
O projeto para a instalação do Centro de Cuidados Renais no Tecnoparque da Lagoa, na ilha de São Miguel, foi formalmente dado como sem efeito pela autarquia lagoense. A decisão da Câmara Municipal surge após meses de silêncio por parte da empresa promotora, a Medifarma – José Horácio Rego Sousa, Lda., que havia solicitado um alargamento substancial dos prazos para o início da operação da unidade.
The Diário da Lagoa apurou que a candidatura da Medifarma ao programa municipal “Lagoa Investe” foi aprovada em dezembro de 2024, prevendo a ocupação do Lote 29 do parque tecnológico. No entanto, o processo entrou num impasse quando o promotor solicitou que a entrada em funcionamento fosse adiada. Segundo confirmou a autarquia, “o promotor apresentou o pedido de alargamento do prazo para início das obras de construção, até aos 3 anos a contar da data de assinatura do contrato e que o período para entrada em operação da unidade fosse alargado para os 6 anos”.
A Câmara Municipal de Lagoa recusou a pretensão em maio de 2025, invocando a salvaguarda do interesse público. Perante a ausência de resposta da empresa nos meses seguintes, a autarquia decidiu encerrar o processo, sendo que em “11 de novembro de 2025, [a Câmara] informou ao promotor que toma a ausência de resposta como perda de interesse por parte daquela Empresa, dando assim sem efeito a candidatura”, lê-se na resposta oficial enviada ao nosso jornal.
As suspeitas em torno deste investimento foram levantadas originalmente pelo Bloco de Esquerda (BE). O deputado António Lima denunciou que o projeto privado é promovido pelo irmão da presidente do Conselho de Administração do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), Paula Macedo. Para os bloquistas, a intenção de externalizar o serviço de hemodiálise do hospital público coincidia com o avanço deste centro privado e com a retirada das verbas para obras na unidade pública do Plano de Investimentos para 2026.
No parlamento açoriano, a maioria composta por PSD, CDS-PP e Chega rejeitou os requerimentos do BE para audições urgentes, o que o partido classificou como uma tentativa de “esconder as razões” da decisão. Questionada oficialmente sobre o projeto e as razões para o pedido de adiamento da obra, a empresa Medifarma não enviou qualquer resposta até ao momento. Por outro lado, a Direção Regional da Saúde tem reiterado que não existe uma decisão final sobre a privatização do setor, apesar de os registos municipais confirmarem a existência de um plano empresarial estruturado para a instalação da referida clínica.
Com o cancelamento do projeto do Centro de Cuidados Renais e a ausência de garantias de investimento na unidade pública do HDES, o modelo de prestação de cuidados aos doentes renais em São Miguel permanece sem uma definição clara por parte das autoridades regionais.