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Anda ouvir um caso

Teresa-Viveiros-educação-cultura-cronicas

Há não muito tempo atrás, e muitas vezes após o momento de reza em família, havia o hábito das gentes se juntarem para ouvir e contar “um caso”. Eram serões em que todos tinham lugar, para escutarem e/ou narrarem esta forma de literatura oral que, muitas vezes, se fazia acompanhar por outros afazeres, como o amarrar o milho, os trabalhos de costura, o fiar a lã, permitindo aligeirar as tarefas. Chegada a noite, sentavam-se todos num capacho, acendia-se o candeeiro a petróleo e, com a luz baixinha, dava-se início ao contar que podia ser na própria casa, na do vizinho, ou mesmo à porta da rua.

Movida pelo anseio de aprofundar este costume, andei de gravador na mão por cinco concelhos da ilha, com o propósito de conhecer alguns dos ditos “casos” e a sua envolvência.

Nem sempre a recolha foi fácil; tratando-se de memórias recuadas, estas vão perecendo com o tempo, havendo dificuldades no relato completo de um caso. Mas, se havia dificuldade em narrá-los na sua totalidade, esta era compensada com a memória viva do contexto em que surgiam, das personagens que lhe davam vida e de como tudo se iniciava.

O momento começava com o pedido por parte de alguém “Conta-me um caso”ou por iniciativa do contador “Anda ouvir um caso”, bastava que alguém “tivesse um caso na cabeça”. Nestes momentos, imperava a quietude e a escuta atenta para entrar no mundo do maravilhoso com expressões como “Era uma vez”, “Havia” e “Há muito tempo”. Quando o caso assentava em factos verídicos, as palavras de partida já eram distintas: iniciavam-se com “Naquele Tempo”, “A minha mãe contava”, “No tempo da minha criação”. O caso seguia com uma narrativa quase sempre improvisada, onde muitas vezes se dava continuidade à história com “Ô depois, ô depois e ô depois”.

Surgiam, então, casos de almas penadas, que podiam ser da terra e inofensivas, como o caso do poeta Virgílio Oliveira, que “mesmo depois de morrer, passeava pelas ruas da Achada com a sua malinha preta”, referiu Albertina Sousa, natural daquela freguesia. Outras almas vinham para amedrontar, não só os personagens da história, como também quem ouvia: “a gente ficava cheias de medo e ainda hoje sou medrosa dessas coisas”, como relatou Maria Martins, natural da Lagoa. Na oralidade destas invenções, entravam também as feiticeiras, as figuras encantadas e acontecia também alguns objetos e elementos serem humanizados, como era o caso do vento. Havia também aqueles casos mais jocosos, cheios de humor e que traziam alegria, sobretudo em noites de inverno chuvosas. O contador, hábil em arrancar gargalhadas “dizia aquilo com aquela alegria que a gente todos se ria, era casos de rir”, lembra-se Maria Moura, também da Lagoa. Nestes, satirizavam-se crenças, como a das almas penadas e pretendia-se, através do humor, cumprir uma função moralizadora.

Os casos eram contados sobretudo com a finalidade de entretenimento – para Maria Costa (do Nordeste) permitiam “a noite ficar mais curta” – e, não raras as vezes, tinham uma vertente educativa associada. Cumpriam a função de perpetuarem as memórias coletivas sociais e familiares, ao relatarem “casos” da terra e/ou de pessoas da família, eram guardadores de memórias orais, costumes, tradições e de códigos linguísticos.

Nem a todos cabia o papel do contador, era necessário ser detentor de determinadas caraterísticas. Normalmente, este era mais velho do que os ouvintes e era visto como uma pessoa sabedora. Mesmo em casos em que era analfabeto, tratava-se de alguém com sabedoria, experiência de vida, e sabia contar com vivacidade e eloquência. As palavras de Luís Valério, natural do Nordeste, permitem-nos aceder quer às qualidades do contador, quer à importância que os relatos tinham para quem os ouvia: “havia um vizinho que sabia inventar tão bem estórias. Era uma coisa formidável. A gente não conhecia nada, não sabia nada, e depois vinha aquele homem a contar aquelas estórias inventadas. Ele tinha muita graça”.

Esta forma de passar a noite, em tempos em que “não havia luz, não havia nada para a gente se entreter, era os casos, era as cartas”, deixa um sentimento saudosista em quem a vivenciou, sendo mencionado como “rico tempo” e “era uma folia”. E se passados largos anos da escuta destes casos, os sentimentos que estas memórias evocam são de ternura, saudade e alegria, aquando daqueles tempos, o sentimento não diferia. Havia quem gostasse tanto daqueles momentos, que pretendia alargar a sua duração. Faço uso das palavras de Maria Teixeira “quem ia contar os casos era uma tia, a gente gostava tanto daqueles casos que escondia-lhe o xaile para ela não se ir embora”.

A narrativa oral é das mais antigas formas de comunicação do Homem. Ao longo da nossa história assumiu um papel preponderante para a transmissão de saberes, de tradições, de formas de pensar e atuar, permitindo a continuidade dos traços culturais de diferentes povos. Sobretudo para quem vive num meio insular, as lendas, os contos e os “casos” assumem uma primordial importância para aceder à nossa identidade. A UNESCO “veio chamar a atenção que uma expressão do Património Cultural Imaterial é tão importante como um edifício histórico, procurando ultrapassar a ideia de menorização que, muitas vezes a dita «cultura popular» esteve sujeita no passado” (Carvalho, A. 2011: 164). O tempo passa, as memórias perdem-se, importa que nos preocupemos com o que guardam os antigos, como é usual referir, estes autênticos documentos vivos que abrigam uma parte importante do nosso património imaterial.

Teresa Vieiros

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