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Conselho Municipal de Saúde da Lagoa analisa políticas locais e define prioridades estratégicas

Reunião presidida pela vereadora Graça Costa serviu para o balanço de projetos em curso, como o Cartão Lagoa + Saúde, e para o planeamento de futuras intervenções nas áreas do envelhecimento ativo e da saúde mental

© CM LAGOA

O auditório dos Paços do Concelho acolheu esta segunda-feira, 6 de abril, uma sessão do Conselho Municipal de Saúde da Lagoa, órgão que reuniu representantes de diversas instituições e entidades do setor para analisar a situação atual da saúde no concelho. De acordo com a nota de imprensa enviada pelo município, a reunião, conduzida pela vereadora com o pelouro da Saúde e Ação Social, Graça Costa, teve como objetivo central a partilha de contributos e a identificação de preocupações sociais e de saúde junto da comunidade local, visando a articulação de respostas entre os diversos parceiros.

No decorrer dos trabalhos, a vereadora Graça Costa apresentou um balanço das iniciativas municipais, estruturando a intervenção sob o mote “ontem, hoje e amanhã”. Foram destacados projetos como a Semana da Saúde, a atividade do Centro de Intervenção Social – TEAR e programas de apoio direto à população, nomeadamente o Cartão Lagoa + Saúde. O município aproveitou a ocasião para detalhar também as ações de prevenção da violência no namoro na adolescência, em vigor desde 2023, e as iniciativas de promoção do envelhecimento ativo, onde se inclui o projeto de estimulação cognitiva “A Avó Veio Trabalhar”.

No âmbito da promoção de estilos de vida saudáveis, a autarquia reportou o investimento na criação de zonas pedonais e a descentralização de aulas de grupo através do programa “Saúde em Movimento”, além do apoio prestado a coletividades desportivas. Foi igualmente sublinhada a participação da Lagoa na Rede Portuguesa de Municípios Saudáveis, que pressupõe o compromisso de adoção de políticas locais de saúde e a elaboração de um plano de desenvolvimento específico para esta área.

Relativamente às metas futuras, a vereadora Graça Costa explicou que a autarquia pretende focar o próximo plano de desenvolvimento na prevenção primária. “A Câmara Municipal pretende, com o plano de desenvolvimento em saúde, dar ênfase ao envelhecimento ativo e à promoção da saúde mental como medida principal de prevenção primária de várias problemáticas como comportamentos antissociais, disruptivos, toxicodependência”, afirmou a responsável.

Uma década de Serotonina

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Uma década é muito tempo, são dez anos, mas uma década de serotonina pode parecer tempo a mais na vida de um jovem – na verdade, é o tempo necessário.

Nem por acaso, há uma década que operacionalizo a minha vida pessoal, e profissional, através de ajuda clínica especializada, ajuda que é principalmente para alguém que, devido a problemas de saúde diversos, permanece numa demanda – muitas vezes, bastante solitária – de mudar de vida.

Se não mudarmos de vida, a vida muda-nos. Então, toda a ajuda é bem-vinda

Quando fiz 18 anos, em 2016, devido a vicissitudes várias na vida, comecei a ser seguido clinicamente, e, mais tarde, por outro clínico, com quem estou desde 2018, devido sobretudo à prevalência de problemas ligados à ansiedade bastante desregulada, a episódios recorrentes de depressão, bastante cíclicos e incapacitantes, entre outros fatores que se devem, entre outras causas diversas, a um défice meu na produção do neurotransmissor essencial para a regulação do humor, do sono, do apetite e da digestão, e que pode ter um impacto significativo na saúde física e também mental – a Serotonina.

A falta de Serotonina, ou a sua redução, está intimamente ligado a problemas de saúde mental adjacentes, como: depressão, ansiedade, transtono obsessivo-compulsivo; transtorno de pânico; problemas no sono ou dificuldades digestivas.

Devido a essa “falta” permanente, a esse défice natural, comecei a tomar vários medicamentos, que me compensaram essa lacuna, entre outras – uns mais grandes e mais potentes do que outros, inclusive, e que tornaram, gradualmente, uma pessoa mais saudável mentalmente, mais operacionalizável, mas que, outrora sem peso a mais, ganhou um aumento abrupto de peso e excesso de problemas de saúde física, devido ao seu peso, até atingir mesmo a Obesidade (grau I).

Embora a minha saúde mental tenha melhorado imenso – e até estabilizado de forma positiva -, o que tenho é, contudo, crónico – a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), esta resultante por exemplo de um défice de serotonina. É algo que, na minha vida, tem sido recorrente e só tem sido efetivamente controlado, mas não definitivamente curado.

Hoje, 10 anos depois, com 28 anos, assinalo 10 anos de ajuda mental, de acompanhamento clínico especializado – de uma acompanhamento que, na verdade, acompanha tanta gente por esse país, que não se reconhece ou que se reconhece como precisando de ajuda.

Um conselho que dou a quem, como eu, tem algo crónico, para a vida, e que provavelmente precisará de alguma medicação, é este: faz por ti, cuida de ti, ajuda-te muito, quando sentires que precisas dessa ajuda tua, também.

Todavia, nem tudo é por via de medicamentos solucionável, apenas, embora ajudem. Uma coisa que a experiência, e a prática, me ensinou é que podemos regular os níveis de serotonina também fazendo exercício físico regular; atividades ao ar livre e com luz natural; controlando o stress; e comendo, por exemplo, alimentos ricos em triptofano.

Uma reflexão pessoal que deixo a todos os leitores: apenas há 1 mês, em dez anos inteiros de tratamento, é que comecei a trabalhar, realmente com vontade e afinco, na regulação da minha serotonina, não apenas por via medicamentosa, que já o faço há dez anos, mas por via também natural, ou seja, recomecei, de forma permanente, as caminhadas ou corridas ao ar livre, dois a três quilómetros por dia, bem como recomecei a comer de forma mais equilibrada e saudável.

Tudo leva o seu tempo a acontecer. E, agora, tento manter uma postura mais saudável, mais rica, menos dolorosa – também para mim, como para os outros que gostam de mim.

Tenho uma doença mental, e depois?!

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Gostava de falar um pouco da “nossa”, da “minha” POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva, reconhecida como nos indica o site do Serviço Nacional de Saúde, como “uma doença psiquiátrica que, como o próprio nome indica, se caracteriza pela presença de obsessões e/ou compulsões” e, sem ser nenhum especialista médico, mas como utente, unicamente, falo, na verdade, apenas como sou, estando acompanhado, por um especialista, há tempo suficiente para entender que isto não é, para ninguém, fácil.

De facto, a minha Perturbação realiza-se mais no campo das obsessões permanentes: são pensamentos repetitivos, impulsos ou imagens repetitivas, que me atormentam todos os dias, e que surgem de forma bastante intrusiva e independente da vontade da pessoa – da minha vontade –, provocando imensa ansiedade, sofrimento e mal-estar. Daí surge, no meu caso, a necessidade exaustiva de perguntar “se está tudo bem”, de verificar, com os outros, até à exaustão, se os ofendi, magoei, se estão bem ou mal (e isso pode levar-nos até às compulsões).

As minhas obsessões, confesso, são de várias naturezas específicas: são verificativas, intrusivas, com pensamentos ruminados constantemente que geram uma ansiedade aflita; à necessidade obsessiva de controlar o que está ao meu redor, e o que mais amo e estimo, protegendo até a um limite que muitos considerariam excessivo, agressivo e limitativo da sua liberdade.

Uma das minhas maiores consequências negativas de ter POC, nem por isso, é a de, definitivamente, ter perdido, justamente, pessoas muito importantes pelo caminho, estreito, da minha Felicidade, que se vá vazando aos poucos de Esperança; pessoas que, no nosso caminho, vão aparecendo, pessoas bonitas, que se afastam, porque julgam-me um caso perturbador da sua paz, da sua essência e da sua Liberdade embora seja perturbado todos os dias, na minha paz, por uma doença mental que, de facto, lhes pode afetar também, e bastante – como o Alzheimer, o Parkinson, a Esquizofrenia, e outras patologias, julgo, afetam não só os utentes, mas as pessoas ao seu redor.

As mudanças repentinas, e exaustivas, de humor, a falta constante, e persistente, de forças, de ânimo, as contradições, o cansaço e a desmotivação plena, em alguns dias, levar-nos-iam pela minha rotina – mental e física – diária: pensamentos intrusivos e tóxicos, misturados com desejos absortos e abstratos, difíceis de controlar; até às naturezas mais diversas das minhas obsessões e compulsões, que, ora aqui, ora acolá, me deixam só sozinho comigo mesmo na minha indefinição mais comum de todos os dias.

A solidão é, assim, uma constante. Porque as pessoas não estão prontas para essa conversa. Mas nem por isso lidamos de bem com a solidão que se traduz, essa, em isolamento. Repetimos a nós próprios que “isto vai passar”, mas nunca verdadeiramente passa – e, mudando de vida, as coisas levam-nos, volta e meia, ao ponto de partida – à “nossa” velha amiga, a doença mental.

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma doença mental, e depois?! As pessoas, como eu, não escolhem ter as doenças físicas ou mentais que têm; mas podem optar por fazerem as pazes com a sua doença, na sua aceitação e no tratamento correto, e rigoroso, que lhes compete.

Foi isso que eu fiz há bem pouco tempo, procurando, em primeiro lugar, ajuda especializada. Comecei, devagarinho, a aceitar os meus maiores erros, as minhas maiores falhas; aqueles que a minha doença originou, e que me levou a rejeitar, até com agressividade, aceitar, de ânimo leve, circunstâncias normais da vida: fins de relacionamentos, opções de vida, respostas negativas, são alguns exemplos.

A doença mental que me levou a ter, para com pessoas muito importantes na minha vida, comportamentos indesejados ou perigosos, em fase, que estava, de descontrolo, são hoje arrependimentos que, por causa de uma condição, se manifestam, hoje, na sua máxima potência; mas, na verdade, aprendi a caminhar, de pés descalços, sobre o vidro fino da minha saúde mental.

Aprendi que nenhum Caminho é definitivo, nem nós somos definitivos, e que nenhuma doença mental é incurável; porque tem cura. Como todas, a POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva –, associada a ansiedade e à depressão regulares, pode ser controlada: seja com fármacos, com psicoterapia, seja com a nossa vontade extrema de mudar. Essa vontade traduz-se em prática regular de exercício físico, uma alimentação boa e equilibrada, uma boa higiene do sono, meditação, para quem gosta, e vontade própria em ser diferente consigo mesmo, tratando-se melhor, e com os outros, seus mais próximos.

Fala-vos alguém que já está “aqui”, neste ponto de paragem, há muitos anos, e que toma vários medicamentos diariamente, pela sua saúde. Fala-vos alguém, agora, que vos diz: sim, é possível ter uma vida completamente normal com a “nossa” doença mental, viver com ela, e dormir com ela, aceitando como ela “é”.

A “nossa” doença mental não nos define, nem nos limita a sermos quem quisermos e a perseguirmos os nossos sonhos. A “nossa” doença mental não diz absolutamente nada sobre a nossa própria vontade de mudança, de sermos outros, da nossa essência. Retocada, limada, bem aceite, e fazendo as pazes com ela, no nosso coração, podemos até, depois de descer ao fundo do poço, crescer muito com ela ao nosso lado, ali, a “vigiar-nos” na sua influência constante: a nossa doença mental não é uma catástrofe ou uma condenação para toda a vida. E contra toda a resistência e opressão que a tua doença mental impõe, sê forte, admite, e o Tempo encarregar-se-á, devagarinho, de uma cura. Um passo de cada vez…