
Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há momentos na política em que uma imagem diz tudo.
Um secretário regional, de fato e gravata, em cima de um cavalo, num cenário cuidadosamente preparado, perante uma plateia atenta. É uma imagem forte. Evoca tradição, identidade, ligação ao mundo rural.
Mas também expõe um contraste difícil de ignorar.
A coligação garante que a agricultura nunca esteve tão bem. Mostram gráficos. Dizem que “é só seguir a barra”. Uma posição confortável para quem defende o Governo e o seu partido, mas não defende o setor.
Porque enquanto a política se mostra montada, literal e simbolicamente, a agricultura vai ficando para trás, a suportar o peso de decisões que não chegam, de respostas que não aparecem e de custos que não param de subir, a cavalo é que vamos bem.
O gasóleo agrícola sobe de 1,27€ para 1,63€. Mais 36 cêntimos por litro. Um aumento abrupto, brutal, que atinge os agricultores no pior momento possível, quando estão no terreno, em plena época de sementeiras.
A Federação Agrícola dos Açores não teve dúvidas: é uma “subida escandalosa”.
E não está sozinha. Também a Associação de Jovens Agricultores Micaelenses veio a público alertar para o impacto devastador desta subida, sobretudo para quem está a começar.
Para muitos, isto não é apenas mais um aumento. É o ponto de rutura.
E tudo isto acontece num contexto já pressionado: fertilizantes caros, mercados instáveis, preço do leite ao produtor a descer.
E perante esta realidade, o que temos do Governo?
Justificações. Explicações. Transferência de responsabilidades. Bruxelas. A PAC. As regras europeias.
Mas nada disto é novo. É, aliás, o guião a que este Governo já nos habituou: quando os problemas apertam, este Governo não age, justifica-se.
E assim se vai governando à distância da realidade, e a cavalo é que vamos bem.
Durante os últimos anos, sempre que o preço do combustível subia, o PSD apressava-se a defender o Governo com dois argumentos: que, apesar de tudo, o gasóleo agrícola nos Açores continuava mais barato do que no continente (como se isso servisse de consolo quando a fatura chega) e que tinha sido eliminado o plafon, permitindo aos agricultores consumir sem limite.
Mas hoje, nenhuma destas “bandeiras” resiste à realidade.
O gasóleo agrícola é, pela primeira vez, mais caro do que no continente.
E o fim do plafon? De pouco serve quando o problema não é a quantidade que se pode usar, mas o preço que se tem de pagar.
E quando os argumentos desaparecem, mas os problemas ficam, a cavalo é que vamos bem.
Do lado da República, a resposta também não chega.
Devem aos agricultores dos Açores cerca de 23 milhões de euros de apoios que estavam previstos no âmbito da crise provocada pela guerra na Ucrânia, apoios que faziam falta ontem e fazem ainda mais falta hoje.
Diz o Ministro da Agricultura que esse apoio já veio. Que já foi pago.
Mas o que sabemos é que esse dinheiro não chegou aos agricultores como devia.
Ficou pelo caminho. Serviu para o Governo Regional tapar buracos, o mesmo Governo que desviou 14 milhões de euros da agricultura para outros setores da governação.
E, ao mesmo tempo, acumulam-se os problemas dentro de portas.
Atrasos no pagamento dos apoios regionais.
Prazos que não são cumpridos.
Milhões de euros por aprovar e executar no PEPAC.
Dinheiro que existe no papel e nos discursos, mas não chega aos agricultores.
Mas a cavalo é que vamos bem.
Entretanto, a inflação enche os cofres públicos.
Mais 25 a 30 milhões de euros em receita fiscal adicional.
E a pergunta impõe-se: vai o Governo continuar a arrecadar à custa da crise ou vai devolver esse esforço a quem produz?
Há dinheiro da inflação, mas não há decisão. Há discurso, mas não há resposta. Há presença, mas não há ação.
E voltamos ao início.
O cavalo. O fato. O cenário.
Sem dizer uma palavra, a imagem explica tudo: é o retrato de um momento.
Um setor em crise.
E quem governa… a cavalo.

A Vila de Água de Pau deu, este sábado, 2 de maio, um passo significativo na promoção do bem-estar físico com a inauguração oficial do seu Centro de Marcha e Corrida. O projeto, promovido pelo Clube Desportivo Escolar de Água de Pau (CDEAP) em estreita colaboração com a Câmara da Lagoa, surge integrado no Programa Nacional de Marcha e Corrida. A cerimónia de abertura contou com a presença do presidente da autarquia da Lagoa, Frederico Sousa, que destacou o papel fundamental destas infraestruturas no quotidiano dos lagoenses. Segundo os dados facultados pela autarquia em nota de imprensa, esta iniciativa visa dinamizar a comunidade local em torno de práticas desportivas salutares, contribuindo diretamente para uma melhoria na qualidade de vida dos munícipes através da caminhada e da corrida.
Durante a inauguração, Frederico Sousa reiterou a importância estratégica de descentralizar o acesso ao desporto, afirmando que estas iniciativas são cruciais no “aproximar da prática desportiva das comunidades, como forma de combate ao sedentarismo, através de uma abordagem acessível, orientada e sustentável”. O autarca reforçou que o apoio do município ao CDEAP neste projeto reflete o compromisso da edilidade com a saúde pública e com a criação de respostas de proximidade que incentivem a participação ativa dos cidadãos, independentemente da sua condição física inicial.
Para os interessados em aderir à modalidade, o Centro de Marcha e Corrida de Água de Pau já tem o seu plano de atividades definido. Os treinos decorrerão todas as terças e quintas-feiras, com ponto de encontro marcado para as 18h30 junto à sede da Junta de Freguesia de Água de Pau. As sessões contemplam percursos de dificuldade ajustada e, acima de tudo, garantem o acompanhamento técnico especializado, permitindo que tanto iniciantes como praticantes mais experientes possam usufruir da atividade com segurança.

A Federação das Associações de Pais e Encarregados de Educação dos Açores (FAPA) promove, entre os dias 29 e 31 de maio de 2026, o seu V Encontro regional no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O evento surge num contexto em que os indicadores educativos locais revelam desafios estruturais, como a taxa de abandono escolar precoce que ainda atinge 21,1% dos jovens açorianos, apesar dos progressos registados no ensino básico e secundário em 2025. A iniciativa pretende transformar o movimento associativo parental num catalisador de mudança, fortalecendo a parceria entre escola, família e poder local para fomentar trajetórias de sucesso educativo.
A programação tem início na sexta-feira, dia 29, às 21h00, com a sessão aberta à comunidade “Educar pela Positiva: missão (im)possível?”, dinamizada por Nuno Pinto Martins, formador certificado e fundador da Academia Educar pela Positiva. No sábado, o foco recai sobre a comunidade educativa com uma sessão de abertura que contará com a presença do presidente da FAPA, Pedro Tavares, da vice-presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Délia Melo, e da secretária regional da Educação, Cultura e Desporto, Sofia Ribeiro. Ao longo do dia 30, serão realizados debates e grupos de trabalho em formato world café sobre temas como literacia digital, mediação parental e o fortalecimento do movimento associativo, contando com a participação do diretor regional da Educação, Rui Espínola.
De acordo com a nota de imprensa da organização, os trabalhos de sábado resultarão na compilação de um “Guia de Ativação Parental”, que reunirá medidas concretas a propor à comunidade educativa. O encerramento do encontro acontece no domingo, dia 31 de maio, com a realização da primeira Assembleia Geral presencial da história da FAPA, agendada para as 09h30, onde será formalmente aprovado o documento resultante dos debates dos dias anteriores. O evento conta com o apoio de diversas entidades, incluindo o Governo dos Açores e a Câmara Municipal da Ribeira Grande.

No âmbito das celebrações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, assinalado a 3 de maio, o Governo regional dos Açores sublinhou a relevância do jornalismo profissional como pilar da democracia e da cidadania. Sob o lema da UNESCO para 2026, “Moldar um Futuro de Paz”, a tutela defendeu que a existência de órgãos de comunicação social independentes é essencial para enfrentar desafios atuais, como a manipulação de informação e a proliferação de notícias falsas.
Em nota enviada à redação, o secretário regional Paulo Estêvão apontou o novo Sistema de Incentivos aos Media Privados (SIM) como uma ferramenta central na estratégia do executivo. Segundo o governante, esta medida resultou num aumento do apoio financeiro destinado à capacitação, transição digital e sustentabilidade das empresas do setor, visando assegurar o pluralismo informativo perante a concorrência das grandes plataformas digitais e redes sociais.
O “Plano para os Media Açorianos” inclui ainda uma aposta na formação contínua, desenvolvida em parceria com o CENJOR e o Sindicato dos Jornalistas. Estão a ser promovidas ações de qualificação em áreas como a Inteligência Artificial, procurando preparar os profissionais das várias ilhas e da diáspora para as novas exigências tecnológicas. Além da vertente formativa, a tutela destacou o lançamento da revista “Açorianidade” como um instrumento para reforçar a ligação com as comunidades emigradas, numa fase em que a região se prepara também para acompanhar desenvolvimentos no setor aeroespacial em Santa Maria.

A Escola Básica e Integrada (EB1/JI) de Foros, na Ribeira Grande, assinalou ontem os 50 anos da Autonomia dos Açores com uma cerimónia pública que uniu a comunidade escolar e entidades locais em torno da identidade açoriana. O evento serviu de palco para a apresentação de projetos artísticos desenvolvidos pelos alunos ao longo do ano letivo, reforçando o papel da educação na preservação da cultura regional. A iniciativa contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande, Jaime Vieira, do presidente da Junta de Freguesia da Conceição, Pedro Pavão, e do Reverendo Padre Nelson Vieira, além de docentes e familiares.
Durante a cerimónia, a coordenadora da escola, Minerva Oliveira, sublinhou a ligação intrínseca entre o desenvolvimento político da região e o ensino. “Celebrar a Autonomia é também celebrar a Educação”, afirmou a docente, reiterando que este marco histórico simboliza “a capacitação para o crescimento integral das nossas crianças como futuros defensores da região”. Como prova deste compromisso pedagógico, foi inaugurado um painel em azulejos, criado pelos estudantes, que retrata elementos icónicos do arquipélago.
Um dos momentos altos da celebração foi a estreia da canção “Açores, terra querida”, com letra e música da autoria do professor de Expressão Musical, Rui Correia. A obra foi acompanhada por um videoclipe realizado pelo próprio docente e editado por Éric Correia, que culminou numa atuação coletiva dos alunos. De acordo com a nota de imprensa enviada pela organização do evento, o encerramento da sessão foi marcado pelo descerramento solene do painel, simbolizando a união entre a escola e a comunidade na promoção dos valores açorianos.

O Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vila Franca do Campo acolheu, no passado dia 29 de abril, a Assembleia Municipal Jovem, uma iniciativa organizada pela Assembleia Municipal em cooperação com a Câmara Municipal. O evento marcou um passo significativo na estratégia de proximidade entre as camadas mais jovens e a vida política e cívica local, permitindo que os alunos conhecessem de perto o funcionamento dos órgãos autárquicos. A sessão contou com a participação direta do presidente da Assembleia Municipal, Flávio Pacheco, e da presidente da Câmara Municipal, Graça Melo, que, acompanhada pelo seu executivo e pelos presidentes das seis juntas de freguesia do concelho, respondeu às questões e inquietações levantadas pelos jovens participantes.
Segundo a nota enviada pela autarquia de Vila Franca do Campo, o projeto visou incentivar a participação ativa, o espírito crítico e o sentido de responsabilidade dos estudantes. Para além da componente pedagógica sobre o sistema democrático, a dinâmica promoveu o desenvolvimento de competências essenciais como a argumentação, a escuta ativa e o respeito pela pluralidade de opiniões, elementos fundamentais para a formação de cidadãos conscientes e para o fortalecimento do futuro da comunidade vilafranquense.
O encontro contou com uma representatividade abrangente das instituições de ensino locais, incluindo alunos do segundo e terceiro ciclos e secundário da EBS Armando Côrtes-Rodrigues, estudantes do primeiro e segundo anos da Escola Profissional de Vila Franca do Campo e turmas do segundo e terceiro ciclo da EBI de Ponta Garça. Dado o sucesso desta edição, a organização já confirmou que a juventude voltará a ter voz ativa nos meses de outubro ou novembro, data prevista para a realização da segunda Assembleia Municipal Jovem deste ano.

Álvaro Borges
A guerra no Médio Oriente está a representar um choque histórico nos mercados derivados de matérias-primas. Em março de 2026, registou-se a maior perda na oferta de petróleo alguma vez registada, em cerca de 10 milhões de barris por dia. E parece que não ficará por aqui.
O encerramento do Estreito de Ormuz, combinado com o bloqueio naval pelos EUA, representa uma grande via marítima para a passagem dos navios petroleiros e de gás natural liquefeito, entre 35% e 20%, respetivamente, do comércio global.
O fracasso nas negociações, o risco do rompimento do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a manutenção da paralisação do Estreito de Ormuz, a escassez de matérias-primas e a dependência dos combustíveis fósseis lançam-nos a todos para uma incerteza nunca antes vista.
A recuperar da pandemia, a somar a isto a guerra na Ucrânia, ainda em curso, e o conflito no Médio Oriente levam-nos ao contágio da subida dos índices de preços dos fertilizantes, dos produtos alimentares, metais e minerais, gás natural, metais preciosos e matérias-primas agrícolas.
Este conflito turbulento, iniciado por Donald Trump e por Israel contra o Irão, teve duas consequências e factos indesmentíveis: primeiro, antes o líder supremo do Irão era Khamenei, agora está outro Khamenei; segundo, antes o Estreito de Ormuz estava aberto, agora está encerrado. Vislumbram-se aqui grandes vitórias para os EUA e para o seu aliado Israel, se não lançassem o mundo para um pântano de instabilidade, de choques dinâmicos nos mercados de matérias-primas que afetam as economias globais.
A inflação da Zona Euro, situada nos 3%, e a decisão do Banco Central Europeu de manter as taxas de juro inalteradas em 2% serão difíceis de sustentar na próxima reunião de governadores, caso se mantenha o atual choque geopolítico.
Se tal conflito não for sanado, nem houver estabilidade na região, os preços vão continuar a aumentar.
Como vão as famílias conseguir suportar todos estes custos? O aumento do cabaz alimentar, os preços dos combustíveis em flecha, o aumento do gás natural e as prestações bancárias, se se confirmar o aumento das taxas de juro do BCE na próxima reunião, levam o mundo a uma incerteza sem precedentes, causada por um punho de homens instalado em Telavive e Washington, que mergulhou o mundo num completo abismo sem fim, sem clareza, restando aos países lançar mão de políticas de intervenção na economia, desregulando a concorrência, ou proteger as famílias mais pobres.
Curioso é saber que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro pretende elevar o salário mínimo nacional para 1000€ até 2027. Não nos surpreende, pois, ao ritmo da situação atual, o custo do cabaz alimentar, o esforço económico e o poder de compra das famílias atingem níveis absurdos, em grande parte devido à política circense e irresponsável de Donald Trump.
* O texto teve por base o relatório “Commodity Markets Outlook”, de abril de 2026, da autoria do Banco Mundial

A Universidade dos Açores (UAc) promove, no próximo dia 13 de maio de 2026, entre as 08h30 e as 10h30, uma aula aberta dedicada à intervenção psicossocial com sobreviventes de violência doméstica e consumos de substâncias aditivas. O evento, que terá lugar no Anfiteatro D.007, em Ponta Delgada, assume-se como um momento de partilha de conhecimento internacional, contando com a participação de duas conceituadas académicas da Lakehead University, no Canadá.
Segundo nota de imprensa enviada pela instituição de ensino superior, a iniciativa é organizada no âmbito da unidade curricular de “Intervenção em Contextos de Exclusão”, lecionada pelo Professor Doutor Eduardo Marques, que será o moderador da sessão.
A presença das docentes Susan Scott e Angela Hovey permitirá uma análise comparativa e profunda sobre o funcionamento das casas de abrigo em Ontário, no Canadá, onde as estruturas de apoio a mulheres e crianças em situação de risco integram práticas inovadoras de redução de danos. A Prof.ª Doutora Susan Scott, especialista em Serviço Social com vasta experiência em políticas públicas, e a Prof.ª Doutora Angela Hovey, com percurso clínico focado em trauma e violência, apresentarão resultados de investigação que demonstram como estas estratégias podem diminuir as barreiras no acesso a serviços essenciais. O foco recairá sobre o “Quadro de Redução de Danos”, uma ferramenta que ajuda as instituições a criar ambientes mais seguros e inclusivos para sobreviventes que, simultaneamente, enfrentam desafios relacionados com o consumo de substâncias.
Para além da vertente técnica e clínica, a aula aberta abordará a interdependência entre o bem-estar humano e o meio envolvente, alinhando-se com os princípios do eco serviço social. De acordo com a organização, esta abordagem valoriza soluções sustentáveis e o impacto do ambiente no apoio a populações vulneráveis, uma reflexão que se torna particularmente relevante para a realidade açoriana e para os profissionais que atuam no terreno.
A sessão, que conta com a colaboração do projeto Trans-Lighthouses, é aberta não só a estudantes e investigadores, mas a toda a comunidade, convidando o público em geral a participar no debate sobre um tema de elevada sensibilidade e importância social.

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
Na semana passada, uma empresa norte-americana chamada PocketOS, que gere reservas e pagamentos para empresas de aluguer de viaturas, perdeu a sua base de dados de produção e todos os backups. Não foi um ataque informático, não foi uma falha de hardware, não foi um erro humano no sentido tradicional. Foi um agente de inteligência artificial, o Cursor a correr o modelo Claude Opus 4.6 da Anthropic, que durante uma tarefa rotineira no ambiente de testes encontrou uma incompatibilidade de credenciais e decidiu, por iniciativa própria, resolver o problema apagando o volume de dados na Railway, o fornecedor de infraestrutura. O processo demorou nove segundos. Quando confrontado com o que tinha feito, o agente respondeu, num tom quase de manual de boas práticas, que tinha violado todos os princípios que lhe tinham sido dados, que tinha adivinhado em vez de verificar, que tinha executado uma ação destrutiva sem ser pedida e que não tinha lido a documentação antes de correr o comando.
A história até tem final feliz, porque a Railway conseguiu recuperar uma cópia mais recente dos dados, mas o fundador da PocketOS, Jer Crane, esteve dois dias sem dormir a tentar reconstruir meses de informação a partir de um backup com três meses e de extratos de transações. E a frase que ficou foi a comparação que ele próprio fez: se pagamos por airbags no carro e eles não disparam porque afinal não existem, a culpa do acidente é nossa? A pergunta é incómoda porque toda a indústria de IA tem vendido salvaguardas, regras de segurança, configurações de proteção, modelos topo de gama com guardrails, e a verdade é que, no momento em que isto interessou, nada disso impediu que nove segundos de autonomia destruíssem o trabalho de meses.
O caso da PocketOS não é isolado, e não é sequer o mais ilustrativo da fragilidade destes sistemas. Em 2023, um utilizador conseguiu manipular o chatbot de um concessionário da Chevrolet. Bastou-lhe dizer ao sistema para aceitar qualquer proposta como legalmente vinculativa, e em seguida fazer uma oferta de um dólar por um carro. O chatbot aceitou e declarou a oferta vinculativa. Não há registo de o negócio se ter concretizado, mas isso é irrelevante. O episódio expõe um problema de fundo: estes sistemas não sabem quando estão a ser enganados. Um agente autónomo não tem instinto de desconfiança, tem apenas instruções, e não distingue entre ajudar e ser explorado. Interpreta indicações, não intenções, segue objetivos, mas não compreende o contexto. E isso torna-o vulnerável a qualquer pessoa que saiba falar a sua linguagem, no que podemos chamar uma nova categoria de burlões algorítmicos, que exploram não as fragilidades das pessoas mas as fragilidades dos próprios sistemas.
No ano passado, uma falha na AWS terá sido causada por uma ferramenta de programação assistida por IA que decidiu apagar e recriar o ambiente do zero. Houve o caso do agente OpenClaw que apagou a caixa de correio do diretor de segurança de IA da Meta. Há relatórios que indicam que menos de 30% dos projetos de infraestrutura de IA acabam por compensar o investimento. O denominador comum não é a tecnologia em si, é a forma como está a ser implementada: agentes autónomos com permissões alargadas, sem confirmação humana para operações destrutivas ou para decisões com consequências reais, integrados em sistemas de produção como se fossem programadores experientes em vez de estagiários muito rápidos.
Aqui chegamos ao que me parece ser o ponto central. As medidas existem. Os modelos têm instruções para não executar ações destrutivas sem confirmação. As plataformas oferecem tokens de API com permissões limitáveis. Existe documentação sobre como separar ambientes de teste e produção. Existem boas práticas de backup que recomendam armazenamento separado da fonte de dados. Existem normas, recomendações, frameworks e regulamentação europeia sobre IA que apontam exatamente para a necessidade de supervisão humana em decisões de alto risco. O problema não é a falta de medidas, é a sua aplicação. No caso da PocketOS, o agente teve acesso a uma chave de API com permissões globais que incluíam operações destrutivas em toda a infraestrutura, quando devia ter tido apenas acesso ao ambiente de testes. Os backups estavam guardados no mesmo sítio que os dados originais, contrariando uma regra básica que se aprende no primeiro dia em qualquer formação de sistemas. E não havia um humano no circuito para confirmar a operação antes de ser executada.
A pressa em substituir o humano pela máquina, ou em retirar o humano do circuito de decisão para ganhar eficiência, é o erro estrutural desta fase da adoção da IA. A própria Amazon admitiu recentemente que precisa de mais supervisão humana sobre o código gerado por IA, mas no mesmo fôlego sugeriu que essa supervisão fosse feita com menos pessoas, o que é mais ou menos como dizer que se quer mais segurança nas estradas com menos polícia. Um chatbot que vende um carro por um dólar é uma anedota tecnológica, mas um algoritmo que recusa um crédito ou exclui um candidato a emprego com base em padrões opacos é uma coisa diferente, e a IA generativa não é só ferramenta de programação ou de atendimento ao cliente, está rapidamente a entrar em processos de decisão que afetam vidas. Quando confundimos processamento de dados com compreensão da realidade, e delegamos a sistemas que ignoram o contexto humano decisões que exigem precisamente esse contexto, a ausência de supervisão deixa de ser uma escolha técnica e passa a ser um risco sistémico. Os burlões algorítmicos não são o problema maior, apenas expõem a nossa preguiça moral, a escolha consciente de confiar o tecido das nossas sociedades a máquinas que, por definição, são incapazes de se importar com as consequências do que decidem.
A regulamentação europeia, com o AI Act, já classifica como sistemas de alto risco aqueles que tomam decisões com impacto material sobre pessoas e organizações, e exige supervisão humana significativa. O problema, como em quase tudo, não vai ser ter a lei escrita, vai ser fiscalizar a sua aplicação. Diz o ditado popular que “quem os seus olhos dá, um dia chega a cego”, e é exatamente isso que está em causa: ter um humano envolvido não é um obstáculo à inovação, é a única coisa que separa uma ferramenta poderosa de uma máquina capaz de apagar uma empresa em nove segundos, ou de aceitar vender um carro por um dólar, enquanto pede desculpa em tom educado. Não podemos dar os nossos olhos à inteligência artificial, por muito tentador que seja deixar que ela veja por nós.

A Câmara Municipal da Lagoa e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) local realizaram, na quinta feira-passada, 30 de abril, uma iniciativa simbólica no jardim dos Paços do Concelho para sensibilizar a comunidade para a prevenção dos maus-tratos na infância. A ação consistiu na formação de um “Laço Azul Humano” por colaboradores da autarquia, integrando um desafio de âmbito nacional que mobilizou simultaneamente diversas localidades no Continente e nas Regiões Autónomas. Segundo a nota de imprensa da autarquia, este gesto pretende reforçar a ideia de que a proteção dos mais novos é uma “responsabilidade partilhada” que exige o compromisso ativo de instituições e cidadãos.
Esta iniciativa surge no seguimento de outras ações que têm marcado o mês de abril no concelho. No passado dia 1, a bandeira do Laço Azul foi hasteada nos Paços do Concelho, numa cerimónia que contou com a vereadora da Ação Social e Saúde, Graça Costa, e a presidente da CPCJ de Lagoa, Edite Preto. O movimento de sensibilização estendeu-se também à comunidade escolar, com a EBI de Lagoa, a EBI de Água de Pau e a Escola Secundária da Lagoa a associarem-se através do hastear da bandeira e da dinamização de atividades pedagógicas com os alunos.
A par das iniciativas simbólicas, o Município reforçou o seu compromisso político com a aprovação do Plano Municipal de Promoção e Proteção dos Direitos das Crianças e Jovens 2026–2030. Este documento, o primeiro do género a ser aprovado ao nível da Região Autónoma dos Açores, surge como um instrumento estratégico baseado num diagnóstico das problemáticas identificadas localmente. Elaborado em rede com diversas entidades, o plano visa garantir o desenvolvimento integral e o bem-estar das crianças e jovens lagoenses para os próximos quatro anos, consolidando a articulação entre a autarquia e a CPCJ.