
Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo no ano de 1976, onde viveu até 2004, mas sem nunca perder a ligação à terra de origem. Atualmente vive na Ribeira Grande com a esposa e o filho. Toda a família e ascendentes são de Vila Franca do Campo.
Viveu uma infância normal, sem luxos, no berço de uma família humilde. Enquanto criança, passou muito tempo com os amigos, em particular no cais do Tagarete, mantendo sempre uma estreita ligação à igreja, inicialmente como acólito.
Filho de pai pescador e uma de família ligada ao mar, viu o pai mudar de vida quando passou a motorista marítimo, mas sem perder o ‘chão’ de água. A mãe, doméstica, tratava das lides da casa.
É o filho mais velho de três – irmão de Raquel e José Mário – e o seu percurso académico começou na então Escola Primária de Vila Franca do Campo (atualmente EB1/JI Prof. António dos Santos Botelho), Escola Preparatória de Vila Franca do Campo (agora designada de EB/S Armando Cortês-Rodrigues), Escola Secundária Antero de Quental e, mais tarde, Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (atualmente Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores).
Nesta entrevista, fala da fé, da romaria, do ser romeiro, do ser enfermeiro e de como a ciência e a fé se podem complementar na salvação de pessoas.

DL: Quando decidiu ser enfermeiro?
O meu ensino secundário, por vários fatores, não foi totalmente linear. Alguns sobressaltos, dúvidas talvez típicas da idade. Nunca fui um “aluno de excelência”, mas tinha consciência que sempre dei o meu melhor. Em 1997 fiz exames nacionais e iniciei o curso de enfermagem nesse mesmo ano, ainda como curso de bacharelato terminando em 2000, mas tivemos oportunidade de fazer de imediato o ano complementar de formação em enfermagem que terminou em 2001 dando-nos a equivalência a licenciatura. Nesta altura já enfermeiros formados há vários anos já estavam a regressar aos bancos da universidade para obterem a mesma equivalência. Foi uma mais-valia ter-nos sido dada essa oportunidade.
DL: Foi algo que já queria ou foi uma oportunidade de carreira/estabilidade?
Um misto de ambas. Talvez tenha descoberto essa apetência bem tarde ou, se calhar, até foi no momento certo, será sempre uma incógnita, mas não me arrependo de nada e tenho a certeza que faço-o com rigor e dedicação. Não gosto de falar do termo “vocação”, acho demasiado forte e não acho que se adeque por completo a esta profissão. É, acima de tudo, necessário o saber, saber estar e saber ser. Na altura era uma profissão com muita saída e colocação garantida. Também foi uma oportunidade de estabilidade de carreira e rapidamente (em menos de um ano) entrei para os quadros do HDES.
DL: Sempre trabalhou na mesma área ou tem vindo a mudar de área?
Desde que comecei a exercer atividade profissional foi sempre nesta área e na mesma instituição, o HDES.

DL: Ser romeiro foi uma decisão repentina ou já tinha outros familiares romeiros na família que o foram “puxando” para a romaria?
A pergunta foi muito bem colocada: desde quando és romeiro e não desde quando vais de romeiro. São duas perspetivas completamente diferentes porque a romaria é uma vivência para a vida e não só aqueles oito dias. Acaba por ser uma conduta e não um mero rito anual de penitência. Até podemos questionar o porquê deste penitenciar nos dias de hoje, mas não é uma procura de sacrifício desmedido porque, acima de tudo, quer-se misericórdia e não sacrifícios. Acaba também por ser um “peso” e responsabilidade porque somos logo apontados ao mínimo deslize no dia a dia. Não participamos numa romaria por sermos “santos e exemplo” (nunca haveria romarias assim), vamos na mesma por termos um propósito e um chamamento. Obviamente que há, infelizmente, quem se desvie do que é fazer e estar numa romaria.
Nunca tive familiares próximos que fossem romeiros na altura em que comecei. Fiz a minha primeira romaria em 2006 e desde então nunca mais deixei a mesma. Só me arrependo de não ter começado mais cedo. No entanto, tal não foi possível por múltiplos fatores, especialmente os estudos. Vila Franca do Campo só retomou as romarias no ano de 2000 depois de um grande interregno desde 1979 e, em boa hora, voltaram nas pessoas dos irmãos Carlos Saêta, José Pimentel e Hermínio Sousa, ficando depois entregue ao nosso atual mestre, irmão Carlos Vieira, e melhor entregue não poderia ficar.
Sempre gostei de ver os ranchos de romeiros, sempre tive a minha ligação à igreja e aos seus movimentos, como acólito, escuteiro e no Grupo de Jovens Vicentinos, mas nunca surgira oportunidade de o concretizar. Depois de ler o livro “Diário de uma Romaria”, de 2005, do irmão mestre Carlos Vieira, foi o incentivo que faltava. Não me sentia necessariamente afastado da igreja nessa altura, mas faltava algo e a romaria foi o que faltava.
Lembro-me perfeitamente da minha primeira romaria. A minha primeira pernoita de sempre na Fajã de Cima foi mesmo um testar das forças e de força de vontade, não pela família que nos recebeu que foi de um carinho formidável, mas por outros fatores desde água fria e eu, por respeito e ainda acanhado e novato, tive vergonha de dizer, desde barulho de vizinhos…dormi pouco ou mesmo nada. Na madrugada seguinte, no Alto da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, só me apetecia vomitar. Não estava fisicamente bem e questionei mesmo o que eu fazia ali. Foi o primeiro e único momento desde que sou romeiro que essa “tentação” de sair da romaria me passou pela cabeça. Não estava mesmo bem. Mas os irmãos mais experientes foram sempre me incentivando. A refeição na paragem na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição foi o volte-face. Desde então que não consigo imaginar um ano sem ter essa semana de isolamento e introspeção. Sei bem ao que me vou sujeitar, ao desconforto, à dor, a poucas horas de sono, a dias que podem ser mesmo violentos. Sim, dependendo de várias circunstâncias, uma romaria pode mesmo ser violenta física e psicologicamente. Os três anos de interregno devido à pandemia não foram fáceis de lidar.
DL: Sendo um homem da medicina, onde por vezes se operam verdadeiros milagres que salvam pessoas, até onde vai a medicina e onde começa a fé/devoção das pessoas?
Numa das reuniões de preparação da romaria falamos precisamente disso, do equilíbrio entre a fé e a ciência. Faz-se a comparação com as duas asas de uma ave. A mesma só voa em segurança se as duas asas estiverem bem. Uma asa é a razão (a ciência) e a outra é a fé (Deus). É perfeitamente possível esse equilíbrio desde que vejamos esse equilíbrio na base da complementaridade e não do conflito. São duas formas complementares de se buscar a verdade. O próprio Einstein via a ciência e a racionalidade do universo como evidência no limite de algo superior, de uma inteligência criadora. Várias pessoas ligadas à igreja foram também cientistas como Georges Lemaître, sacerdote, que desenvolveu a teoria do Big Bang, do átomo primordial. A ciência explica como aconteceu e a fé o porquê de acontecer. A ciência não tem de anular a fé, nem vice-versa. Na nossa civilização ocidental, se é que é permitido usar esta expressão sem que me atirem sete pedras, a criação de universidades cristãs são o exemplo de como a fé cristã pode fomentar o conhecimento e desenvolvimento científico. A meditação também é vista como ciência da mente.
Entendo que consegui uma formação catequética e católica lúcida no sentido de entender que há espaço para a fé e a ciência conviverem e complementarem-se uma à outra. Efetivamente, já fui questionado nesse sentido, não necessariamente apenas relacionado com a profissão que exerço, mas porque há uma correlação muitas vezes errada com o grau de ensino e a crença numa religião, credo ou fé. Uma não invalida a outra, mas é certo que me baseio no dia-a-dia na evidência científica no exercício da minha profissão.

DL: Já teve algum paciente que pensou que poderia não sobreviver e, sem que nada aparente o pudesse justificar, recuperou-se?
Sim, várias vezes. Cada pessoa tem mecanismos fisiológicos ou condicionantes provocados por doença que originam diferentes formas de adaptação à alteração do seu estado normal de saúde como situações de traumatismo grave, por exemplo, em especial das células nervosas. Neste preciso momento em que partilhamos estas ideias acredito que está a acontecer uma situação destas num caso extremamente delicado e instável.
Mas voltando ao tal equilíbrio necessário entre a fé e a ciência, a primeira também pode influenciar decisões relacionadas com o prolongamento de medidas de suporte artificial de vida ou até mesmo interrupção da mesma em casos extremos. Há sempre a questão de tratamentos ou prolongamento dos mesmo que se transformam em autêntica distanásia. A dignidade até no morrer está acima de tudo, e um morrer sem dor acima de tudo. É lícito usarmos a fé para manter medidas desproporcionadas ao doente que até podem atentar à dignidade humana? É o tal equilíbrio que é necessário.

DL: A fé salva pessoas?
Sendo católico não posso excluir isso, mas como disse anteriormente, no dia-a-dia, baseio-me na evidência científica no exercício da minha profissão. A fé, numa vertente catequética também é falada nas nossas reuniões de preparação. É o acreditar sem ver. É um dom gratuito da graça de Deus e não o resultado de obras humanas, a tal dicotomia entre a ciência como evidência e a “falta” da evidência que é a fé, o acreditar sem ver. Mas a fé também pode ser intelectual, não tem necessariamente de estar ligada a uma crença ou religião, mas também a uma filosofia de vida, por exemplo. A mesma promove a ligação a algo maior que não se vê, o tal acreditar sem ver. Pode trazer paz e conforto em momentos difíceis, de forma alguma está descartado que a fé não desempenhe o seu papel na recuperação de uma doença, nem que seja no conforto e esperança.
Este é um facto real. Um Cavaleiro da Ordem de Santiago de Compostela, residente em Ponta Delgada, em 2013 confiou fervorosamente a oração ao nosso rancho por um bisneto que tinha nascido com várias complicações. Os médicos tinham muitas reservas sobre a sobrevivência do mesmo. Na romaria de 2014 esta intenção foi rezada fervorosamente, assim como todas as outras, e a verdade é que o menino é hoje uma criança saudável. O seu bisavô testemunhou esta vivência à Ordem. A mesma atribuiu a Medalha de Ouro da Ordem ao Rancho de Vila Franca do Campo. Terá sido só a medicina? A oração e a fé? Ambas juntas? Dá que pensar estas e muitas outras situações. Como já foi dito numa romaria “busca-se também aqui o que a Ciência não resolve!”
Outra situação que também dá que pensar. Na igreja da Senhora do Rosário na Povoação há uma imagem invocada como Senhora do Ó ou Senhora do Parto. Invocada para que a futura mãe tenha uma “hora pequenina” (parto sem dificuldade) ou por quem não consegue engravidar. Duas situações ocorreram em que após anos a tentar engravidar, mesmo com o auxílio de medicação tal não aconteceu e após o pedido de oração do nosso rancho à mesma imagem no ano seguinte estava-se a agradecer a concretização do pedido de oração. Inclusivamente este ano uma das mães levou a sua menina à igreja acompanhando-nos na oração.
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