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Suplemento de Economia e Gestão e o Correio Económico

Gualter Furtado
Economista

A Faculdade de Economia e Gestão e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores promoveram recentemente, na UAc, uma conferência sobre “Os Desafios do Jornalismo”, que coincidiu com o encerramento da pós-graduação em Economia para os Media, justamente promovida pelas duas Faculdades em conjunto.

Como referiu, na ocasião da conferência, o Presidente da Faculdade de Economia e Gestão, o Prof. Doutor João Teixeira, esta pós-graduação foi destinada a jornalistas, tendo como objetivo fornecer conhecimentos e ferramentas que os ajudassem na sua profissão, quando tratam notícias e trabalhos relacionados com temas económicos. Tratou-se de uma iniciativa louvável, sobretudo numa Região em que os OCS se debatem com muitas carências, desafios e redações pequenas, impossibilitadas de contratar jornalistas especialistas, pelo custo que representam e, por vezes, pela sua inexistência no mercado.

A propósito desta iniciativa, recordo que o Departamento de Economia e Gestão da UAc, nos anos 80 do século passado, celebrou uma parceria com o Açoriano Oriental, que permitiu a realização de um conjunto de conferências sobre temas que, na altura, eram relevantes, como as Arroteias do Pico, Porto Oceânico da Praia da Vitória e a criação de Parques Industriais como instrumento de nascimento de empresas e aumento da produção industrial, eventos enquadrados nos 150 anos do jornal. Paralelamente, possibilitou a publicação de um Suplemento de Economia e Gestão, com a direção do então Presidente do Departamento de Economia e Gestão (DEG), o Professor Doutor José Manuel Monteiro da Silva, e sob a minha coordenação e execução, aliás, fui eu que em outubro de 1984 assinei o primeiro Editorial.

Esta parceria foi celebrada com o então Diretor do Açoriano Oriental, o Senhor Gustavo Moura. Os colaboradores deste suplemento eram docentes do DEG, e os temas tratados abordavam a política económica, o desenvolvimento económico, a gestão orçamental e financeira, a contabilidade, a fiscalidade, os transportes e as acessibilidades. Na gráfica do Açoriano Oriental, o saudoso Professor Andrade sempre nos ajudou na composição deste suplemento, que, na altura, foi pioneiro e representou uma abertura da Universidade à sociedade civil açoriana.

O suplemento terminou quando alguns de nós fomos trabalhar para o setor privado, e os colegas que continuaram na Universidade tiveram de dedicar mais tempo às suas carreiras universitárias, algumas desenvolvidas no estrangeiro, em programas de doutoramento. Este Suplemento de Economia e Gestão pode ser consultado na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (anos de 1984 e 1985), que tem depositados todos os jornais micaelenses.

Uma outra iniciativa na área do jornalismo económico, já neste século, foi o Correio Económico, um suplemento do Correio dos Açores. Este suplemento atingiu centenas de números, era publicado à sexta-feira, tinha como coordenadores o Dr. Luís Guilherme Pacheco e o Dr. Óscar Rocha e, como colaboradores regulares, muitos profissionais ligados à Universidade dos Açores, inclusivamente alguns que já tinham participado no Suplemento de Economia e Finanças. Contou também com muitos economistas e gestores sem ligação à Universidade dos Açores, mas com grande envolvimento na sociedade e economia dos Açores, o que possibilitava ao Correio Económico ter várias secções, que iam da consultoria até à informação sobre os negócios que se faziam nos Açores. Para além disso, promoveu várias iniciativas sobre a importância e o peso que alguns gestores tinham nas empresas e na própria economia açoriana. Foi, de facto, um marco importante no jornalismo económico dos Açores.

Finalmente, uma nota para referir que o jornalismo em geral nos Açores sempre teve uma grande expressão, sendo que alguns dos títulos publicados nos Açores são centenários, como o Açoriano Oriental, que ostenta no seu historial a designação de ser “o mais antigo jornal português”. Paralelamente, existe uma prática de publicação de dezenas de pequenos jornais de paróquias, Casas do Povo, associações cívicas e sociais, sindicatos, etc., verdadeiramente notável.

Não é por acaso que tivemos e temos jornalistas, nos jornais e na televisão, que ocuparam e ocupam cargos de direção a nível nacional, como são os casos de Mário Mesquita, Bettencourt Resendes, Padre António Rego e José Eduardo Moniz.

Futuro da agricultura em debate em colóquio sobre Acordo UE-Mercosul e Apoios Europeus

Iniciativa reúne, no Recinto da Feira em Santana, especialistas e eurodeputados para discutir o impacto dos novos cenários macroeconómicos no setor agrícola açoriano

Sessão de abertura será conduzida pelo presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita © CLIFE BOTELHO

A Associação Agrícola de São Miguel (AASM) promove na próxima sexta-feira, 6 de março, às 10h30, um colóquio dedicado ao tema “O Acordo UE-Mercosul e o Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034”. O evento, que terá lugar nas instalações da própria associação, situadas no Recinto da Feira, em Santana, na Ribeira Grande.

A sessão de abertura será conduzida pelo presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, e pelo secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura. O debate contará com as intervenções de Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Diniz, diretor do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), e dos deputados ao Parlamento Europeu, Paulo Nascimento Cabral e André Franqueira Rodrigues.

O encontro visa promover uma reflexão profunda sobre os desafios e impactos que o tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul poderá representar para a produção regional, analisando simultaneamente o desenho do novo Quadro Financeiro Plurianual para o período de 2028 a 2034.

Em nota enviada pela AASM, a associação destaca a importância estratégica deste evento para a comunidade agrícola local, convidando todos os interessados a participarem nesta sessão de esclarecimento e análise sobre o futuro dos apoios e da competitividade do setor.

Açores reforçam estratégia na BTL 2026 com crescimento de 97% nas receitas

Presidente do Governo regional destaca aposta na qualidade e no rendimento em vez do volume, numa edição que marca a maior presença empresarial da região na feira de Lisboa

© MIGUEL MACHADO

A participação dos Açores na 36.ª edição da Better Tourism Lisbon (BTL), que decorre de 25 de fevereiro a 1 de março na Feira Internacional de Lisboa (FIL), afirma-se como um pilar central na estratégia de valorização e promoção do destino. Segundo o Governo regional dos Açores, esta presença, promovida através da Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, visa consolidar a notoriedade do arquipélago nos mercados nacional e internacional, priorizando a natureza, a autenticidade e a sustentabilidade. O stand regional, localizado no pavilhão 1, apresenta este ano uma reconfiguração funcional e um reforço significativo na área de negócios, disponibilizando 40 módulos de contacto empresarial. Trata-se de um aumento de 10 postos face a edições anteriores.

O presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, presidiu à sessão oficial de abertura do espaço, sublinhando que a trajetória recente do turismo regional resulta de uma opção estratégica clara pela qualidade e pelo valor acrescentado. “Tivemos a capacidade de olhar estrategicamente para a economia de desenvolvimento não pelo valor quantitativo, mas sim pelo valor acrescentado e qualitativo. É por isso que estamos a atingir níveis de excelência, mas também de rendimento”, afirmou o governante. Conforme destacou, a região conseguiu elevar os seus níveis de rendimento de forma expressiva: o valor previsto em 2019, que se fixava nos 104 milhões de euros, atingiu agora os 206 milhões de euros, o que representa um crescimento de 97%. Este desempenho, segundo o executivo açoriano, é acompanhado por uma subida de 72% no RevPAR (receita por quarto disponível) e por um aumento de 40% no número de passageiros desembarcados, totalizando 2,3 milhões. Para o líder do executivo, estes indicadores demonstram que o setor é o motor da economia açoriana, tendo gerado 889 milhões de euros de riqueza em 2023. “Isto é obra. É motivador e é um orgulho este resultado”, assinalou.

Para além da vertente económica, o Governo regional aproveita a BTL 2026 para apresentar a versão atualizada do galardão MIOSOTIS AZORES, um selo que distingue boas práticas de sustentabilidade. A partir da tarde de sexta-feira e durante o fim de semana, o foco vira-se para o público em geral com a disponibilização de seis balcões de venda direta e o lançamento de pacotes turísticos exclusivos desenvolvidos pelos associados da Visit Azores.

Ao longo dos cinco dias do certame, os municípios açorianos mantêm uma presença ativa para promover a diversidade cultural e territorial de cada concelho, reforçando a coesão do arquipélago enquanto destino único e plural. José Manuel Bolieiro concluiu a sua intervenção com uma mensagem de resiliência, apelando à rejeição de discursos pessimistas perante variações pontuais. “É preciso abandonar o espírito pessimista dramático quando existem pequenas variações. Não estão a dar um contributo ao crescimento”, defendeu, reiterando que a região deve manter o foco na consolidação dos resultados alcançados.

Lagoa assume liderança nacional na renovação habitacional, mas enfrenta pressão nos preços

Município lidera a construção de casas novas em Portugal, mas o recorde de oferta é acompanhado por uma escalada de preços: no último triénio, a avaliação imobiliária disparou 23,4%

Lagoa já se tornou o segundo município mais caro da sua zona de influência em São Miguel © DL

O município da Lagoa, na ilha de São Miguel, destaca-se atualmente como o concelho português com a maior proporção de construção de casas novas face ao parque habitacional existente. O dado, sustentado por estatísticas da Pordata e do Instituto Nacional de Estatística (INE), revela um crescimento robusto entre 2022 e 2024, consolidando o território como um caso de estudo no dinamismo imobiliário regional e nacional. Entre 2021 e 2023, o concelho registou a conclusão de mais 143 habitações familiares em comparação com o triénio anterior, atingindo uma densidade de 117,2 alojamentos por km2.

Para o presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, os números são um sinal de vitalidade. “Estes indicadores confirmam a Lagoa como um concelho em crescimento, com uma oferta habitacional em expansão”, afirma o autarca em nota de imprensa enviada às redações, sublinhando que a estratégia local tem resultado num “mercado imobiliário dinâmico”. No entanto, por trás destes indicadores, os números revelam também desafios crescentes de acessibilidade. Embora a autarquia defenda que este cenário reforça a atratividade para famílias e investidores, a realidade dos preços sugere uma pressão inflacionista superior à dos seus vizinhos diretos.

Em 2024, o valor mediano da avaliação bancária na Lagoa atingiu os 1.291 euros por metro quadrado. Este indicador é fundamental para justificar o novo peso regional do concelho: apesar de estar abaixo da média nacional (1.662 euros), a Lagoa já se tornou o segundo município mais caro da sua zona de influência em São Miguel, superando o custo do imobiliário em concelhos vizinhos como a Ribeira Grande ou Vila Franca do Campo. Esta ascensão é explicada por uma subida acentuada de 23,4% nos valores de avaliação desde 2021, um ritmo que coloca o mercado local sob forte pressão.

A análise detalhada dos dados de transação expõe ainda o fosso entre o mercado de construção nova e o de casas usadas. Quem procura habitação nova no concelho enfrenta um preço mediano de 1.835 euros por metro quadrado, um valor substancialmente superior aos 1.248 euros pedidos pelas casas já existentes. Este diferencial de quase 50% indica que a nova oferta imobiliária está a entrar no mercado com preços que refletem um posicionamento de elite, distanciando-se progressivamente da realidade económica de muitas famílias locais.

Em suma, os dados confirmam que a Lagoa deixou de ser uma alternativa periférica para se tornar um motor de construção nova. Contudo, como refere o autarca lagoense, se por um lado a Lagoa é o “município com maior proporção de casas novas em relação às existentes”, o sucesso estatístico traz consigo o risco da gentrificação, uma vez que a valorização imobiliária em dois dígitos poderá, a curto prazo, comprometer a mesma acessibilidade que o município procura promover. Este risco é sustentado pelo fosso entre a valorização imobiliária e o poder de compra local: com os preços das casas novas a subirem num ritmo que ultrapassa largamente a evolução dos rendimentos médios nos Açores, a Lagoa enfrenta o desafio de evitar que a nova oferta residencial se torne exclusiva para segmentos de alto rendimento, alienando a população jovem e a classe média que o município pretende fixar.