Log in

Camões: “Em erros meus, má fortuna, amor ardente”, de Natália Correia

Rui Tavares de Faria
Professor e Investigador

Para a comemoração do 400.º aniversário da morte de Luís Vaz de Camões, o Teatro Nacional D. Maria II – que volta a abrir portas em 1978, renovado quase na íntegra, depois de ter estado encerrado desde 1964, por causa do incêndio que praticamente o destruiu – encomenda a Natália Correia uma peça teatral que celebre a vida e a obra do nosso Poeta maior. A autora açoriana aceita o desafio e escolhe para título do drama o primeiro verso de um bastante conhecido soneto de Camões: “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, no qual, dizem alguns hermeneutas da lírica camoniana, parece estar sintetizada, em linhas gerais, a vida do autor de Os Lusíadas.

Certo é que, embora certas questões tenham vindo a ser aclaradas relativamente aos dados biográficos de Luís Vaz de Camões, ainda persistem dúvidas quanto à cronologia daquele que cantou o amor em todos os tons e dimensões. Não há testemunhos explícitos que permitam biografar, com o rigor da atualidade, um dos nomes maiores da literatura portuguesa e, dada esta carência, vão sendo desenvolvidas extrapolações a partir da sua obra, vão sendo inventadas e reinventadas histórias acerca da sua vida e o mito sobre a figura de Camões vai ganhando forma. Tanto assim é que, ainda hoje, a ideia que se tem do Poeta apresenta feições fantasiosas, como se ele fosse um herói mítico, uma espécie de super-homem, que suporta, numa das mãos, a espada e na outra, a pena com que escreve a sua poesia.

Ora, a peça de Natália Correia, Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente, que acabou por ser levada à cena apenas em 1988, por questões orçamentais do estado no atinente à cultura (o problema de sempre!), é mais um exemplo de reescrita do(s) mito(s) que gravita(m) à volta da figura de Camões. Como afirma Armando Nascimento Rosa na introdução à recente edição da Obra dramática completa de Natália Correia, da chancela da Imprensa Nacional da Casa da Moeda, “Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente, no seu romântico recorte, parece partir de uma conceção de apoteose operática, que remete o espectador/leitor para um legado de feição wagneriana, no qual o poeta é leitmotiv mitocêntrico num espetáculo grandiloquente que o celebra” (2023, p. 129). Na verdade, conhecedora da obra do Poeta de quinhentos e do que, ao longo dos séculos, se foi escrevendo (e inventando) acerca da sua vida e da sua produção literária, Natália Correia recupera e recria o Camões pinga-amor, o Poeta de corte que canta e seduz damas e donzelas, o guerreiro que perde o olho direito no campo de batalha em defesa de Portugal, o errante que viaja pelo Oriente e regressa, velho, triste e miserável, à pátria lusitana para entregar a El-Rei Sebastião a sua obra maior.

Visto neste prisma, o retrato de Camões, tal como concebido no e pelo projeto nataliano, corresponde à imagem com que a tradição pintou o Poeta; não há novos elementos e, no universo da ficção dramática, a verdade histórica – exista ou não – pode não interessar ao artista. Assim sendo, segundo referem António Moniz e Olegário Paz, “transcendendo as intrigas palacianas (rivalidade com Pedro de Andrade Caminha) e as peripécias amorosas, a figura humana de Camões e a imortalidade do seu génio são as tónicas fundamentais desta obra dramática, difícil de classificar, na medida em que serpenteia entre a trivialidade e a jocosidade da comédia e a profundidade e a tensão humana dos grandes conflitos trágicos, tendo como base o percurso bibliográfico do próprio poeta e o contexto histórico e cultural em que viveu.” (In Ler para ser: percursos em português […], 1993, p. 135)

Mas Natália reserva-nos subtilmente outra intenção que subjaz à sua peça, porque “falar de Camões e do seu tempo significa também para ela falar, simbolicamente, do papel e do perfil humano do poeta na sociedade de hoje; isto é, falar de si mesma enquanto artista e cidadã interventiva” (Armando Nascimento Rosa, 2023, p. 125) e, neste sentido, Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente adquire outros contornos que revelam originalidade artística. Camões é, portanto, o paradigma. Tal como ele viveu infortúnios de ordem vária e acabou não sendo devidamente reconhecido em vida, assim sucede com muitos poetas de todos os tempos. Natália e os seus contemporâneos não são exceção. Através desta comparação, a dramaturga pensa conseguir transpor para a arte teatral a figura do Poeta, e não necessariamente o homem que foi Camões. Reinventando o que a tradição lhe oferece, Natália Correia presta uma homenagem à essência poética e artística da obra camoniana.

Assim, apesar de o retrato que pinta de Camões em Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente corresponder grosso modo à imagem que ainda hoje persiste da pessoa e da entidade do autor da epopeia nacional, a mensagem veiculada pela peça é a de que se deve enaltecer a figura do Poeta na sua essência artística. Tomado por paradigma, Camões merece – à semelhança de todos os discípulos de Orfeu – o reconhecimento de todos pelo seu talento e pelo que fez à pátria portuguesa, imortalizando-a por via da poesia e da epopeia Os Lusíadas. No fundo, Camões seguiu à letra a recomendação de Horácio, poeta latino do século I a.C., e “exegi[t] monumentum aere perennius” (“ergueu um monumento mais perene que o bronze”, o mesmo é dizer que edificou uma obra imortal).

avatar-custom

Rui Tavares de FariaProfessor e Investigador