Quando se encontrava a visitar o campo de concentração Bergen Belsen, na Alemanha, Luís Sepúlveda, encontra gravado numa pedra a seguinte inscrição: “eu estive aqui e ninguém contará a minha história”. A obra As Rosas de Atacama, escrita pelo punho do autor, surge após este momento, e fruto de uma ânsia para escrever sobre os que caem no olvido, sobre aqueles cuja biografia não é narrada.
Fazemo-nos, também, das nossas leituras. Pelo que, ante o desafio de iniciar uma crónica mensal no Diário da Lagoa e inspirada pelo autor chileno, opto por escrever sobre histórias simples, de gentes desta terra que têm como premissa tornar este pedaço de pedra num local melhor. Não, sem antes, ressalvar que se tratam de singelos apontamentos e de, ancorando-me nas palavras de Florbela Espanca, referir ser difícil sondar as histórias das vidas simples.
Lembrar de vidas assim, é trazer à memória a imagem da Encarnação, mulher de baixa estatura e com setenta e quatro anos de vida. Vi-a há exactamente um ano atrás, numa tarde de Outono nas Sete Cidades. Calçava botas de cano e estava apetrechada com um carro de cantoneiro. De forma ininterrupta, durante quatro longas horas esteve a apanhar erva para as cabras. A pausa para o descanso não a fazia, dizia que tinha vindo a esta vida para trabalhar, para tratar do sustento dos seus. Ou do senhor que conheci na Bretanha que, nos seus momentos de ociosidade, faz moinhos de cana. Acabada a obra, coloca-os num miradouro, com o único intuito de trazer a música do vento aos transeuntes e de colocá-los à sua mercê, podendo levá-los consigo, sem necessidade de pedirem licenças.
As memórias afetivas levam-me até à Maria Mariana, mulher velhinha, de olhos sacarinos e com uma gargalhada maior do que o mundo. Durante alguns anos, morou perto de uma casa mortuária. Contam-me que sempre que o local se abria para receber quem se ausentava sem regresso, deslocava-se até lá para levar o que comer e beber, numa tentativa de ajudar a confortar a noite de dor dos familiares que lá estavam.
Falar de pessoas simples, evoca-me uma conversa com a Ana. Quando questionada por outro alguém sobre quem era o seu avô, respondeu com palavras de infinita doçura: “O meu avô não é ninguém, é só o meu avô”. O avô levava-a ao teatro e partilhava gostos musicais com a neta. Hoje a Ana é etnomusicóloga.
Recordo-me de pessoas de bem e com garra. Do padre Flores, homem simples e grande. Para além de cuidar da parte espiritual da comunidade, teve um importante papel social e educativo. Graças a um relevante trabalho de recolha, criou o núcleo museológico da Ribeira Chã. Do professor e inspirador José Melo, um homem de sonhos palpáveis, de grande saber. Construiu, com uma força de vontade excelsa, a Oficina-Museu das Capelas. Ambos deixaram-nos um legado cultural singular.
Da Anita que apesar de a vida lhe ter reservado bonanças, é aos marginalizados que se tem dedicado.
Vem-me à memória Leonardo Sousa que, movido pela crença de que não só a arte importa, como importa que seja democrática, tem realizado um trabalho de educação pela arte com jovens de vários estratos sociais. O corpo docente da Escola Básica Integrada Tavares Canário que abraça diariamente a pedagogia, desenvolvendo um trabalho impar na área das expressões artísticas e do envolvimento parental.
Recordo-me do grupo de voluntários que, semanalmente, saí do calor do lar para aconchegar o estômago dos sem-abrigo. Da Mariana que, no auge da sua mocidade, faz voluntariado em lares de terceira idade. De três crianças que, por altura do Natal, fazem objetos para vender, adquirindo alimentos com o dinheiro angariado para uma família carenciada. Estas crianças têm 10 anos.
Muitas vezes, não reza desta gente a história. Almeida Garret disse, a outros propósitos, que “esta terra é pequena, e a gente que nela vive também não é muito grande”. Esta ilha, de facto, é pequena, são apenas 747 km2. Mas, pessoas assim tornam-na maior.
Teresa Viveiros
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