
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
Quando se constrói uma casa, ninguém espera ver o engenheiro civil em cima do andaime a assentar tijolos. O engenheiro projeta, calcula, escolhe materiais, supervisiona; o assentamento do tijolo é feito pelo pedreiro. Ninguém em sã consciência diria que o engenheiro é menos engenheiro por não pegar na colher. A divisão é tão antiga quanto a própria engenharia: há quem conceba e há quem execute, e ambas as funções têm valor próprio.
Por alguma razão, na engenharia informática esta separação nunca foi clara. Durante décadas, o programador foi simultaneamente arquiteto, engenheiro e pedreiro: pensava o sistema, desenhava a solução e depois escrevia, linha a linha, cada tijolo de código que sustenta a aplicação. A competência era frequentemente medida pela velocidade e elegância com que se conseguia produzir esse código manualmente, ao ponto de muitos confundirem o ato de escrever código com a engenharia em si.
Com a chegada da inteligência artificial generativa, esta confusão tornou-se evidente. Segundo o Stack Overflow Developer Survey 2025, 84% dos programadores já utilizam ou planeiam utilizar IA, contra 76% no ano anterior, e 51% dos profissionais usam estas ferramentas diariamente. Estudos da GitHub com a Accenture mostram tarefas concluídas até 55% mais depressa, e o Copilot já gera, em média, 46% do código escrito pelos seus utilizadores. Ao mesmo tempo, apenas 29% dos programadores confiam na precisão dos resultados, contra 40% no ano anterior, e 45% consideram que depurar código gerado por IA demora mais do que escrevê-lo de raiz. Estes números, lidos em conjunto, dizem-nos exatamente o que devem dizer: a IA é hoje incontornável na produção, mas insuficiente sem alguém que a saiba conduzir. Ou seja, a IA não substitui o engenheiro, exige-o.
Nada disto, convém dizer, é novo na profissão. Nenhuma engenharia está tão sujeita à mudança como a informática. Aquilo que aprendi na universidade há quinze anos praticamente já não tem expressão no mercado, e boa parte do que aprendi há cinco já é obsoleto. Linguagens, frameworks e paradigmas inteiros foram substituídos várias vezes ao longo de uma única carreira. Um engenheiro civil que se formou em 1995 continua, no essencial, a aplicar os mesmos princípios estruturais que aprendeu; um engenheiro informático da mesma geração teve, ao longo da carreira, de se reinventar três ou quatro vezes. A IA é apenas a expressão mais recente, mais visível e mais comentada dessa mudança permanente, com a particularidade de transformar não apenas as tecnologias, mas a própria forma de trabalhar. Quem se queixa da IA hoje seria, há quinze anos, o mesmo a queixar-se dos IDEs com autocompletar, e há trinta dos compiladores de alto nível. A engenharia informática é, por natureza, uma profissão de reinvenção contínua, e quem entra nela sem essa disposição entra na profissão errada.
Há, contudo, uma dimensão desta transformação que merece destaque próprio: a IA permite hoje que praticamente qualquer pessoa, sem formação técnica, produza uma aplicação funcional. Basta descrever em linguagem corrente o que se quer, e a máquina entrega código que, na maior parte dos casos, funciona. À primeira vista, isto parece o fim da engenharia informática. Na realidade, é a sua melhor demonstração. Há um velho ditado entre engenheiros segundo o qual qualquer pessoa consegue construir uma ponte que se aguenta em pé, mas é preciso um engenheiro para construir uma ponte que mal se aguenta em pé, ou seja, com o mínimo de material, o mínimo de custo e a máxima eficiência. O mesmo se aplica ao software. Qualquer pessoa consegue hoje pedir à IA uma aplicação que funcione; mas fazer uma aplicação que escale, que seja segura, que se mantenha ao longo do tempo, que não desperdice recursos e que sobreviva ao primeiro contacto com o mundo real continua a exigir um engenheiro. A IA não acabou com a engenharia; pelo contrário, tornou finalmente evidente onde ela sempre esteve.
O que está em causa, e merece discussão séria, não é se devemos ou não usar IA na programação, porque essa discussão já foi ultrapassada pelos factos. O que importa discutir é como se forma a próxima geração de engenheiros num contexto em que a parte mecânica do ofício deixou de ser o caminho natural de aprendizagem. Continuamos a ensinar nas universidades, durante anos, técnicas que a IA executa em segundos, e ao mesmo tempo subestimamos as competências verdadeiramente diferenciadoras, que são as de arquitetura, análise de sistemas e pensamento crítico sobre o que a máquina produz. O risco não é a IA substituir os programadores; o risco é formarmos uma geração que nunca aprendeu a ser engenheira, porque continuámos a treiná-la para ser pedreira numa altura em que os pedreiros já não são precisos.
A engenharia informática tem agora a oportunidade rara de fazer aquilo que outras engenharias fizeram há muito: separar a conceção da execução, e devolver à profissão o lugar que sempre lhe coube. Resta saber se temos a maturidade coletiva, dentro e fora da indústria, para aceitar que um engenheiro informático não é menos engenheiro por não escrever cada linha de código, da mesma forma que um engenheiro civil não é menos engenheiro por não assentar cada tijolo.
Comentários
Excelente analogia com resultados óbvios!