
Rui Tavares de Faria
Professor e Investigador
Depois de, por razões várias, termos dado férias aos Caracteres, de Teofrasto, eis que, em consonância cronológica com o regresso às aulas, voltamos a dedicar este espaço à recriação modernizada – e bem-disposta – dos tipos humanos que compõem o tratado ético do discípulo de Aristóteles. E, após dois meses de silêncio, nada como abordar o “Parlapatão”, o sétimo retrato da obra de Teofrasto. É designação do conhecimento geral o termo “Parlapatão” que nomeia esta figura humana e que a tradutora escolheu como sendo ilustrativo, em língua portuguesa, do nome grego “Λαλιά” (laliá), onomatopeia sugestiva “do efeito de um desarrazoado verbal que soa a um ininterrupto e ininteligível la-la-la”, segundo as palavras de Maria de Fátima Silva.
De facto, também em português a palavra “Parlapatão” tem na sua base morfológica a terceira pessoa do singular, no presente do indicativo, do verbo “palrar”, que se aplica ao ato de articular sons imperfeitos ou difíceis de perceber, o mesmo é dizer incompreensíveis à audição, e o nome “patão”, que tanto pode designar um tipo de calçado rústico aberto no calcanhar, como pode ser o aumentativo da espécie aquática pertencente à família anatidae a que chamamos “pato”. A considerar esta última aceção, o “Parlapatão” é aquele indivíduo que, à semelhança de um grande pato, grasna “a torto e a direito”, tornando-se, por isso, incomodativo e distinto do tagarela, outro dos caracteres de Teofrasto sobre o qual já aqui escrevemos.
Ora, o autor grego diz que “a parlapatice, se se lhe quiser encontrar uma definição, é uma espécie de incontinência do discurso” (Char. 7.1.), ou seja, é a verbalização descontrolada por parte de alguém que, conforme o caracteriza Teofrasto, interrompe tudo e todos para fazer valer a sua voz, tenha ela ou não enquadramento no conversa em que se intromete sem escrúpulos: “seja o que for que lhe diga alguém que o encontra por acaso, ele salta logo a reclamar que não é nada disso, que ele é quem está bem por dentro do assunto, e que, se se lhe quiser prestar atenção, se ficará ao corrente do que aconteceu.” (Char. 7.2.). Seguramente o meu caro leitor já recuperou da sua memória os parlapatões com quem se cruzou ao longo dos tempos. Oh! Quantos há! São uma espécie de mexeriqueiros especializados, detentores do conhecimento (quase) total acerca de qualquer assunto ou pessoa. Por vezes, são-nos úteis, diga-se a verdade, mas, na maior parte das situações, tornam-se incomodativos, impertinentes e cansativos. Teofrasto refere que o “Parlapatão” recorre amiúde ao argumento “É-me difícil estar calado!” (Char. 7.9.); e a nós? Não é igualmente ou tão mais difícil estar de ouvidos abertos à verborreia que sai da boca de um incontinente discursivo?
Por outro lado, nos dias que correm, usa também a máscara de “Parlapatão” o indivíduo mais solitário. Como passa grande parte do seu tempo sozinho e isolado (opção ou imposição?), sem falar com ninguém, mal se abeira de quem quer que seja solta a língua e não se cala; “se alguém lhe diz que são horas de ir andando, ele vai atrás e acompanha o sujeito até à porta de casa.” (Char. 7.6.) E o pior é quando se convida a entrar, não só para continuar a palrar e a palrar, mas também para se sentar à mesa daquele que o foi ouvindo (ou não) o caminho todo até ao seu domicílio. Notamos que há cada vez mais parlapatões desta espécie. E quando não nos abordam frente a frente, tentam impô-lo por telefone. O objetivo, que é fazer-se ouvir a todo o custo, cumpre-se também nesta modalidade intercomunicativa. O efeito é o mesmo: a conversa resulta em cansaço e a sugestão, da nossa parte, o importunado, de uma despedida leva o “Parlapatão” a insistir num dado assunto ou a avançar para um novo tema para nos manter em linha.
Se nos propuséssemos fazer uma analogia entre o “Parlapatão” e outros tipos éticos, encontraríamos uma multiplicidade de opções, porque ele é a personificação do aborrecimento, da imodéstia, da falta de noção, enfim. Das sugestões que nos poderiam ocorrer, em matéria de prevenção do contacto com este carácter, o uso frequente de auriculares parece-nos a mais acertada – e engraçada. O meu caro leitor já se apercebeu de que, nas mais variadas ocasiões (estar no local de trabalho procurando concentração, andar de avião de forma relaxada, estar a caminhar ou até aguardar por uma consulta na sala de espera), o uso de phones, mesmo que não se esteja a ouvir música, revela ser o melhor repelente dos parlapatões? É verdade. Esteja ele, o “Parlapatão”, em qualquer uma situações antes apresentadas entre parênteses, sentado ao nosso lado, se nos vir de ouvidos tapados, tem ao menos o discernimento de não nos dirigir a palavra. É certo que pode tocar-nos no ombro ou no braço ou procurar um encontro de olhar para abrir, sem hesitar, a boca, mas temos sempre a opção de fingir que não é connosco.
Além desta hipótese e tendo em conta o grau de familiaridade que tenhamos com o “Parlapatão” que se aproxima de nós e nos interrompe como se fosse mal-educado (que também pode ser, mas estamos em crer que a parlapatice será, igualmente, uma certa patologia psíquica por identificar), podemos sempre proceder do mesmo modo como ele se nos dirige, isto é, não o deixamos falar, cortamos-lhe a palavra, elevamos a voz, usamos da mesma incontinência discursiva de que ele padece para lhe fecharmos a boca. Este cenário, que pode converter-se num episódio hilariante, pretende demonstrar que a solução de um dado problema, como é o de lidar com um “Parlapatão”, passa muitas vezes por um mecanismo de reflexo, o passar o feitiço para o feiticeiro. Aí reside, pensamos nós, um antídoto eficaz para afastar do nosso sossego não só os parlapatões, mas também todas as espécies humanas que se nos afiguram nocivas, voluntária ou involuntariamente.