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Cerâmica Vieira: «eu não vejo isto em parte nenhuma do mundo»

“A nossa cerâmica não é uma mera fábrica” , confessa Manuela Vieira, sócia-gerente da Cerâmica Vieira, a mais antiga da ilha de São Miguel. Ela e a irmã, Teresa Vieira, também sócia-gente, gerem o negócio da família que já vai na quinta geração. O Diário da Lagoa esteve à conversa com ambas na fábrica onde “o Homem sonha e a obra nasce”, parafraseando Fernando Pessoa, que conquistou uma medalha de ouro atribuída pela Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica

Teresa e Manuela Vieira lideram a Cerâmica Vieira que foi fundada em 1862 © DL

DL: Todos os anos fazem uma coleção nova. Como é que é o processo criativo?
Manuela Vieira (MV): Vamos criando, vamos vendo, vamos vendo também a necessidade e a procura do cliente e muitas das vezes somos nós a criar.Este ano agora criámos, para o dia 1 de junho, uma coleção de banda desenhada para crianças e adultos, porque os adultos também apreciam muito a banda desenhada e então têm uns conjuntinhos com banda desenhada, com o panda, com o leão, enfim. E o ano passado fizemos o lançamento das peças pintadas a preto, com uma parte no próprio barro cozida e há dois anos fizemos o lançamento das peças todas coloridas, com muita flor, com muita cor e pronto, e mesmo que o lançamento seja feito, por exemplo, na primavera, o verão acaba por nos levar as peças todas. No Natal fazemos também as louças decorativas com motivos de Natal e para os namorados queríamos sempre marcar as datas.

DL: E como é que foi receber esta distinção de medalha de ouro por parte da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica?
MV: Foi com muito orgulho, porque nós não estávamos à espera. Temos consciência plena de que a nossa cerâmica não é uma mera fábrica, não, infelizmente há quem o considere, mas não é. Tem aqui muita cultura, muito património, é porque há mais de um século imenso, 164 anos, sempre a trabalhar, para não falar que vem sempre na mesma família, vai na quinta geração. E chegar aqui, uma associação que nós até desconhecemos, e que nos dá o galardão de ouro em competitividade com outras cerâmicas a nível nacional, é um orgulho, é um reconhecimento do nosso trabalho e bem haja a quem realmente tem olhinhos na cara e vê que realmente somos merecedores de tal prémio.

DL: Como é que foram contactadas?
MV: Passou aqui um equipa desta associação, no inverno passado, e visitamos a fábrica. E como é de costume, nós quando temos uma entidade acompanhamos a visita. E há coisa de um mês atrás recebemos um telefonema, deste mesmo senhor que vem cá, a dizer que tínhamos sido escolhidas, a cerâmica, para ganhar o galardão de ouro de cerâmicas e que seria a entrega dos troféus em Vila Real. E claro, não hesitamos. 

DL: Foram lá as duas a Vila Real?
MV: Sim. 

DL: E como é que foi esse momento?
Teresa Vieira (TV): Foi muito bom, foi uma alegria imensa, as pessoas muito simpáticas, muito acolhedoras. Sentimos um bem-estar mesmo com nós próprias, porque aquilo foi tudo, foi o máximo, com as pessoas ao nosso redor, com a preocupação, com tudo, foi muito bom.

DL: Portanto foi uma cerimónia aberta ao público?
TV: Sim,sim, com muita gente relacionada com a cerâmica.

DL: De todo o país?
TV: Sim, todo o país, todo o país. Foi muito bom, muito bom, muito bom.

DL: E agora quais é que são os vossos desafios neste momento tendo em conta o negócio deste tamanho, o património que ele representa e a importância que tem na Lagoa, na ilha e nos Açores?
MV: O principal desafio é lutar sempre e fazer sempre o que temos vindo a fazer até agora. E mostrar que para além de termos sempre os nossos motivos tradicionais, clássicos, é preciso,  como disse há bocado, inovar, vir, escutar o cliente, perceber o que é que os jovens querem. Porque também temos de abrir o leque aos jovens. Ter sempre o cuidado, o máximo cuidado, em perceber a orgânica aqui da fábrica, se está tudo bem, se não está tudo bem a nível das compras, das despesas, dos lucros, portanto temos de ter muito cuidado. E só assim é que nós podemos ir mantendo o negócio. É ter estes dois ângulos de visão:  não é só ok, agora vou fazer mil e uma coisa, mas é preciso perceber se estas peças vão-te dar um retorno económico, porque se não for assim. 

DL: Não é viável.
Não é viável, claro.

DL: A fábrica, este momento, tem bastante movimento em termos do turismo?
MV: Sim, depois da pandemia passar, foi devagarinho, o turismo foi crescendo e foi equilibrado e agora neste momento podemos dizer que estamos como antes da pandemia.

DL: Em média, quantos turistas é que recebem por dia?
MV: Mais de mil.

DL: Por dia?
TV: Sim. É muita gente que passa aqui.
MV: Sim e vêm de autocarro, outros vêm mesmo por si, vêm de carro, vêm de moto, vêm a pé, de bicicleta, e isto é todo o dia, um vai e vem de pessoas. É muita gente. E depois temos essa coisa que não cobramos entradas, as pessoas entram, estão à sua vontade, são livres de fotografar, de filmar, contactam mesmo com os nossos colaboradores, fazem perguntas, elas também são super simpáticas, claro, sabem isto de trás para a frente e de frente para trás, explicam como é que se faz, como é que não se faz, e as pessoas saem daqui deslumbradas. É um orgulho para nós, depois quando eles chegam aqui à parte da secção de vendas, e eles virem mesmo felizes, contentes, e dizerem, «eu não vejo isto em parte nenhuma do mundo».Porque aqui a gente trabalha como se trabalhava antigamente, modificamos duas coisas apenas que foi a preparação dos barros, que é uma máquina que se prepara, e é a cozedura.

DL: Para o quê?
Dar mais rentabilidade. Enquanto se preparava barros antigamente numa semana, agora consigo preparar num dia, vá lá, dois dias. E as cozeduras, se eu quiser posso cozer dia sim dia não, não digo todos os dias, porque o forno tem que arrefecer, mas se quisermos a gente pode cozer todos os dias, dia sim dia não. Até as ferramentas com que se trabalha, são as mesmas com que se trabalhavam antigamente. Feitas aqui, tudo por nós. E claro, chega aqui o turista, que hoje em dia estamos virados para a tecnologia. (8:09) Chegam aqui e veem a maneira com que nós trabalhámos à mão. Ficam deslumbrados. E nós, claro, orgulhosos de que a visita foi feita com sucesso. E também é preciso que se diga que isto aqui é não só uma mera fábrica, mas também uma fábrica de muita cultura. Temos aqui muita, muita história. E é isso que nem todas as pessoas são capazes de olhar para nós como um centro de cultura.

© DL

DL: A cerâmica é mais do uma fábrica.
MV: É muito mais do que isso. É muito mais do que isso. Há muita história. 

DL: Em termos de história, o que é que destacam aqui? O que é que mais gostam nesta fábrica?
TV: Eu gosto de tudo. Desde a parte dos barros, da pintura, de tudo. Da vidragem, é tudo. Tudo tem uma ligação. E isto, para nós, é ótimo. Há bocadinho estive a preparar barros. Se eu não preparasse os barros, não havia barros para elas poderem trabalhar. 

DL: Então colocam a mão na massa.
TV:  Sim, sim. Estive a preparar barros para elas poderem trabalhar. Portanto, isto é uma ligação contínua. Tintas, vidrados, densidades, viscosidades. Faço mais essa parte. Não quer dizer que eu também não venha ajudar a minha irmã. E ela também, quando é preciso, também vai-me ajudar. Mas a minha parte é esta. É a parte mais interior da fábrica.

DL: Estão dentro do negócio.
TV: Sim, estamos dentro da fabricação. Do início ao fim. Estamos dentro da orgânica, da parte económica. Nós também estamos muito dentro da parte de fabricação.
Nós temos tudo sob controle, todas as secções. Todos os dias vamos ver o que é, o que não é.Tudo está ligado.

DL: Acompanham todo o processo.
TV: Sim, a gente basta passar por um sítio, e vemos que aquilo não está bem. E temos que chamar a atenção daquilo que não está bem. Ou o vidrado ficou mais grosso, ou o vidrado ficou mais alto. Basta a gente passar para ver. Como elas estão ali todo o dia, não dão por isso. A pessoa que vem depois, como não está ali todo o dia, passa ali e nota para aquilo. Mas aqui tudo se ratifica, tudo se faz.

DL: E acham que, pelo fato de serem duas mulheres a liderar uma fábrica, isso dá uma pujança extra ao negócio?
MV: Sim. Fomos habituadas a trabalhar sempre desde muito novas. Lembro-me perfeitamente quando andávamos a estudar ainda no liceu, vínhamos fazer as férias da funcionária das vendas.Fomos sempre muito criadas dentro do negócio. Não houve aquele medo de ficar com o negócio nas mãos. Trabalhámos muitos anos com o meu pai. O meu pai foi um grande professor. A nível de tudo, tanto da parte industrial como da parte económica. Uma pessoa com grande olho para o negócio. Foi uma escola. Pegamos nisso com leveza porque já vínhamos de trás com muita bagagem. E agora, por sermos mulheres e sermos as primeiras destas gerações todas a manter o negócio, é claro que sim. Ainda nos dá mais vontade de assegurar o negócio e de fazer um bom trabalho em relação às gerações anteriores.

DL: Portanto, são as primeiras duas mulheres a liderar a fábrica em cinco gerações?
MV: Sim, sim. Antigamente, mulheres no negócio, esquece.Não havia. O que fundou, não tinha filhos. Era casado, mas não tinha filhos. Veio com uma sobrinha, de Vila Nova de Gaia. Depois essa sobrinha, casa cá já com o nosso bisavô. Do casamento do bisavô, nascem três mulheres. Claro, mulheres, esquece, não vão para o negócio. Mas depois só o meu avô é que ficou sozinho com o negócio. Do casamento dos meus avós, nasce o meu pai e a minha tia. Claro, a minha tia é mulher. Era sócia, atenção, era sócia, mas ficou em casa. O meu pai é que geria o negócio. O meu pai teve três mulheres, filhas. E ele não tinha a que fugir. E pronto, já eram outras épocas. Já se via muitas mulheres à frente de grandes negócios e então, nós ficámos com o negócio. E hoje em dia, pelo aquilo que o meu pai diz, é assim, minhas ricas filhas. 

DL: E o que é que esperam para o futuro?
MV:Muita coisa.
TV:Muita coisa.
MV: Que isto não morra, que tenho a certeza que não vai morrer. Porque há gerações seguintes que também foram criadas aqui. E que têm um certo carinho. E quando é preciso ajuda, eles estão presentes. Temos sempre alguém que nos dá a sua opinião, que nos ajuda. Agora, claro, isto é um negócio que não pode ter a família toda a trabalhar. Estamos nós as duas e depois logo se vê. E também esperamos trabalhar até muito tarde. Dá muita vida. Assim será, Deus quiser.

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