
Maria João Ruivo
Professora e escritora
Por que razão se comemora Camões e a sua obra tantos séculos depois, numa época de tanto desinteresse pela leitura, de tanto desencanto e falta de entusiasmo, ainda para mais tratando-se de um poeta de leitura difícil e exigente?
Não é fácil encontrar resposta para isto. Sem dúvida, um dos segredos dos grandes artistas é a sua intemporalidade, mas não se trata apenas do que se diz. É o modo como se diz que enforma a Arte. Camões, enquanto poeta, reúne em si tudo isto, pois retrata a alma humana, o sentir dos Homens e as suas angústias e reflexões, numa linguagem única que de algum modo se ergue na sua superioridade, fazendo-nos sentir uma enorme admiração.
Camões é um verdadeiro Humanista, homem de múltiplos saberes, que representa bem o espírito do Renascimento, movimento de viragem que trouxe uma série de transformações que influenciaram profundamente a forma como o homem europeu passou a encarar o universo, fruto, em parte, do acesso a novos mundos, realidades e culturas. Essa época apresenta-se como uma importante experiência, que traz à luz novas mundividências e o reconhecimento do Homem como centro do Universo, por oposição ao Teocentrismo medieval, ao mesmo tempo que traz desacertos e desequilíbrios, como é próprio da mudança.
Na sua obra, Camões, como muitos outros poetas e prosadores da época, aborda não poucas vezes este tema, associando-o Ao Desconcerto do Mundo, e mostrando que Tem o tempo sua ordem já sabida;/ O mundo não, mas anda tão confuso,/ Que parece que dele Deus se esquece.*1 Estes versos podiam ter sido escritos hoje.
Na sua conhecida Esparsa (ao desconcerto do mundo), o Poeta apresenta uma reflexão bastante incisiva sobre a inversão dos valores fundamentais, já que, diz ele, os maus são premiados e nadam num “mar de contentamentos” e os bons são punidos, sofrendo “graves tormentos”. Ao refletirmos sobre este nosso mundo, não podemos negar que isto é de uma atualidade indiscutível e coloca a olho nu a injustiça e a desarmonia a que os homens estão sujeitos, sabendo nós que o mundo está longe de ser o que devia, pois nele imperam a corrupção e a falta de escrúpulos, o que gera inúmeras assimetrias e consequentes revoltas, sendo grande a nossa impotência perante aquilo a que assistimos. Aqui recordamos, desse breve poema, que o eu lírico, depois de ter decidido ser mau, buscando ser recompensado, confronta-se com um inesperado castigo, concluindo, ironicamente: (…) Assim que, só pera mim,/Anda o Mundo concertado. Calharia bem, aqui, recordar o soneto “Cá, nesta Babilónia, donde mana”, sendo que a Babilónia representa o mal presente, o caos, a existência terrena – onde o mal se afina, e o bem se dana,/e pode mais que a honra a tirania.- e Sião o passado, o Paraíso, na terminologia cristã, o bem por que todos suspiramos.
No seu bem conhecido soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, Camões aborda o tema da mudança constante e inevitável, mostrando que tudo se altera, até mesmo a confiança, já que as novidades contrariam as esperanças. Numa atitude melancólica, ele expressa o seu desencanto, recordando as mágoas e questionando se teve algum bem na vida.
Expressa, ainda, a ideia de que na Natureza, a mudança tem um caráter positivo, cíclico, de renovação, mas que nele próprio surge sempre para pior, como nos revela o verso: E em mim, converte em choro o doce canto. Esta constatação conduz o poeta a uma atitude de ceticismo, porque sabe que não pode alterar a ordem das coisas, sentindo, então, o desencanto e a angústia.
Este tema, aqui brevemente aflorado, deveria ser, para nós, assunto de reflexão, já que o mundo está numa drástica mudança, de tal modo, que os homens se sentem perdidos, porque o que era válido ontem parece que hoje o deixou de o ser e isso conduzirá rapidamente a um abismo de que não será fácil sairmos.
Muito fica por dizer sobre um assunto tão vasto como este. A Mudança tornou-se tema privilegiado de muitos escritores que, atentos ao mundo que os rodeava, aproveitaram para denunciar os podres, os desacertos, a corrupção dos homens e a forma como as mudanças afetam tudo aquilo que antes era tido como garantia, ao mesmo tempo que a reconhecem como fator fundamental de progresso e de evolução intelectual. Todo o mundo composto de mudanças, e estas atingem inexoravelmente todos os seres, acabando por ser irreversíveis no Homem, revelando a fragilidade e a vulnerabilidade desse bicho da terra tão pequeno. *2
Quando leio Camões, confirmo sempre a sua universalidade e intemporalidade, já que aquilo que ele escreveu é tão válido hoje como o foi na sua época. E estas são, sem dúvida, marcas fundamentais de um grande artista, pois resultam da sua capacidade de reflexão, da argúcia com que observou o mundo e o seu tempo, de forma a aperceber-se daquilo que define o Homem na sua essência.
No fundo, em Camões, a alegria rapidamente se transforma em mágoa, quando confrontada com o mal presente, mas este sentir do Poeta facilmente se universaliza comprovando a ideia de que, para todos nós, o bem é passageiro e o mal depressa lhe toma o lugar:
Um gosto que hoje se alcança
amanhã já o não vejo;
assim nos traz a mudança,
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo. *3
*1 Soneto “Correm turvas as águas deste rio”
*2 Os Lusiadas – Canto I – Estãncia 106
*3 Canção “Sôbolos rios que vão”