É certo que, nos últimos anos, temos observado um fenómeno crescente; os nómadas digitais, disruptivos das convencionais normas laborais, abraçam um estilo de vida de mochila às costas. Muitos procuram liberdade, aventura, experiências e abraçam o seu estilo de vida profissionalmente, enquanto partilham as vivências com o mundo a troco de referências de hotéis, alojamentos, atividades turísticas acessíveis aos seus milhares de seguidores. Os profissionais nómadas desenvolvem a sua atividade de forma remota, utilizam a tecnologia disponível e dependem da Internet desde que chegou a todo o lado. Podem ser repórteres, fotógrafos, exploradores, artistas, influenciadores, ganhando até comissões por referir marcas, lojas, serviços dos locais para onde se deslocam. O projeto-piloto, chamado DNA Azores, prevê, entre outras medidas, a criação de uma plataforma online para rastrear nómadas digitais, de uma rede de espaços de coworking e de um sistema de recompensas que alicie a vinda e interesse desses nómadas pelos Açores, pois acredita-se poder estimular a economia. Este fenómeno está também a impulsionar a gentrificação para as zonas mais interiores de Portugal, considerado até uma salvaguarda na época da pandemia para muitos alojamentos. O senão é o aumento do custo de vida devido à vantagem salarial de muitos que nos visitam. Para combater esta desigualdade, já se começa a instruir a comunidade para a prática ética da sua profissão, através da contribuição para projetos, envolvendo locais.
Há aqueles que, de ano para ano, arrumam as suas trouxas numa mala de 15 kg e rumam para uma nova cidade, uma nova ilha. Chegam, mas dizem sempre adeus: uma pedra rolante não cria musgo, como diz a expressão. Mas com ela discordo. São os enfermeiros, médicos, professores e outros funcionários públicos, normalmente, nos inícios de sua carreira, a qual pode prolongar-se por 20 anos. São também os militares transferidos de base para base. São especialistas na organização de malas e procura de casa, merecedores de diplomas como agentes imobiliários. Há relatos de professores que dormem em tendas por não conseguirem arrendar casa ao nível do salário recebido. Tornam-se resilientes ou nunca se habituam. Tanto investimento nos estudos para uma vida itinerante, sem teto, sem poder projetar a longo prazo. A curiosidade, energia, observação e humildade são dicas para uma adequada adaptabilidade, pois, nestes casos, ao contrário dos digitais, estes nómadas incutidos têm de relacionar-se com os cidadãos locais. É comum servirem-se do lema: em terras de César, faz como César. Não é uma lavagem ao cérebro, só nós sabemos onde pertencemos, mas é a simplicidade que se exige e o acostumar-se depressa. Abraçar o novo e fundir-se com ele, rápido e o mais brevemente possível, pois, amanhã, já se trabalha: nova escola, novos funcionários, novos colegas, novos alunos, novos percursos, novos postos.
Depois há os que viajam incessantemente. Aqui anexam-se os empreendedores, vendedores que necessitam de lançar e consolidar os seus negócios. São também os pilotos, hospedeiros de bordo, biólogos, atletas, guias turísticos, profissionais de diversas áreas artísticas, como: músicos, bailarinos, atores. Quanto a estes últimos, é reconhecido o seu trabalho na célebre série Rabo de Peixe, vila piscatória do município da Ribeira Grande, com 16,98 km² de área e 8799 habitantes, ilha de S. Miguel, Açores. Sabe-se que alguns atores deslocaram-se até à referida localidade e com ela conviveram e viveram. Qualquer falta de acuidade no desempenho poderia ter resvalado todo o sucesso desta relíquia cinematográfica se os atores não tivessem tido o bom senso de aprenderem, observando e conhecendo os de cá, traços, gestos, vocabulário semelhantes às personagens que iriam interpretar.
Já os trabalhadores remotos, espécie de profissionais já existente, mas que se intensificaram com a pandemia COVID-19 e confinamento. Realizam as suas atividades profissionais fora do escritório tradicional, utilizando tecnologia para se conectar e colaborar com a equipa de trabalho. Têm flexibilidade de horário ou são controlados por determinados softwares. Podem trabalhar de casa, cafés, espaços de coworking ou qualquer lugar com acesso à internet. Apesar de poderem viver confinados e fechados, sem ver a luz do sol, durante o dia inteiro, há os que viajam e trabalham da China para Portugal e, como aconteceu, há 2 anos, moveram-se para as ilhas e trabalhavam destas para as suas sucursais, em Nova Iorque, por exemplo, procurando fugir do caos instalado, em busca da segurança do isolamento proporcionado pelas ilhas. O único senão é que, por vezes, pode ser solitário e até um trabalho pouco reconhecido, devido à imaterialização do colaborador, isto é, o trabalho vê-se, mas o trabalhador não e nunca há horas para acabar, o que pode resultar em workaholics, pessoas viciadas em trabalho, que têm uma obsessão excessiva pela sua carreira e dedicam a maior parte do tempo e energia ao trabalho, muitas vezes, em detrimento da saúde, relacionamentos e equilíbrio pessoal. Entre tantos, podem ser programadores, designers, escritores, freelancers de diversas áreas, como mentores, psicólogos, assistentes virtuais, explicadores, etc.
Independentemente da natureza específica do trabalho remoto, seja como um nómada digital, viajante constante ou alguém que se muda anualmente, esses trabalhadores necessitam de ter uma mentalidade nómada. Eles devem estar dispostos a abraçar a mudança, a adaptar-se rapidamente a novos ambientes e a cultivar uma sensação de liberdade e aventura nas suas vidas profissionais. Ter uma alma nómada significa estar aberto a experiências, ser resiliente e sentir-se em casa onde quer que esteja, enquanto explora novos horizontes.
Há, contudo, uma distinção entre a mentalidade nómada e a alma de nómada. Uma é adotada ou desenvolvida ao longo do tempo, enquanto a outra é mais intrínseco, uma característica que parece estar presente desde o nascimento ou ser parte essencial da identidade de alguém, como uma inquietude de explorar o mundo. A alma nómada é uma qualidade mais profunda e arraigada, que se manifesta cedo, como se o corpo infantil escondesse uma alma insatisfeita, destinada a encontrar o seu propósito, noutro lugar, além de onde nasceu, na verdade, um centro de conexão. Alguns descobrem a terra prometida; outros andam uma vida para voltarem e apreciarem, ainda mais, as suas raízes, a terra natal. Qual o ilhéu que não tem um vínculo emocional profundo à sua ilha? A ilha reclama sempre os corações dos que nasceram seus.
Mesmo em constante movimento, alguns nómadas encontram o seu verdadeiro lugar num grupo de pessoas ou numa pessoa que se torna a sua âncora. No fundo, a alma nómada encontra-se em muitos de nós, é um desejo humano inato como o do Infante Dom Henrique, o navegador. Embora enfrentem desafios, as recompensas dessas escolhas podem ser inúmeras. Do inconformismo do infante nasceu a globalização, a ampliação de horizontes, do desenvolvimento da navegação e expansão marítima portuguesa. 500 anos depois o nosso desejo é navegar até Marte. Na verdade, enlevados de uma curiosidade imensa, procuramos conexões significativas, diversas, originais, diferentes, encontrar várias liberdades e modos de vida. Para aqueles que nascem com tal chama, a jornada pode ser uma aventura de proporções inimagináveis.
Canto da Maia, Carlos Machado e Natália Correia, Nuno Bettencourt são exemplos de almas nómadas que não só voltaram como revolucionaram.
Pode encontrar-me no Instagram, em: @lidiamenesesdesign