
No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Terra, celebrado sob o lema “O nosso poder, o nosso planeta”, o município da Lagoa, através do Centro de Educação e Formação Ambiental da Lagoa (CEFAL), participou numa iniciativa promovida pela escola secundária que incluiu visitas à estação de tratamento de águas residuais da Caloura, ao reservatório de abastecimento de água e a um dos furos de captação de água, na freguesia do Cabouco.
A atividade teve como principal objetivo sensibilizar os alunos para a importância da sustentabilidade ambiental e da gestão eficiente dos recursos hídricos. Durante a visita à ETAR, foi apresentado, de forma detalhada, todo o processo de tratamento das águas residuais, desde a sua entrada na estação até à sua devolução ao meio ambiente em condições seguras.
Nas visitas ao reservatório e furo de captação de água, os alunos aprenderam o funcionamento do sistema de abastecimento e de captação de água no concelho da Lagoa.
Esta ação pedagógica permitiu trabalhar vários objetivos de desenvolvimento sustentável, evidenciando a ligação entre a gestão da água, a proteção dos ecossistemas e a adoção de comportamentos responsáveis.

A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal dos Açores, deteve um homem, com 40 anos, fortemente indiciado pela prática reiterada de crimes de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, agravados, cometidos contra a enteada, com 15 anos.
A investigação, desenvolvida na ilha de São Miguel, teve início na sequência de uma denúncia apresentada pela mãe da vítima.
As subsequentes diligências realizadas permitiram apurar que os abusos ocorriam há vários meses, sempre durante o período noturno, enquanto o restante agregado familiar dormia.
O detido será presente às autoridades judiciárias competentes para primeiro interrogatório judicial e aplicação das adequadas medidas de coação.

O presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, reuniu-se com a Comissão Diocesana de Bens Culturais de Angra, organismo responsável pela salvaguarda, conservação e valorização do património artístico, documental e arquitetónico da Igreja a nível local.
Durante o encontro, foi destacado o papel fundamental da comissão, frequentemente organizada como secretariado ou departamento diocesano, na proteção e gestão dos bens culturais eclesiásticos.
Entre os principais temas abordados, sublinhou-se a importância da inventariação rigorosa dos bens religiosos, sendo este processo de registo essencial não só para prevenir furtos e perdas, mas também para garantir uma conservação adequada e uma valorização sustentada do património.
O encontro permitiu ainda consolidar estratégias de cooperação e partilha de boas práticas, visando uma gestão mais eficaz e consciente destes bens, que constituem um património cultural e espiritual de elevado valor.
Por fim, importa salientar que o município da Lagoa tem vindo a adotar boas práticas na conservação e salvaguarda do património religioso, nomeadamente através da promoção de ações de sensibilização, como a iniciativa “Cuidar para preservar: boas práticas na limpeza do património religioso”, dinamizada pelo Museu da Lagoa – Açores, que capacitou os participantes com noções essenciais de conservação preventiva em espaços de culto e respetivos bens culturais.
Paralelamente, destaca-se a valorização e proteção de bens classificados de interesse público no concelho, como a ermida de Nossa Senhora dos Remédios, a igreja do convento de Santo António, a ermida de Nossa Senhora do Cabo, em Santa Cruz, a igreja de São José, na Ribeira Chã, e ainda o órgão histórico da igreja de Nossa Senhora do Rosário, reforçando o compromisso com a preservação de um património que constitui parte integrante da identidade e memória coletiva.

A Câmara Municipal do Nordeste lançou um desafio aos alunos da escola profissional para assinalarem o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, iniciativa que, em 2026, se centra na resposta de emergência em contexto de conflitos e desastres tendo em consideração o atual contexto de recuperação do país após uma sucessão de fenómenos meteorológicos extremos.
O município foi à escola desenvolver uma sessão com as turmas dos cursos de desporto e hotelaria que abordou o tema “Do território ao património vivo: o PDM como instrumento de ação climática e ferramenta de proteção em caso de catástrofe”. A iniciativa desafiou-os a pensar, num contexto global de alterações climáticas, em medidas concretas que o município poderá adotar para proteger o património arquitetónico e cultural do concelho.
Posteriormente, os formandos visitaram os Paços do Concelho para apresentarem as suas propostas para proteção de património local que os próprios selecionaram.
O vice-presidente da Câmara do Nordeste, Marco Mourão, esteve presente na apresentação, assim como a vereadora de Ação Social, Sara Sousa, tendo considerando as exposições coerentes e sensíveis face ao que foi proposto, especificamente a proteção do património num cenário climático cada vez mais instável, demonstrando também conhecimento do património mais evidente do concelho.
Num total de cinco grupos, os alunos dos dois cursos foram desafiados a identificar uma zona do concelho que considerassem ser de risco e onde encontrassem um exemplo de património a proteger; deveriam analisar o valor material e imaterial do imóvel e ainda investigar sobre a existência de medidas de proteção já existentes; por fim, pedia-se que propusessem medidas concretas para proteger o local escolhido e que indicassem o contributo dessas medidas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Numa semana, os formandos conseguiram demonstrar, através do trabalho apresentado, que conhecem o património do concelho, que identificam o seu valor cultural para a comunidade, que medidas preventivas de preservação devem ser tomadas e a sua implicação direta ao nível da sustentabilidade.
Foram apresentados trabalhos sobre as casas antigas da Fajã do Araújo, Boca da Ribeira, Parque da Ribeira dos Caldeirões, ermida da Senhora do Pranto/Pocinho e o farol do Arnel.

O primeiro alerta foi dado pelas 15h33 (hora local) da passada segunda-feira, a informar que um passageiro de um navio cruzeiro, a navegar a cerca de 1000 milhas náuticas (aproximadamente 1850 quilómetros) de São Miguel, necessitava de assistência médica por apresentar sintomas de acidente vascular cerebral.
Devido à distância a que se encontrava da costa, a vítima, um homem de 69 anos e de nacionalidade alemã, foi resgatada por um helicóptero EH‑101 da Força Aérea Portuguesa para a ilha Terceira, tendo sido posteriormente transferido por uma ambulância para uma unidade hospitalar.
O segundo alerta foi recebido perto das 11h57 (hora local) de terça-feira, a informar que um tripulante de um navio mercante, a cerca de 435 milhas náuticas (aproximadamente 805 quilómetros) da ilha de São Miguel, apresentava sintomas de enfarte, necessitando de assistência médica.
Para o local foi ativado o helicóptero EH-101 da Força Aérea que também efetuou o resgate da vítima, um homem de 60 anos de nacionalidade ucraniana. A vítima foi transportada para o aeroporto de Ponta Delgada, tendo sido posteriormente encaminhada para uma unidade hospitalar.
Ambos os resgates decorreram na quarta-feira e foram coordenados pelo Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC Delgada), em articulação com o Centro de Orientação de Doentes Urgentes-Mar (CODU-MAR) e com o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Aéreo das Lajes (RCC Lajes).
Nesta operação estiveram também empenhados o NRP Figueira da Foz, integrado no dispositivo naval do Comando da Zona Marítima dos Açores e uma aeronave C-295 da Força Aérea.

Cerca de sessenta jovens alunos do Conservatório Regional de Ponta Delgada – alguns deles com menos de 12 anos – estão a participar no estágio da orquestra de sopros sob orientação da maestrina Renata Oliveira que regressa aos Açores depois de ter trabalhado, em 2023, com a Quadrivium.
O estágio teve início na passada terça-feira e prolonga-se até à próxima sexta-feira, com concerto de final de estágio agendado para as 20h00 na Aula Magna da Universidade dos Açores.
Não sendo a primeira vez que trabalha com músicos dos Açores, é a primeira vez que Renata Oliveira, natural de Estarreja, trabalha com a orquestra de sopros do Conservatório Regional de Ponta Delgada. E o balanço não poderia ser mais satisfatório, decorridos que estão dois dias de trabalho.
“A evolução é francamente positiva. Fiquei surpreendida também com o facto de se notar que existe já uma escola de som. Percebe-se que a orquestra está bem trabalhada em contexto de conservatório e tem bastante potencial, o que permitiu dar um salto qualitativo do primeiro para o segundo dia com trabalho de detalhe em metade do reportório”, explicou Renata Oliveira.
Perante uma orquestra composta por dezenas de alunos em idade escolar, a maestrina ficou agradada com a qualidade dos mesmos, ao ponto de reconhecer que, logo no primeiro dia de trabalho, não foi necessário ‘partir pedra’. “Não foi necessário ‘partir pedra’ porque eles já tinham lido as obras nas aulas de orquestra de sopros. Assim, pôde partir logo para a parte mais musical, de equilíbrio de som e do colorido musical. Nem sempre é possível em estágios com alunos mais jovens, com estes foi possível partir para uma questão musical mais profunda”, disse.
Assim, a expetativa para sexta-feira é elevada e o público poderá ser surpreendido com a qualidade dos executantes. “Podemos esperar um concerto com uma qualidade muito interessante. O reportório deixa-me feliz, principalmente as obras de raízes portuguesas do compositor Francisco Ribeiro que, penso, ainda não foram tocadas em São Miguel. Temos boa música, temos bons músicos, esperamos um bom concerto”, finalizou.

A rede de instituições da diáspora açoriana conta, a partir desta semana, com um novo e estratégico ponto de apoio em território nacional. O secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, enalteceu esta terça-feira, 21 de abril, em Ponta Delgada, a assinatura do termo de cooperação que formaliza a criação da Delegação Oficial da Casa dos Açores de Minas Gerais (CAMG) em Portugal continental. Segundo uma nota de imprensa enviada às redações, o documento foi subscrito pelo presidente da referida Casa, Claudio Luciano Valença Motta, e pelos representantes da entidade parceira NEW-New Economy World, Alexandre Brodheim e Pedro Gouveia, estabelecendo as bases para promover as atividades da instituição mineira junto da comunidade residente no continente.
Para o governante, este passo é um reflexo claro da vitalidade das nossas comunidades, classificando a Casa de Minas Gerais como uma entidade “recente, mas com um grande grau de criatividade, de competência e com um dinamismo extraordinário”. Paulo Estêvão sublinhou a importância estratégica de estreitar relações com Minas Gerais, lembrando tratar-se de um estado com mais do dobro da população portuguesa. “É vital ter um conjunto de relações de caráter cultural e institucional cada vez mais intensas”, defendeu o secretário regional, traçando um paralelo com o trabalho histórico já desenvolvido com outras Casas dos Açores no Brasil.
Esta iniciativa surge num contexto de afirmação da identidade açoriana à escala global, onde o Executivo açoriano apoia atualmente uma rede de 20 Casas dos Açores espalhadas pelo mundo, desde o Uruguai ao Canadá, com forte presença no Pacífico. “Os açorianos não se resumem aos 244 mil habitantes destas nove ilhas, pelo contrário, somos uma grande região cultural com mais de quatro milhões de açorianos e descendentes”, afirmou Paulo Estêvão, reforçando que estes vínculos intercontinentais superam hoje o tradicional “turismo de saudade”, atraindo projetos conjuntos que beneficiam diretamente a Região Autónoma.
A oficialização desta delegação ocorreu durante a visita oficial que uma comitiva da Casa dos Açores de Minas Gerais realiza ao arquipélago até à próxima sexta-feira. Com passagens previstas por São Miguel e pelo Faial, o programa inclui reuniões com autoridades autárquicas e membros do Governo, além de momentos culturais de relevo. Entre as iniciativas destacam-se a apresentação do livro “Somos Açores – Um arquipélago vivo pela ação das Casas dos Açores”, do jornalista Ígor Lopes, e a encenação da peça “Quando o Mar Galgou a Terra”, pela atriz brasileira Eleonora Marino Duarte, consolidando a união entre a raiz insular e a expansão mineira.

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
Há cerca de seis meses escrevi neste mesmo espaço sobre as várias formas como a Inteligência Artificial pode ser atacada e usada como vetor de ataque, em particular através de prompt injection, adversarial attacks e data poisoning. Na altura, o exemplo mais inquietante que consegui imaginar era um email malicioso conseguir enganar um assistente de IA a enviar a palavra-passe de um utilizador para fora. Hoje, esse cenário parece-me quase inocente, e o motivo tem nome: Mythos.
A 7 de Abril deste ano, a Anthropic, empresa norte-americana criadora do Claude, anunciou um novo modelo, o Claude Mythos. O anúncio, contudo, não foi feito como qualquer outro lançamento de IA a que nos habituámos nos últimos anos. A Anthropic decidiu não disponibilizar o modelo ao público em geral, justificando essa decisão com o argumento de que o Mythos é simplesmente demasiado perigoso para ser libertado. Em vez disso, criou uma iniciativa chamada Project Glasswing, um consórcio fechado de cerca de uma dúzia de grandes empresas, entre as quais a Microsoft, a Apple, a Google, a Amazon Web Services, a Cisco, a CrowdStrike, o JPMorgan Chase, a NVIDIA e a Linux Foundation, ao qual foram posteriormente convidadas mais cerca de quarenta organizações. O objetivo declarado é dar a estes parceiros tempo para corrigirem vulnerabilidades nos seus sistemas antes que capacidades semelhantes cheguem às mãos de atacantes.
E que capacidades são essas? Em pouco mais de um mês de testes internos, o Mythos identificou autonomamente milhares de vulnerabilidades de severidade alta ou crítica, das quais mais de 99% ainda não estavam corrigidas no momento do anúncio. Encontrou falhas em todos os principais sistemas operativos, incluindo Windows, macOS, Linux, FreeBSD e OpenBSD, e em todos os principais browsers de Internet, incluindo Chrome, Firefox, Safari e Edge. Entre os exemplos divulgados pela Anthropic está um bug com 27 anos no OpenBSD, um sistema operativo conhecido precisamente por ser dos mais seguros do mundo, uma falha de 16 anos no FFmpeg, e uma vulnerabilidade no FreeBSD (catalogada como CVE-2026-4747) que permite a qualquer pessoa na Internet, sem qualquer autenticação, obter controlo total sobre um servidor. Esta última foi descoberta e explorada de forma totalmente autónoma pelo modelo, sem qualquer intervenção humana, em algumas horas de trabalho.
Mais inquietante ainda é que estas capacidades não foram intencionalmente treinadas. Segundo a própria Anthropic, surgiram como consequência natural das melhorias gerais em programação, raciocínio e autonomia do modelo, e os mesmos avanços que tornam o Mythos eficaz a corrigir vulnerabilidades tornam-no igualmente eficaz a explorá-las. A acrescentar, num episódio que merecia um capítulo só para ele, o modelo terá conseguido escapar do ambiente isolado (sandbox) em que estava a ser testado, ligar-se à Internet e publicar online, sem que ninguém lhe tivesse pedido, os detalhes do que tinha feito.
No artigo anterior, citei o Tio Ben para falar do binómio entre poder e responsabilidade. Hoje, a discussão é outra. Engenheiros sem formação em cibersegurança, segundo descrição da própria Anthropic, podiam pedir ao Mythos para encontrar vulnerabilidades durante a noite e, na manhã seguinte, encontrar à sua espera um exploit funcional. O que tradicionalmente exigia equipas altamente especializadas, semanas ou meses de trabalho e custos elevados, passa a estar ao alcance de qualquer pessoa com acesso ao modelo. Investigadores independentes, como a empresa AISLE, demonstraram entretanto que algumas destas vulnerabilidades podem ser detetadas por modelos abertos, muito mais pequenos e baratos, com cerca de 11 cêntimos por milhão de tokens, o que reforça a ideia de que esta capacidade dificilmente ficará confinada a um único modelo ou a uma única empresa.
E é aqui que esta história deixa de ser apenas técnica e passa a ser também geopolítica. A Anthropic pode ter optado, e bem, por reter o Mythos. Mas, como já notou um dos participantes do consórcio, a China terá uma versão equivalente em cinco ou seis meses, e existirá uma alternativa em código aberto dentro de um ou dois anos. A janela de proteção que o Project Glasswing oferece é, portanto, muito curta. E nessa janela, quem está em condições de a aproveitar? Sem surpresa nenhuma, e em linha com o que escrevi recentemente sobre a dependência tecnológica europeia, todas as empresas do consórcio são norte-americanas. O modelo é norte-americano. A infraestrutura cloud onde corre é norte-americana. As empresas que estão a corrigir as vulnerabilidades dos sistemas que sustentam grande parte da Internet, dos bancos aos hospitais, são norte-americanas. A Europa, mais uma vez, não está na sala.
A questão já não é se a Europa precisa de soberania digital. A questão é quanto tempo ainda vai demorar a perceber que essa soberania, sem capacidade própria em IA de fronteira e sem uma estratégia séria de cibersegurança ofensiva e defensiva à altura desta nova realidade, é uma palavra vazia. Os assistentes de IA de que falei no artigo anterior continuam vulneráveis a prompt injection. Os sistemas que os suportam, esses, passaram agora a ser vulneráveis a algo bastante mais sofisticado: outras IAs, capazes de encontrar nas suas entranhas falhas que sobreviveram décadas à revisão humana. O futuro da cibersegurança vai ser, inevitavelmente, uma corrida entre IAs ofensivas e IAs defensivas. Resta saber de que lado da corrida vamos estar.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
A notícia de que São Miguel já representa 60,8% do PIB dos Açores não me espanta. O que me espanta é a rapidez com que alguns transformam o crescimento de uma ilha num problema político, quase como se produzir mais riqueza fosse um pecado a expiar.
Entre 2021 e 2023, São Miguel passou de 59% para 60,8% do PIB regional, com o seu produto a subir de 2.581,6 milhões para 3.271 milhões de euros. No mesmo período, o PIB total da Região passou de 4.374,6 milhões para 5.374 milhões.
Isto tem uma leitura séria: São Miguel cresceu e os Açores cresceram. O que não aceito é que se queira fazer de São Miguel a culpada do seu próprio esforço.
Eu repudio o bairrismo. Sempre repudiei. Não embarco nessa política rasteira de meter ilhas umas contra as outras, como se o problema dos Açores fosse São Miguel ter empresas, iniciativa, capacidade económica e gente que trabalha. São Miguel não pode ser castigada por crescer. Era o cúmulo da estupidez política: punir quem puxa, só para disfarçar a incapacidade de fazer os outros crescer também. Isso não é justiça. Isso é nivelar por baixo. E nivelar por baixo nunca salvou nenhuma terra.
Mas convém não fugir ao essencial. Defender São Miguel não é fechar os olhos aos desequilíbrios da Região. São coisas diferentes. Uma coisa é dizer, com frontalidade, que São Miguel não tem de pedir desculpa pelo seu dinamismo. Outra é exigir ao poder político que governe os Açores como um arquipélago de nove ilhas e não como um mapa onde basta gerir a maior e ir entretendo as outras com discursos de circunstância.
Tenho defendido exatamente isso: a verdadeira coesão territorial não se faz em guerrilhas de ilha para ilha, faz-se olhando para a totalidade do arquipélago, povo a povo, freguesia a freguesia. E tenho também insistido que a coesão económica, social e territorial não pode continuar a ser apenas uma frase bonita para constar em intervenções oficiais; tem de se traduzir em investimento estratégico, acessibilidades, oportunidades e equilíbrio real. O CHEGA Açores tem ligado essa coesão à necessidade de melhorar acessibilidades em todas as ilhas, com um pacote que estimou em 26,3 milhões de euros.
É aqui que muita gente se engana, ou finge enganar-se. Os números não mostram que São Miguel esteja a “tirar” riqueza às outras ilhas. Mostram, sim, que São Miguel cresceu mais. A Terceira, por exemplo, desceu em peso relativo de 21,46% para 20,31%, mas subiu em valor absoluto de 938,7 milhões para 1.091,3 milhões de euros. O Faial passou de 276,2 milhões para 323 milhões, apesar de ter perdido algum peso percentual. Portanto, a questão séria não é travar São Miguel. A questão séria é perceber porque falham as políticas que deviam estar a criar condições para que outras ilhas acompanhassem esse crescimento com mais força.
E é aqui que eu não alivio o Governo Regional. Porque o mais fácil é deixar correr, olhar para São Miguel a crescer e vender isso como se fosse prova automática de sucesso regional. Não é. Uma Região não está equilibrada só porque a sua maior ilha está forte. Uma Região está equilibrada quando a sua força principal serve de motor ao conjunto, e quando o poder político usa essa força para corrigir fragilidades, não para aprofundar dependências.
O que eu recuso é este truque barato: sempre que se fala de coesão, aparecem logo os especialistas do ressentimento a insinuar que São Miguel tem demais. Não. O problema não é São Miguel ter demais. O problema é haver ilhas que continuam a ter de menos. E isso não se resolve tirando músculo a quem o tem. Resolve-se criando músculo onde ele falta. A política séria faz crescer. A política medíocre redistribui desculpas.
São Miguel tem peso. Muito bem. Então use-se esse peso com responsabilidade regional. Não para a enfraquecer, não para a penalizar, não para a transformar em bode expiatório de décadas de falhanços estratégicos. Use-se esse peso para alavancar os Açores como um todo. Porque uma São Miguel forte numa Região fraca é um sucesso pela metade. E um arquipélago onde se castiga quem cresce é um arquipélago que desiste de si próprio.
A minha posição é simples e não tem truque nenhum: não aceito o discurso anti-São Miguel e não aceito o comodismo de quem usa São Miguel para esconder o desequilíbrio regional. Quero São Miguel a crescer mais, sem complexos e sem pedir licença. Mas quero também Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Santa Maria, Flores e Corvo com condições reais para crescerem com ambição. Isso é que é coesão. Isso é que é governar. O resto é conversa para dividir os Açores e desculpar quem nunca os soube unir.
No fim do dia, o ponto é este: crescer não é crime. Crime político é querer que São Miguel pague a fatura do seu próprio sucesso, em vez de obrigar quem governa a fazer o que devia ter feito há muito — criar condições para que o progresso de uma ilha ajude a levantar todas as outras.

A secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, enviou uma carta à ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, alertando para a gravidade da conjuntura internacional marcada por elevada instabilidade dos mercados energéticos, fortes tensões geopolíticas e crescentes limitações na disponibilidade e no preço dos combustíveis.
Perante este cenário, que o Governo dos Açores considera particularmente preocupante, Berta Cabral exige que o Governo da República tenha em conta, de forma clara e consequente, as especificidades das regiões autónomas, em especial dos Açores, cuja condição arquipelágica e ultraperiférica acentua de forma significativa a vulnerabilidade a ruturas no abastecimento energético.
“Os Açores dependem exclusivamente do transporte marítimo para o fornecimento de combustíveis, ficando especialmente expostos a interrupções nas cadeias logísticas internacionais. Esta realidade estrutural impõe soluções diferenciadas, planeamento próprio e uma salvaguarda reforçada nos mecanismos nacionais de prevenção e resposta a crises energéticas”, sublinha a governante.
Berta Cabral destaca ainda que a mobilidade dos cidadãos açorianos, assim como a ligação da região ao exterior e interilhas, depende de forma determinante do transporte aéreo, quer para passageiros, quer para bens essenciais, evacuações médicas, operações de emergência e funcionamento de serviços públicos fundamentais.
“O abastecimento regular de combustível de aviação (jet fuel) é, por isso, absolutamente crítico para a coesão territorial, para a continuidade do serviço público de transporte aéreo e para a segurança das populações. Qualquer falha neste domínio teria consequências imediatas e extremamente gravosas para a região”, alerta.
A secretária regional evidencia, igualmente, que o fornecimento de energia elétrica nos Açores continua a depender, de forma significativa, de centrais termoelétricas alimentadas por combustíveis fósseis, apesar do esforço continuado de transição energética e do aumento da incorporação de fontes renováveis.
Berta Cabral sublinha que, num cenário de rutura no abastecimento de combustíveis, os efeitos combinados sobre o transporte marítimo e aéreo, a produção de eletricidade e a logística regional seriam imediatos e severos, comprometendo a mobilidade interilhas e com o continente, o acesso a cuidados de saúde diferenciados, a segurança energética e o normal funcionamento da economia açoriana.
Neste contexto, a secretária regional considera imprescindível que os planos nacionais de contingência energética integrem expressamente as regiões autónomas, defendendo, por isso, como absolutamente necessário, “garantir níveis adequados e seguros de stocks operacionais de combustíveis na região e definir mecanismos claros, céleres e previamente operacionalizados para a mobilização de reservas estratégicas nacionais para os Açores e reforçar a coordenação institucional e a partilha de informação entre a ENSE, o Governo da República e o Governo Regional”.