
Dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher. Mais do que uma data para homenagear as mulheres que viram o seu papel na sociedade desvalorizado, este é um momento para valorizar quem, por sua conta e risco, enfrentou a morte depois de receber um diagnóstico de cancro, mas recusou desistir e continua presente para contar a sua história de vida.
Helena Sousa, 44 anos, natural da freguesia do Pico da Pedra, é um exemplo de mulher que ofereceu o peito às balas e recusou desistir perante um diagnóstico que abala qualquer pessoa. A irmã mais nova de quatro filhas não teve uma adolescência/início de vida adulta fácil, pois só concluiu o 9.º ano antes de emigrar para o Canadá, país onde conheceu o ex-namorado.
Poucos meses depois da experiência em solo canadiano, regressou a São Miguel, tendo engravidado para o filho mais velho. Mais tarde foi mãe pela segunda vez, de uma menina. Com pouco mais de vinte anos de idade já tinha dois filhos à sua responsabilidade e um futuro ex-namorado pouco solidário, entregue ao álcool e à droga.
A história de vida de Helena Sousa é contada na primeira pessoa. “Cresci na infância com mais três irmãs, todas mais velhas. Atualmente vivo em Ponta Delgada. Estudei no Pico da Pedra e depois fiz o Liceu até ao 9.º ano. Emigrei para o Canadá onde conheci o meu ex-marido, pai dos meus filhos. Não correu muito bem. Voltei a São Miguel para morar em casa da minha mãe, grávida do meu filho mais velho. Ele veio comigo, moramos ambos em casa da minha mãe. Ainda tivemos uma filha, atualmente com dezasseis anos. Depois comprei uma casa na Lagoa”, resumiu.
O sonho de uma vida a dois estava prestes a esfumar-se. “A crise entre 2012/2013 colocou-me no desemprego e fomos todos para casa. O meu ex-namorado também perdeu o emprego porque era segurança e com os problemas de alcoolismo que ele começava a evidenciar não ajudou. Tivemos de entregar a casa ao banco, mas ainda ficou uma dívida para pagar. Divorciamo-nos… Voltei para casa da minha mãe. Quando consegui uma casa mais barata mudei-me para Ponta Delgada e dei uma segunda oportunidade ao meu ex-namorado. Mas ele já estava nos vícios e depois andou na droga, alcoolismo e tudo se complicou”, recordou.
O pior veio depois. “Em 2024 decidi tirar o curso de segurança. Nessa altura já evidenciava alguns sintomas como o peito inchado. Antes do incêndio no Divino Espírito Santo tive febres muito altas e fui ao hospital. Parecia que ia morrer. A minha médica estava de serviço e mandou-me fazer antibiótico. Levou um bocado de tempo a passar, mas a massa dura persistia. Voltei uns tempos depois e voltei ao antibiótico. Ela pediu uma mamografia de urgência, mas com o incêndio tudo se complicou e, em junho, apareceu nova infeção. Acabei por pagar tudo do meu bolso na CUF e foi lá que foi detetada uma pequena suspeita. Fiz uma biopsia”.
A consulta agendada para 20 de agosto foi antecipada duas semanas. “Chamaram-me para o dia 4 de agosto e, nessa altura, percebi qual seria o resultado. A médica informou-me que era um tumor maligno, mas que era localizado, pelo que iria apenas fazer cirurgia e radioterapia. Mas, nessa altura, já estava a trabalhar e voltou tudo para trás. Tive de colocar baixa médica e fiquei sem receber qualquer apoio porque não tinha seis meses de trabalho para ter direito a apoio da Segurança Social. Foi muito complicado…”, assumiu.
Helena Sousa foi operada pela primeira vez a 5 de setembro de 2024. “Correu tudo bem”, disse. Dois dias depois teve alta, mas dois meses volvidos a médica “disse-me que tinha dois tipos de cancro: um intradutal e outro invasivo, sendo que o invasivo é mais complicado porque espalha-se para outros órgãos através das células”. Solução? “Tive de ser novamente operada para limpar o cancro invasivo e tive de fazer quimioterapia. Nessa altura não aguentei o choro porque o meu cabelo era comprido e sabia que iria cair. Para a imagem da mulher é algo difícil. Quando fui operada ao peito e olhei-me ao espelho e vi que me falta um mamilo também não é fácil”.
Com um tumor com cerca de 7,5 centímetros, Helena Sousa não tinha muitas opções. “No espaço de um mês fui operada por duas vezes. Correu tudo bem, mas depois fui encaminhada para a oncologia para a quimioterapia. Foram dezasseis sessões durante cinco meses. Mexeu comigo. Só queria deitar-me. O cansaço extremo quase não dava para subir as escadas de casa”, recordou.
Depois da quimioterapia veio a radioterapia e uma injeção hormonal de três em três meses para reduzir as células malignas. “Esta medicação é para reduzir o estrogénio para que o cancro não volte”, acrescentou.
Depois de dois anos a lutar pela vida, Helena Sousa voltou ao trabalho, como segurança, mas como uma mulher diferente. “A vida ensinou-me a pensar mais em mim. Sempre dei muito de mim aos outros, sempre lutei pelos meus filhos porque o pai ou está internado numa clínica ou está na rua. Quando os meus sogros faleceram ele recebeu a herança, mas não deu nada aos filhos. Os meus filhos só têm a mim e à minha mãe que também lida com cancro de pâncreas”.
“Sinto-me uma mulher diferente, mais madura. Conseguir colocar um travão numa relação tóxica, narcisista, durante a qual fui maltratada. Curei-me praticamente sozinha. Não tive apoio do meu ex-namorado que chegou a chamar-me de avariada porque tinha o peito retalhado. Depois de tudo o que já passei – inclusivamente duas reanimações quando a minha filha nasceu porque apanhei uma bactéria no hospital – só quero é paz, viver para mim e reconhecer-me como mulher. Sei que sou uma grande mulher!”
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