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Homem detido no Pico por posse ilegal de arma

© POLÍCIA JUDICIÁRIA

Um homem de 48 anos foi detido, em flagrante delito, pela suspeita da prática do crime de posse ilegal de arma de fogo, no concelho da Madalena, ilha do Pico. A detenção ocorreu na sequência de várias diligências investigatórias, que tiveram lugar após relato de ameaças com arma de fogo.

Os polícias procederam à apreensão de uma arma de fogo, da classe D (espingarda), e de 77 cartuchos de calibre 12.

Tapar o sol com o mecanismo

Alexandra Manes

Aos Açores compete ter a noção mínima e não aplaudir aqueles que põem o mundo em chamas só porque depois aparecem com um balde. Assim deve ser, em qualquer contexto, mas neste momento particular da nossa tímida história, talvez seja importante falar às claras, citando a coragem dos nossos vizinhos ibéricos.

Neste caso, é sobre a emboscada à SATA, o assunto da Ryanair e do Subsídio que agora é Mecanismo, que escrevo. Após anos de péssima gestão e de empurrões sucessivos, em nome de problemáticas constitucionais e integridades territoriais, voltamos, mais ou menos, à estaca zero, com o acréscimo de termos perdido mais umas quantas valências associadas à nossa acessibilidade. O Governo Regional é, em primeira instância, o grande culpado, e os partidos que o sustentam não possuem qualquer legitimidade para se fustigar, por terem tentado interromper a enchente a meio da inundação que criaram.

Na verdade, e contrariamente à realidade da Madeira, o caso açoriano, ao abrigo da extrema bem direita que o sustenta, foi preparado propositadamente, para que se possam manobrar negociações entre o setor privado, o semipúblico e o grande buraco que lhes interessa que cresça. Para a governança neoliberal da Secretaria das Finanças, que anda de mãos bem dadas à Senhora Secretária da Mobilidade “Só Para Alguns”, a realidade que almejam criar é cada vez mais evidente.

Está é cada vez mais selvagem. Mas os neoliberais continuam a achar que o conseguem domar, até porque normalmente quando se afastam dos cargos há uma posição a abrir na direção das empresas e fundações de amizade do peito.

A realidade é esta: a SATA é um problema alimentado pelas forças mais conservadoras da sociedade civil açoriana, que se entrelaça partidariamente.

A SATA é um problema porque querem que seja, da mesma maneira que o Subsídio de Mobilidade só levantou comichão quando foi preciso usar o umbiguismo institucional do centralismo lisboeta para escudar os erros a nível local. Lisboa, claro está, responde sempre ao repto de nos oprimir. Mas isso não pode legitimar os partidos açorianos, que agora surgem de balde na mão, para apagar uma parte ínfima do fogo que vão ateando na Região.

A acessibilidade não pode ser a bandeira de governos que, sistematicamente, se vão esquecendo de partes dos seus territórios. De pouco ou nada nos serve a organização de encontros e eventos na ilha das Flores, quando as estimativas mais simpáticas apontam para anos de trabalho até que volte a ter uma operacionalidade mínima no seu porto comercial. Apregoar aos sete ventos as virtudes do setor espacial em Santa Maria não servirá para nos fazer esquecer os barcos que para lá deixaram de operar, ou as milícias políticas que continuam a destruir a sua sustentabilidade orçamental interna.

A reconquista de algumas das coisas boas que o Subsídio nos trazia, limitando-se essencialmente a repor o que já antes acontecia, é apenas um placebo para a população, e uma forma de granjear alguns votos, principalmente para os que temem perder o seu lugar. A remodelação está ali à espreita, e as facas serão longas. Não haverá Mecanismo que salve da incompetência.

Termino, relembrando a data histórica de 1974, a qual Sophia Andresen tão bem nos descreve “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo“. 25 de Abril, sempre!

Alunos das Laranjeiras visitam Apiário das Margaridas

© APIÁRIO DAS MARGARIDAS

A Câmara de Ponta Delgada, em parceria com o Apiário Margaridas – Beekeeping Azores, vai promover uma ação educativa junto de alunos do 7.º ano da escola secundária das Laranjeiras, com o objetivo sensibilizá-los para a importância que as abelhas ocupam na preservação da biodiversidade. A iniciativa terá lugar no dia 28 de abril.

Como tal, a iniciativa pressupõe uma visita de estudo ao Apiário Margaridas, localizado em Água de Pau, no concelho da Lagoa, contemplando, entre outras atividades, momentos explicativos sobre o ciclo de vida das abelhas e o seu papel determinante no equilíbrio do ecossistema natural, assim como a observação de colmeias e uma prova de degustação de mel.

Decorrendo também sob o lema “Preserve Hoje, Cuide do Amanhã”, a visita ao Apiário Margaridas – Beekeeping Azores insere-se no conjunto amplo de iniciativas ambientais promovidas pela autarquia no âmbito do Programa Bandeira Azul 2026.

Já no passado dia 16 de abril, a autarquia levou a efeito uma ação de educação ambiental dedicada à problemática do lixo marinho, junto de alunos do 9.º ano de escolaridade da escola básica/integrada dos Arrifes.

Na próxima segunda-feira, dia 27 de abril, os mesmos estudantes irão participar numa ação de recolha de resíduos no areal da praia das Milícias. Para além da limpeza, a atividade contempla a identificação e contabilização dos resíduos recolhidos, promovendo um conhecimento mais aprofundado sobre os tipos de lixo que mais afetam as zonas balneares do concelho.

Com este tipo de iniciativas, a autarquia pretende sensibilizar os mais jovens para a adoção de comportamentos ambientalmente responsáveis, reforçando a importância da correta gestão de resíduos e da preservação do meio ambiente, através de uma abordagem que alia o conhecimento teórico à experiência prática.

Pavilhão Professor Jorge Amaral acolhe IV Festival de Dança “Som do Vento” no próximo domingo

Evento reúne oito grupos da ilha de São Miguel nos Remédios, celebrando a vitalidade do grupo anfitrião que, com 31 anos de história, continua a ser um pilar cultural na freguesia de Santa Cruz

© DIREITOS RESERVADOS

O Pavilhão Professor Jorge Amaral, nos Remédios da Lagoa, será o centro das atenções da dança regional no próximo dia 26 de abril. Pelas 15h30, o Grupo Som do Vento promove a quarta edição do seu festival de dança, um evento que promete transformar o concelho da Lagoa num palco de partilha artística e convívio. De acordo com a nota de imprensa enviada pela organização, a iniciativa contará com as prestações dos grupos Beat Breakers, ADV, Dancers Power, Venga Girls, Move Dance Crew, Hip Hop Azores e Estúdio 13, que se juntam ao grupo anfitrião para uma tarde dedicada aos mais diversos estilos de movimento.

Com mais de três décadas de existência, o Grupo Som do Vento atravessa um momento de grande dinamismo, contando atualmente com 28 elementos femininos divididos por três escalões. Sediada na freguesia de Santa Cruz, a associação mantém uma presença assídua na vida da comunidade, colaborando regularmente com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia em festas populares, eventos de Natal e atuações de caráter social em lares de idosos. O rigor técnico das suas exibições é assegurado pela professora Vanessa Borges, do Estúdio 13, que orienta os ensaios semanais da formação.

A concretização desta quarta edição do festival conta com o apoio estratégico da Câmara Municipal de Lagoa e da Junta de Freguesia de Santa Cruz, parcerias que o grupo considera vitais para a sustentabilidade das suas atividades. Para além deste evento, a associação já se encontra a preparar a participação nas marchas de Santo António, reforçando o seu papel como agente ativo na preservação das tradições locais. O festival de domingo assume-se, assim, não só como um espetáculo de entretenimento, mas como um momento de afirmação da cultura e da expressão artística feita na Lagoa.

Hospital Divino Espírito Santo consolida uso de inteligência artificial

© HDES

O hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada reafirma a sua posição na vanguarda da medicina tecnológica em Portugal ao completar o primeiro ciclo de operação com o sistema de inteligência artificial, Gleamer Copilot. Implementada em julho de 2025, esta ferramenta tornou-se um pilar essencial no serviço de urgência da unidade hospitalar açoriana, auxiliando as equipas médicas na deteção precoce de traumatismos e patologias críticas.

A utilização dos módulos BoneView e ChestView permitiu elevar o padrão de segurança clínica oferecido aos utentes, garantindo uma validação de exames radiológicos em apenas alguns minutos e otimizando o tempo de resposta, especialmente em períodos de elevada pressão assistencial.

O sucesso operacional desta tecnologia, que atua como um assistente de suporte à decisão clínica em exames de raio-X e tomografia computadorizada, reflete-se na maior precisão diagnóstica de patologias do tórax e do pulmão, como o pneumotórax, nódulos pulmonares, derrames pleurais e opacidades alveolares, bem como de lesões ósseas, incluindo fraturas agudas, luxações, lesões corticais subtis e pequenos destacamentos ósseos.

Com a consolidação deste sistema, o maior hospital dos Açores prepara-se agora para uma nova fase de expansão, com a previsão de anúncio de novas ferramentas de inteligência artificial que deverão abranger outras áreas diagnósticas e operacionais.

Estas futuras soluções visam aprimorar a triagem e a gestão de fluxos clínicos, solidificando o arquipélago como um polo de referência em inovação médica.

O percurso de modernização tem um impacto direto na confiança dos profissionais e na segurança dos pacientes. O balanço desta primeira fase dá a confiança necessária para avançar com novos projetos que colocarão o hospital num patamar de eficiência tecnológica ainda mais elevado.

Lagoa renova apoios aos clubes desportivos

© CM LAGOA

O município da Lagoa assinou contratos-programa de desenvolvimento desportivo com várias coletividades do concelho, reforçando o apoio à atividade regular anual dos clubes e reconhecendo o seu papel na dinamização desportiva e social.

Na reunião com o presidente da autarquia, Frederico Sousa, marcaram presença o Clube Desportivo Operário, a Associação Cultural e Desportiva de Santa Cruz, o Clube de Ténis Cidade da Lagoa e o Clube de Pesca Desportiva da Lagoa.

A reunião constituiu, também, uma oportunidade para o executivo municipal ouvir diretamente os dirigentes associativos, recolhendo contributos sobre as principais dificuldades e aspirações destas entidades, num espírito de proximidade e colaboração contínua.

Durante a sessão, foram ainda apresentados dados atualizados relativos à prática desportiva no concelho. Em 2026, Lagoa regista um número recorde de 1755 praticantes, o que representa um crescimento de 15% face ao ano anterior.

A análise destes dados permitiu identificar áreas prioritárias de intervenção, com especial enfoque nos grupos atualmente sub-representados, nomeadamente o género feminino, que representa 37% dos praticantes, o desporto adaptado, com 0,46%, o escalão etário dos 16 aos 18 anos, com 5,3%, e a população com mais de 65 anos, que corresponde a 1,08% do total.

Neste contexto, foi lançado o desafio aos clubes para a dinamização de iniciativas que promovam uma maior inclusão e diversidade na prática desportiva.

Festas de Santo António animam Santa Cruz entre 9 e 14 de junho

© CM LAGOA

As Festas de Santo António, na Lagoa, acontecem este ano entre 9 e 14de junho, particularmente na freguesia de Santa Cruz. A organização – autarquia, junta de freguesia e paróquia – organizaram um programa diversificado que conjuga cultura, música, tradição e momentos de convívio para toda a comunidade.

As celebrações decorrem no Convento de Santo António e nos seus espaços envolventes, contando com barracas e bazar abertos ao longo de todos os dias da festa.

A abertura oficial das festas está marcada para o dia 9 de junho, pelas 19h00, com uma sessão solene que inclui um momento musical pelo Orfeão Nossa Senhora do Rosário. A noite contará com a demonstração do Centro Karaté de Lagoa e a Gala de Patinagem Artística, pelo Clube de Patinagem Artística de Santa Cruz, culminando com a atuação do artista Nuno Martins.

No dia 10 de junho, feriado nacional, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o destaque vai para a atuação do artista Toy, às 22h30, no palco do campo, além de diversas atividades ao longo da tarde e noite, incluindo uma tarde infantil, atuação do grupo de dança Som do Vento e animação musical pelo grupo Doce Sinfonia.

As festividades continuam no dia 11 de junho com os tradicionais Casamentos de Santo António, seguidos de um brinde aos noivos com bolo comunitário.

O dia 12 de junho será marcado pela vertente religiosa, com a missa solene em honra de Santo António, procissão acompanhada pela Sociedade Filarmónica Estrela d’Alva e bênção do tradicional “pão de Santo António”. Entre as 20h00 e as 22h30, estará aberta ao público uma feira de artesanato. A noite será animada com música e arraial, incluindo atuações de grupos locais e populares.

No 13 de junho, dia de Santo António, destaque para os desfiles das marchas populares, de crianças e adultos, charangas dos bombeiros e o ambiente festivo que culmina com a tradicional fogueira de Santo António e fogo de artifício, seguido de animação musical pelo grupo Brunim do Acordeão e Amigo.

As festas encerram no dia 14 de junho, com uma prova de pesca desportiva, feira de artesanato, distribuição de sardinhas e pão de milho, com animação do grupo folclórico O Grujola, no jardim dos Frades. Pelas 20h00, terá lugar uma noite de tunas académicas. A noite termina com o concerto de Augusto Canário & Amigos.

Lagoa atribui voto de louvor a Gilberto Borges

© CM LAGOA

A Câmara Municipal da Lagoa distinguiu Gilberto Sousa Borges, natural do concelho, com um voto de louvor em reconhecimento pelo seu percurso como dirigente desportivo e pelo seu contributo para o desenvolvimento do desporto e da comunidade lagoense. A atribuição do voto de louvor foi aprovada, por unanimidade, na reunião de câmara de 12 de março.

Ao longo de 25 anos, Gilberto Borges dedicou-se à presidência da Associação Juvenil Clube Operário Desportivo, distinguindo-se pelo seu empenho, liderança e profundo compromisso com a formação desportiva e cívica de centenas de jovens. Durante este período, o clube formou mais de 3500 atletas, promovendo valores fundamentais como o respeito, a disciplina, o espírito de equipa e a superação.

Sob a sua orientação, a Associação Juvenil do Clube Operário Desportivo alcançou resultados de grande relevo, nomeadamente a conquista de 39 campeonatos de São Miguel, 14 campeonatos regionais e um honroso 3.º lugar na Taça Nacional, feitos que dignificam o clube e projetam o nome do concelho de Lagoa e da região no panorama desportivo.

Para além dos êxitos competitivos, a autarquia destacou igualmente o importante papel social desempenhado por Gilberto Borges, marcado pela proximidade à comunidade, pelo apoio a jovens e famílias e pela dinamização de iniciativas que reforçam o desporto como instrumento de inclusão, educação e desenvolvimento pessoal.

Judiciária detém suspeito de tentar matar irmão com raticida

© DIREITOS RESERVADOS

A Polícia Judiciária (PJ), através do Departamento de Investigação Criminal dos Açores, deteve um homem, com 37 anos, presumível autor de um crime de homicídio qualificado, na forma tentada, praticado contra o seu irmão, com recurso a raticida.

Os factos ocorreram na ilha de São Jorge, entre os dias 17 e 18 de março do corrente ano, tendo o suspeito alegadamente colocado veneno em alimentos destinados ao irmão, com quem coabitava na residência do progenitor, já falecido.

Após aperceber-se do conteúdo suspeito, a vítima com 39 anos, recusou a refeição.

O presumível autor terá agido com o propósito de matar o irmão, na sequência de conflitos relacionados com a herança.

O detido será presente às autoridades judiciárias competentes para aplicação das medidas de coação tidas por adequadas.

“Estava doente e foste visitar-me”

Padre André Furtado

“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.

Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.

Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.

Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.

Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.

E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.

Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.

Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.

Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.

Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.

Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.

Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.

Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).

Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.

O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.

Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.