade Lusíada de Lisboa. Expõe coletiva e individualmente desde 1997, em diversos locais como Porto, Lisboa, Guimarães, Coimbra, Nazaré, Óbidos, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo. Está representada, ainda, em várias coleções públicas.
Alcídio Andrade, natural de Água de Pau, nasceu, em 1980, tendo aprendido a arte de cestaria com o pai, João Andrade, e tem vindo a ministrar diversas formações, na ilha, e por todo o arquipélago dos Açores. Para além disso, participa em diversas feiras de artesanato nos Açores, no continente e no estrangeiro. Os seus trabalhos destacam-se por executar peças tradicionais e contemporâneas.
Lurdes Couto nasceu e cresceu na Ribeira Chã. Durante um período emigrou para as Bermudas. Foi empresária, tendo um estabelecimento de construção civil, ao longo de mais de 30 anos. Trabalha, essencialmente, no ramo do artesanato com várias fibras vegetais, entre as quais a espadana e folha de milho. Realizou trabalhos em espadana para um resort em São Miguel.
“Atualmente, no concelho de Lagoa, é reduzido o número de artesãos que se dedicam à arte de trabalhar as fibras vegetais, mostrando-se primordial investir na formação de novos artesãos e contribuir para a continuidade desta forma de arte, apostando na transmissão de saberes e técnicas às novas gerações”lê-se ainda na nota.
O projeto “Entrelaçar Fibras Vegetais” assenta em dois eixos de ação: o primeiro é dirigido à comunidade escolar; o segundo à comunidade em geral. Assim, no próximo ano letivo 2024/2025, na Escola Básica Integrada de Água de Pau, a componente de trabalho das fibras vegetais, nomeadamente o vime integra o plano curricular da disciplina de Educação Tecnológica, do 2.º e 3.º ciclos.