Passados 77 anos sobre a publicação do último jornal no concelho da Lagoa, eis que surge novamente um órgão de comunicação social escrita. É um regresso que saudamos efusivamente.
Os jornais como veículos de comunicação, são indispensáveis nas comunidades, informam, divulgam, incentivam a troca de ideias e proporcionam o debate das mesmas, constituindo autênticos veículos de dinamização de uma região. A Lagoa sempre teve atividade cultural própria, beneficiando em parte quer da proximidade de Ponta Delgada, o grande centro de dinamização cultural da ilha, quer pela existência dos Franciscanos, os quais no seu convento davam aulas de leitura, escrita, gramática, latim, aritmética, filosofia, retórica, teologia e música, principalmente canto e órgão, quer ainda pela extensão à Lagoa das atividades culturais da “Sociedade dos Amigos das Letras e Artes”, fundada em Ponta Delgada em 9 de Setembro de 1848 por António Feliciano de Castilho e que estabeleceu nesta então Vila diversos cursos noturnos, regidos gratuitamente. No relatório desta sociedade de 1864, faz-se referencia à frequência destes cursos naquele ano, que foi de 107 alunos. Não é de admirar pois, a existência de muitas pessoas na Lagoa com um interessante grau de instrução e cultura, pessoas estas que fundaram os jornais da época, que mantiveram acesas polémicas nas suas páginas e um grande número de assinantes que aguardavam ansiosamente a saída de cada número.
No concelho da Lagoa, entre 1887 e 1937, foram publicados 13 jornais, o primeiro foi o “Eco Lagoense”, publicado em 1887, com 7 números editados, eram seus proprietários e redatores Manuel Soares Pereira e Ponte Cordeiro, este semanário intitulava-se de político, literário, noticioso e recreativo, seguiu-se-lhe o “Átomo” (1888-1889) com 36 números publicados, foi seu diretor Manuel Soares Pereira, era um quinzenário de cariz literário e noticioso. O “Zé Careca” (1889), com 1 número publicado, definia-se como sendo o “Órgão dos Calvos”, e tinha como redatores, Zé Pelado e Zé Lanzudo, neste jornal, podemos ver como se fazia sátira política na Lagoa em finais do século XIX, tinha como editor Manuel Soares Pereira e redator Francisco Santos Cordeiro ou seja Zé Pelado e Zé Lanzudo. “O Pimpão” (1889-1890), com 14 números editados, tinha como sub-título “Órgão dos Fracos e Estigma dos Velhacos” era uma folha de sátira política, tinha como proprietário, diretor e redator Manuel Soares Pereira, que teve uma participação em vários jornais da Lagoa, nasceu em Vila do Porto, num período em que os pais estiveram a residir em Santa Maria, fixando-se posteriormente na Lagoa, mais tarde emigrou para o Brasil, onde tem descendência. “ A Quinzena” (1890-1891), com 27 números publicados, quinzenário de orientação republicana, foi seu proprietário e diretor Francisco Santos Cordeiro, que morre muito novo, com 26 anos de idade, Santos Cordeiro e sua esposa foram testemunhas de casamento do conhecido jornalista e farmacêutico Francisco Maria Supico. “Gazeta da Lagoa” (1892-1894), com 28 números editados, era um semanário e intitulava-se de “Folha Democrática”, tinha orientação republicana, teve como editor João Jacinto Carreiro e redator Francisco Santos Cordeiro. “O Bom Conselheiro (1894-1895), com 63 números publicados, era um semanário, foi seu proprietário e redator Egydio Costa, natural da Ribeira Grande, na altura a desempenhar as funções de tabelião na Lagoa, era irmão do Dr.Geremias da Costa, professor e reitor do Liceu de Ponta Delgada, foi ainda governador civil e presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. “O Julgado Municipal” (1899-1907), com 285 números publicados, era um semanário, foi seu proprietário, redator e editor Egydio Costa. “O Sul”(1900-1901), com 22 números publicados, foi seu gerente, proprietário e responsável, como nos indica o cabeçalho, Guilherme Gouveia Fragoso. “Lagoense” (1903-1927), com 313 números publicados, definia-se como sendo um jornal literário, noticioso e independente, teve como redator e editor Guilherme Gouveia Fragoso, que foi tesoureiro da Fazenda Pública e solicitador na Lagoa e secretário Francisco d’Amaral Almeida, foi o jornal de maior longevidade e que maior número de publicações teve. Este jornal durante a sua publicação, atravessou um período muito conturbado, o da passagem do regime monárquico para o republicano. “O Vigilante” (1905), com 9 números publicados, era um semanário político, literário e noticioso, foi seu diretor e editor Manuel da Câmara. “O Vigilante II” (1916), com 5 números publicados, semanário, era seu proprietário, diretor e editor António José de Sampaio. “A Semana” (1936), com 19 números publicados, como o próprio nome indica, era um semanário e definia-se como sendo um órgão de defesa dos interesses do concelho, foi seu proprietário, diretor e editor António da Costa Almeida. “A Semana” (2ª Série), publicado em 1936-1937, com 13 números editados, este jornal manteve a administração, redação e impressão nos mesmos locais da 1ª Série, porém passou a ostentar no cabeçalho a designação de “Jornal Independente”, António da Costa Almeida manteve as mesmas funções, tendo agora como redator principal Laureano Lopes Tavares.
Foi assim,“A Semana” (2ª Série), há precisamente 77 anos, o último jornal a ser publicado na Lagoa. Tendo tomado conhecimento com muito agrado da iniciativa da publicação do “Diário da Lagoa”, de imediato saudamos e apoiamos a mesma, fazendo votos do maior sucesso e pondo-nos à disposição dos mentores, oferecendo toda a colaboração que acharem necessária.
Rui Vieira da Câmara
ICPJJT
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