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Censura

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Existem vários tipos de Censura e várias formas de se Censurar os outros: a mais comum, nos dias de hoje, de plenidade democrática, de convivência democrática, é a omissão do outro. Esconde-se, varre-se, põe-se para debaixo do tapete a informação que não convém a determinada longitude e a determinado alcance de notoriedade; mete-se num sítio mais “escondido”, mais “tapado”, ou selecionamos o alvo, convenientemente, puxando-o para nós, mas para o Censurar depois – aliciando-o e pondo-o, depois, em convenientes serviços mínimos. Prendendo-o!

Não há uma Censura abertamente declarada em Portugal; hoje, como sabemos, não há um traço azul, de cima a baixo, nem um gabinete específico, mas uma omissão discreta, que é muito pior do que a abertamente declarada, e que passa por entre os pingos da chuva; uma que é realizada por conveniência de serviço, de certa e determinada informação perfeitamente legítima.

Só o facto de, muitas vezes, não haver total abertura e acesso total e independente à informação em tantos órgãos da administração pública, só isso legitima a censura, a propriamente dita, por se barrar, precisamente, o acesso livre, e pleno, previsto na Lei, a documentos administrativos de acesso e de consulta supostamente abertos.

Também se censura se impedimos, por conveniência ou razões políticas ou ideológicas, o natural progresso, e crescimento, de alguém na sociedade ou na opinião pública – e tantas vezes, tanto potencial é deitado fora, ou mesmo desvalorizado, ou até omitido (lá está…) por conveniência e por razões que extravassam completamente o grau desse potencial.

É discriminação – se uns são tratados de forma A e outros tratados de forma B -, certo, mas é também uma forma de se censurar os outros, neste caso o ser humano e o seu potencial.

A Censura não é o habitual “tapar a boca” ou o “impedir que saia”, porque a Censura moderna apurou os seus meios, trabalhou as suas técnicas, para chegar e atingir precisamente os seus maiores alvos de forma silenciosa. A Censura moderna não deixa rasto, não deixa pegadas, é, em si mesma, muitíssimo discreta. A Censura moderna não levanta a voz, nem aparece em público dizendo nada – ela, por si só, é capaz de se esconder e andar entre os pingos da chuva, controlando, por si só, todo o Clima.

A Censura dos dias de hoje não se compadece com os outros – ela, simplesmente, fá-los desaparecer do radar da opinião pública, através dos seus preciosos meios e dos seus disseminados e muitos canais de influência.

Enquanto nós, um pouco por todo o país, e nas Regiões Autónomas, não matarmos, com veneno o veneno, o veneno, ele mesmo, continuará a disserminar-se e a contaminar a opinião pública, levando as massas a pensar de determinada forma e a considerar de determinar maneira; continuará, ela, por técnicas de grande alcance, a castrar a livre comunicação, a transparência, a independência de tantos órgãos, a seriedade de um Estado, escudando-se na magistratura de influência (omissa à grande maioria) que possui, e que distorce até o poder judicial.

Com muita pena minha, não vejo grande alternativa, senão abrirmos os olhos. Combater algo que se esconde, todos os dias, por baixo do seu manto de invisibilidade, e do seu poderoso radar de influência, só se combate com literacia, com a promoção da literacia – a vários níveis -, do conhecimento e com o acesso, difícil, à Verdade.

É dever de cada um de nós, cidadãos, trabalharmos nesse sentido.

Quando o medo se torna política

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

O fascismo é um projeto autodenominado de antissistema que evoluiu, é uma estratégia concertada antidemocrática assente nos ideias históricos que conhecemos – o esqueleto é o mesmo, mas o rosto é outro. Portanto, também ele é em si mesmo um sistema e não um subproduto da esquerda política.
Sociedades marcadas por profundas injustiças tendem a tornar-se perigosamente polarizadas. Quando o topo da pirâmide social é ocupado por uma minoria rica que influencia o poder instalado, já a base — a maioria — é pobre e invisível, e entre ambos há uma classe média frustrada, o modelo de organização social está em risco.

É nesse contexto que surgem os messias a prometer poder e segurança, encontrando um público com vontade para os patrocinar e garantir vitórias eleitorais.

Fala-se de populismo, mas a realidade revela expressões de fascismo, ainda que mascaradas, fruto da evolução social dos relacionamentos, comunicação e ação. O núcleo do ideal fascista mantém-se: opressão de classes; sobre-exploração laboral; submissão das mulheres; discriminação de minorias; afirmação do racismo e da xenofobia; promoção disciplinada do ódio, entre outras.

O fascismo rejeita a crítica e a ciência para neutralizar a contestação, alimentando-se da emoção, do dogma e da obediência. Apela ao medo, ódio e nostalgia de um passado fantasiado. Simplifica a realidade com slogans, mitos e teorias da conspiração. Explora preconceitos sociais, sobretudo na classe média, transforma minorias em bodes expiatórios e cria uma identidade coletiva com base num inimigo comum. Ao apontar grupos específicos — RSI, imigrantes — como responsáveis por problemas sociais, aplica a velha estratégia de “dividir para conquistar”.

A instabilidade – desde a precariedade laboral e habitacional, à insegurança – cria medo e isola as pessoas, toldando-lhes a visão e a apreciação objetiva do que se passa.

Apesar das dinâmicas fascistas, persiste uma inquietante complacência com o seu avanço. Paradoxalmente, é o sistema democrático — que combatem — que lhes garante o direito de se manifestarem, mesmo através de discursos de ódio, interpelações misóginas ou cartazes xenófobos, como se a democracia aceitasse tudo.

As redes sociais têm contribuído para a disseminação das ideologias e o modo de disputa do poder. O fascismo adaptou-se ao ecossistema digital, usando as ferramentas de envolvimento das redes sociais para ganhar tração.

No ambiente digital, o discurso de ódio, o alarmismo e as notícias falsas prosperam porque criam envolvimento emocional. Títulos sensacionalistas, narrativas enganosas e teorias da conspiração espalham-se mais depressa do que relatos factuais ou análises complexas. Nesse ecossistema, as redes sociais transformaram-se em poderosas armas de desinformação e normalização do despotismo.

A concentração da tecnologia nas mãos de privados com ideais totalitários – Musk, facilita a propagação e a normalização da matriz fascista. Daí que seja difícil perceber o caminho que muitos estão a fazer, sem prejuízo da conversadora imagem do fascismo de 1930.

Assiste-se à “ditadura do algoritmo”: as infraestruturas digitais são instrumentos de engenharia social ao serviço do poder. Urge democratizar o espaço digital.

Um pastor encontra um grupo de ovelhas assustadas e avisa-as de que o lobo anda por perto. Oferece-se para as proteger: dá-lhes um pasto viçoso e um estábulo. As ovelhas sentem-se tranquilas. O que não sabem é estão a ser engordadas para servir o pastor.

Núcleo de Estudantes de Relações Públicas celebra 20 anos com visita ao Parlamento Europeu

No âmbito das comemorações das suas duas décadas de existência, o NURP realizou uma deslocação institucional à capital belga a convite do eurodeputado André Franqueira Rodrigues, levando universitários açorianos ao coração da democracia europeia

© NURP

O Núcleo de Estudantes de Relações Públicas e Comunicação (NURP) da Universidade dos Açores assinalou o seu 20.º aniversário com uma visita ao Parlamento Europeu, em Bruxelas. Segundo nota de imprensa enviada pela organização à redação do Diário da Lagoa, esta deslocação concretiza uma ambição traçada desde a génese do projeto, permitindo a uma comitiva composta por membros do núcleo e alunos convidados uma imersão direta nos bastidores do poder legislativo europeu. A viagem, que surge num momento de maturidade da organização, foi viabilizada através de um convite endereçado pelo eurodeputado André Franqueira Rodrigues.

Para o presidente do NURP, Vítor Rigueira, a passagem pela capital da União Europeia reveste-se de um simbolismo profundo para a história do grupo. “Celebrar 20 anos em Bruxelas é o culminar de um projeto sonhado desde a nossa fundação. Esta oportunidade, gentilmente viabilizada pelo Eurodeputado André Franqueira Rodrigues, permitiu-nos elevar o prestígio da nossa organização e oferecer-nos uma visão privilegiada sobre o futuro da Europa”, destaca o dirigente. A agenda da comitiva não se esgotou no hemiciclo, incluindo passagens pelo Museu da Segunda Guerra Mundial e uma exploração do património histórico de Bruxelas, elementos que reforçaram a componente formativa da missão.

O impacto da experiência entre os jovens participantes foi notório, com vários estudantes a sublinharem a importância de conhecer in loco os mecanismos de decisão que moldam o continente. Julia Félix descreveu a vivência como uma “visão renovada” da cidadania, enquanto Hulda Duarte classificou a observação do funcionamento da União Europeia como algo que “se deveria ver pelo menos uma vez na vida”. No plano académico, Daniela Costa reforçou que conhecer um espaço tão central para a política internacional foi “incrível” e enriquecedor. Mesmo para quem não estuda política diretamente, como é o caso de Julia Belo, a visita permitiu “ver ao vivo artigos históricos que estudamos na sala de aula”, provando a transversalidade desta iniciativa.

A componente histórica, particularmente a visita ao museu, mereceu elogios rasgados de Roena Medeiros e Laura Medeiros, que destacaram a forma envolvente como a história da Europa é ali retratada. Por sua vez, Edna Ferreira salientou o privilégio que esta oportunidade representa para os jovens açorianos, dada a descontinuidade territorial. O balanço final, partilhado por Maria Silva, fundiu a aprendizagem institucional com o espírito de grupo, fator essencial no associativismo. Após o sucesso desta missão em Bruxelas, o NURP já olha para o futuro com novas metas, mantendo a ambição de visitar brevemente a Assembleia da República e a Assembleia Legislativa Regional dos Açores, reforçando o seu papel de ponte entre a juventude e os centros de decisão política.

A liberdade que constrói futuro

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Há uma reflexão que gosto de fazer sempre que chega Abril: o que estamos a fazer com a liberdade que recebemos?

Falamos muitas vezes do 25 de Abril como um marco da nossa história e é. Foi o momento em que o país teve a coragem de mudar, de escolher a democracia e de abrir caminho para que cada pessoa pudesse decidir o seu próprio destino.

Mas a liberdade não vive apenas no passado. A liberdade pede presença. Pede cuidado. Pede responsabilidade.

Nos Açores, essa conquista teve um significado ainda mais profundo. Com a liberdade chegou também a Autonomia, a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, de olhar para as nossas ilhas com os nossos próprios olhos, de assumir, com maturidade e sentido de responsabilidade, o rumo do nosso futuro.

Mas, não tenhamos ilusões, a Autonomia foi, acima de tudo, uma conquista. Não nasceu num dia, nem foi um dado adquirido, foi construída com tempo, com coragem e com muita persistência. Foi o resultado de uma luta longa, feita de vozes que não se calaram, de pessoas que resistiram e de um Povo que nunca deixou de acreditar em si. Foi essa caminhada, tantas vezes difícil, que nos trouxe até aqui. E foi também a afirmação de que saberíamos cuidar da nossa terra, valorizar o que é nosso e construir um caminho com identidade própria.

Ao longo destes anos, fomos crescendo enquanto região. Fomos consolidando instituições, afirmando a nossa voz e construindo uma identidade que hoje é reconhecida e respeitada dentro e fora do país.
Mas há algo que nunca podemos esquecer: a liberdade não é uma obra acabada.

A liberdade constrói-se todos os dias.

Constrói-se quando as pessoas sentem que o seu trabalho tem valor.

Quando os jovens acreditam que podem ficar nas suas ilhas e ali construir a sua vida, com dignidade e esperança. Quando as comunidades se juntam, não para desistir perante as dificuldades, mas para as transformar em oportunidades, com confiança no futuro.

Talvez seja por isso que eu acredite tanto nas pessoas da nossa terra.

Acredito nos agricultores que continuam a trabalhar mesmo quando o caminho é difícil. Nos jovens que arriscam, que inovam, que insistem em criar algo novo. Nas comunidades que cuidam umas das outras e que mantêm viva a essência das nossas ilhas.

Os Açores sempre foram feitos desta força. Desta resiliência que não faz ruído, mas que nunca cede. De gente que não espera que os caminhos apareçam, mas sim, de gente que os constrói, todos os dias.
Mas construir futuro exige mais. Exige visão, responsabilidade e, sobretudo, coragem para acreditar no potencial da nossa terra e do nosso Povo. Exige também escolhas, compromisso e a capacidade de não desistir perante os desafios.

E nós temos razões para acreditar.

Temos recursos únicos, uma ligação profunda à nossa terra e comunidades que sabem o valor de caminhar juntas. Temos uma identidade que nos distingue e que nos dá força.

O verdadeiro desafio está em transformar esse potencial em oportunidades reais, oportunidades para trabalhar, viver e criar família nas nossas ilhas, com qualidade de vida e estabilidade.

A vida tem-me ensinado que o verdadeiro valor das coisas raramente está no que é mais complexo. Está no que é verdadeiro: no respeito pela terra, no cuidado com a vida e na capacidade de caminharmos juntos.

É por isso que continuo a acreditar profundamente nos Açores.

Acredito num arquipélago que valoriza quem trabalha. Que cria oportunidades para os seus jovens. Que preserva a sua identidade sem deixar de olhar para o futuro.

Mais de cinquenta anos depois do 25 de Abril, a liberdade continua a ser um convite.

Um convite para participarmos mais. Para cuidarmos melhor do que é nosso. Para acreditarmos que o futuro não está escrito, constrói-se.

E constrói-se todos os dias, com trabalho, com confiança e com esperança.

Porque, no fundo, somos isso mesmo: um Povo feito de raízes e de sonhos.

Raízes que nos prendem à terra, à nossa história e às pessoas que vieram antes de nós.

E sonhos que nos empurram para a frente, lembrando-nos que a liberdade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando nos dá coragem para continuar a construir, com responsabilidade e com esperança, o futuro dos Açores.

Autonomia açoriana: 52 anos de liberdade e responsabilidade democrática

Márcia Goulart
Deputada pelo PSD na ALRAA

Falar da realidade política dos Açores é falar de liberdade, de identidade e de responsabilidade coletiva. Cinquenta e dois anos após o 25 de Abril de 1974, o regime político-administrativo próprio da Região afirma-se como uma das mais relevantes conquistas democráticas do arquipélago e como expressão concreta do direito dos açorianos a decidirem sobre o seu próprio destino.

Durante grande parte da sua história, as ilhas viveram sob um modelo fortemente centralista, em que decisões fundamentais eram tomadas a milhares de quilómetros de distância, muitas vezes sem conhecimento da realidade insular. A distância geográfica agravava desigualdades, atrasava respostas e limitava a participação cívica, apesar do papel estratégico do arquipélago no contexto nacional e internacional.

Foi neste enquadramento que a Revolução de 25 de Abril de 1974 representou uma rutura decisiva, ao pôr fim a um regime autoritário e devolver aos portugueses direitos fundamentais como a liberdade de expressão, de associação e de escolha política.

O sinal radiofónico que confirmou o avanço da Revolução, a eterna e reconhecida canção Grândola, Vila Morena, tornou-se símbolo maior da igualdade e da democracia.

Para os Açores, o 25 de Abril significou mais do que uma mudança de regime: abriu caminho ao reconhecimento político da sua especificidade. O modelo regional próprio nasce, assim, da liberdade conquistada com a democracia e consolida-se como um aprofundamento do Estado de Direito, reforçando a coesão nacional através do respeito pela diversidade territorial.

Liberdade, voto e maturidade democrática

A criação de instituições regionais permitiu que os açorianos passassem a decidir sobre áreas fundamentais como a educação, a saúde, os transportes, o ordenamento do território e o desenvolvimento económico. Esta capacidade de decisão só é plenamente efetiva porque assenta na liberdade de voto. É através do sufrágio livre que os cidadãos escolhem quem governa, avaliam projetos políticos distintos e determinam o rumo coletivo da Região. A alternância democrática constitui uma das provas mais claras da maturidade do sistema político regional. Sem voto livre e informado, este regime seria apenas uma estrutura formal.

Neste contexto, a atual governação regional, liderada por José Manuel Bolieiro, resulta de uma escolha democrática dos açorianos e traduz essa maturidade institucional. A formação de um Governo Regional de Coligação demonstrou que o poder político nas ilhas pertence aos cidadãos e não a um único projeto partidário.

Coesão europeia, inclusão e futuro comum

O modelo político regional afirma-se também no plano europeu. Enquanto Região Ultraperiférica, os Açores dependem de uma Europa cooperativa, solidária e atenta às desigualdades territoriais. A relação com a União Europeia tem sido determinante para mitigar os efeitos da ultraperiferia, através das políticas de coesão, do apoio ao desenvolvimento económico, da modernização das infraestruturas, da valorização da agricultura e das pescas e do investimento na inovação e na transição climática. Mais do que apoio financeiro, a Europa representa um espaço político onde a Região pode afirmar a sua especificidade e participar ativamente na construção de soluções comuns, reforçando a coesão social e territorial.

A consolidação da democracia regional não pode ser dissociada do alargamento efetivo dos direitos políticos a toda a sociedade. A participação ativa das mulheres na vida política é uma expressão essencial da liberdade conquistada com o 25 de Abril. A igualdade de género na representação política, consagrada através da Lei da Paridade, deve ser entendida como um direito fundamental e um instrumento de justiça democrática, garantindo igualdade de oportunidades no acesso aos espaços de decisão e reforçando a legitimidade das instituições. A liberdade de expressão, pilar essencial do regime democrático, exige pluralismo, diversidade de vozes e inclusão.

A afirmação política e institucional da Região celebra-se a 9 de junho, Dia da Região Autónoma dos Açores, data que assinala a instalação da Assembleia Regional em 1976. Este momento de identidade coletiva é marcado pela execução do Hino dos Açores, símbolo da história, da cultura e da coesão do arquipélago, ligando o passado de luta democrática ao presente de responsabilidade política.

Assinalar 52 anos de liberdade é reafirmar o compromisso com a democracia, com o voto, com a igualdade e com um modelo de governação que respeita as especificidades das ilhas. Persistem, no entanto, desafios que exigem governação responsável e participação cívica consciente.

Este regime político próprio não é um ponto de chegada, mas um caminho permanente. Um caminho que se renova todos os dias no exercício da liberdade conquistada em abril, nas urnas, nas instituições e na capacidade dos açorianos decidirem, livremente, o seu próprio futuro.

Como parafraseou Antero de Quental, fiel ao seu pensamento: “Pensar livremente é o primeiro ato de soberania”.

HDES elimina infeções graves nos Cuidados Intensivos e poupa mais de 439 mil euros

O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) alcançou resultados históricos na segurança do doente entre 2022 e 2025, conseguindo erradicar as bacteriemias por cateter na UCI e evitar a perda de 24 vidas através do projeto STOP Infeção 2.0

Sónia Carreiro (à esq.) – Enfª da Unidade Local do PPCIRA ; Ana Cristina Pimentel (ao centro) – Diretora dos Serviços Farmacêuticos do HDES; Verónica Amaral (à dtª) – Enfª coordenadora da Unidade Local do PPCIRA © HDES

O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, deu um passo decisivo na vanguarda da segurança hospitalar ao apresentar, no passado dia 13 de abril, o balanço final do projeto STOP Infeção 2.0. Segundo uma nota de imprensa enviada pela instituição hospitalar às redações, a unidade de saúde açoriana conseguiu eliminar totalmente as bacteriemias por cateter na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) entre 2022 e 2025. Este esforço de melhoria contínua não só elevou os padrões clínicos para níveis superiores à média nacional, como permitiu evitar 141 casos de infeção no triénio, traduzindo-se numa poupança direta de 439 mil euros para os cofres públicos da região.

O sucesso da iniciativa, que se enquadra no Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA), assenta na aplicação da metodologia “Planear-Fazer-Estudar-Agir”. O desempenho mais notável foi registado na UCI, onde a taxa de incidência de bacteriemia associada a cateter venoso central caiu de 2,72% em 2022 para uns absolutos 0,00% nos últimos dois anos. No mesmo período, as infeções urinárias associadas a cateter baixaram 66,5% e as pneumonias associadas à intubação reduziram cerca de 45%. Mais do que estatísticas, estes números representam um impacto humano profundo, com a estimativa de 24 mortes evitadas graças à adoção de protocolos rigorosos, como o uso sistemático de checklists e a padronização de procedimentos clínicos.

Para além de salvar vidas, a eficiência do projeto STOP Infeção 2.0 refletiu-se na gestão de recursos, libertando 1.464 dias de internamento que seriam consumidos por complicações hospitalares. Este resultado é particularmente significativo dado que foi alcançado num período de grandes desafios organizacionais e escassez de recursos humanos, culminando no reconhecimento público dos resultados na Alfândega do Porto. A nota de imprensa do HDES sublinha ainda que a adesão total dos profissionais de saúde aos novos protocolos foi o fator determinante para consolidar esta cultura de segurança, reafirmando o compromisso da maior unidade de saúde dos Açores com a excelência dos cuidados prestados aos utentes.

Torre da igreja da Ribeira Chã vai ser reconstruída

© CM LAGOA

O município da Lagoa aprovou um apoio à paróquia de São José para a reconstrução da torre da igreja de São José, na Ribeira Chã. Este investimento está inserido nas medidas de apoio a atividades de interesse municipal, de natureza social, cultural, desportiva, recreativa, educacional e outras.

Neste âmbito, foi assinado um contrato-programa entre o presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, e o pároco da Ribeira Chã, padre João Furtado. Este contrato, de 27,500 euros, incluiu o apoio financeiro para o desenvolvimento da festa religiosa anual da freguesia e a reparação da torre da igreja, que se encontra num nível avançado de degradação.

Inaugurada em 1967, a igreja de São José foi edificada após a chegada do padre João Caetano Flores à freguesia da Ribeira Chã, em 1956, sendo uma obra que resultou da persistência e esforço dos seus paroquianos, do pároco e das entidades oficiais. Projetada pelo arquiteto Eduardo Read Henriques Teixeira, o edifício religioso apresenta um estilo moderno, que traduz a inovação e a intemporalidade do seu autor.

Além disso, a igreja de São José está classificada como imóvel de interesse público, com uma área de delimitação classificada e respetiva zona de proteção de 50 metros, caracterizando-se pelo seu conceito modernista, onde se pode constatar, uma certa imaterialidade religiosa.

Karaté açoriano no nacional de formação em Albufeira

© CM LAGOA

A Associação de Karaté dos Açores (AKA) vai marcar presença no campeonato nacional de Karaté para os escalões de formação — infantis, iniciados e juvenis — que se realiza nos dias 2 e 3 de maio, no pavilhão desportivo municipal de Albufeira.

A representação açoriana será assegurada por três clubes filiados na AKA, nomeadamente o Clube de Karaté-do Shotokan de Angra do Heroísmo (CKSAH), o Clube de Karaté-do Shotokan da Horta (CKSH) e o Clube de Karaté Shotokan da Povoação (CKSP). No total, a comitiva contará com vinte e um atletas, distribuídos por vários escalões etários, que irão competir nas disciplinas de kata e kumite.

Integram a equipa os atletas Madalena Antunes, Francisco Costa, Tiago Pontes, Carminho Laranjeira, Mateus Pimentel, Mariana Pires, Clara Antunes, Vicente Lima, Teresa Fraga, Duarte Rico, Henrique Silva, Joana Castro, Maria Santos e Simone Resendes (CKSAH), Maria Cruz e Núria Peixoto (CKSH), e Francisca Magalhães, Matilde Pacheco, Laura Medeiros, Marcos Sousa e Santiago Cabral (CKSP).

A comitiva açoriana será acompanhada pelos treinadores André Garcia, João Castro, Luís Castro, Marco Maciel e Vítor Pereira, que assegurarão a orientação técnica dos atletas nesta participação fora da região.

A prova é organizada pela Federação Nacional de Karaté de Portugal e reúne os melhores atletas nacionais destes escalões, constituindo um momento de elevado nível competitivo.

A participação açoriana resulta do apuramento regional realizado no passado dia 28 de fevereiro, no concelho da Lagoa, refletindo o trabalho desenvolvido pelos clubes e pela AKA na formação e desenvolvimento desportivo dos jovens praticantes.

Diretor do Museu das Flores destaca identidade, memória histórica e papel da ilha na hospitalidade e abertura ao mundo

Luís Filipe Vieira salientou o papel do museu como guardião da memória coletiva e motor de desenvolvimento local, sublinhando que a ilha das Flores combina segurança, património, natureza e uma tradição histórica de acolhimento que continua viva nos dias de hoje

Luís Filipe Vieira, diretor do Museu das Flores © DIÁRIO DA LAGOA

O diretor do Museu das Flores, na ilha das Flores, nos Açores, Luís Filipe Vieira, considera que a missão da instituição ultrapassa largamente a preservação de objetos e documentos históricos, assumindo-se como um espaço vivo ao serviço da comunidade e do desenvolvimento local. O responsável afirmou que o Museu das Flores é “essencialmente um museu da História da ilha e das suas gentes”, funcionando como instrumento de valorização identitária e também de atração de visitantes.

Em declarações ao Diário da Lagoa, Luís Filipe Vieira, diretor do museu desde 2001, refletiu sobre o papel da instituição, a evolução histórica da ilha açoriana, os desafios da insularidade e o futuro do território, deixando também um convite a quem ainda não conhece a ilha: visitar um lugar marcado pela paisagem, tranquilidade e hospitalidade.

Segundo explicou, o museu permite “fixar valores identitários e práticas históricas já caídas em desuso”, mas também usar esse património “em benefício do presente”, ajudando a captar turismo e a mostrar aquilo que distingue a ilha no contexto açoriano e europeu: “Nada melhor do que a nossa história e aquilo que nos difere dos outros”, sublinhou.

Para Luís Filipe Vieira, o conceito de comunidade deve ser entendido de forma ampla, abrangendo não apenas os residentes permanentes, mas também quem visita temporariamente a ilha.

Temos a perspetiva do museu ao serviço da sua comunidade e aqui entendemos como comunidade os que cá estão e aqueles que temporariamente partilham a sua existência connosco”, afirmou.

Ao longo do ano, o museu promove iniciativas dirigidas a públicos muito diversos, desde crianças a adultos, numa estratégia de formação de novos públicos e de ligação ao território. O diretor destacou atividades para os mais novos, concertos, exposições de fotografia e pintura, conferências e visitas de campo, explicando que o museu só faz sentido se a população se rever no seu trabalho.

Se eles não nos acharem nenhum préstimo, seremos apenas um armazém de coisas velhas e era isso que eu gostava que o museu não fosse”, declarou.

Questionado sobre a identidade florentina, Luís Filipe Vieira descreveu a população da ilha como resultado de séculos de cruzamento de povos e culturas.

Quem somos? Uma amálgama”, resumiu, recordando que às Flores chegaram gentes do território continental português, flamengos, italianos, espanhóis e também contingentes africanos escravizados nos primeiros tempos do povoamento.

Essa mistura, defende, ajudou a moldar uma cultura aberta ao exterior e marcada pela hospitalidade. Citando antigas referências históricas, lembrou que já no século XVI se reconhecia aos florentinos a capacidade de acolher quem aqui chegava em dificuldade:

Uma das características que ele refere para este povo é que gostavam muito de agasalhar aqueles que aqui aportavam”, assinalou, numa alusão às descrições do cronista açoriano Gaspar Frutuoso.

O nosso entrevistado recordou ainda que a ilha das Flores foi durante séculos ponto de passagem de rotas marítimas entre a Europa, África, Oriente e Américas, acumulando uma herança náutica singular.

As Flores são um santuário da Arqueologia Subaquática”, afirmou, defendendo que essa riqueza histórica representa uma valência com grande potencial futuro “quer para a história, quer para o turismo e para a própria comunidade”.

Sobre a modernização da ilha, Luís Filipe Vieira entende que o século XX chegou tardiamente às Flores, apontando o ano de 1966 como momento decisivo, com a instalação de uma estação francesa no âmbito de acordos internacionais. Segundo explicou, foi esse processo que trouxe melhorias estruturantes, como o aeroporto, novas estradas, hospital e reforço energético.

Apesar do atraso histórico, mostra-se confiante quanto à evolução recente da ilha, sobretudo em matéria de acessibilidades e telecomunicações.

Eu sou um otimista. Eu acredito que as coisas avançam, podem não avançar à velocidade que nós queremos, mas as coisas têm melhorado”, referiu. Como exemplo, recordou que há quatro décadas existiam apenas dois ou três voos semanais, enquanto hoje existem “dois ou três diários, já nesta altura do ano”.

Também a chegada da fibra ótica e o acesso digital alteraram profundamente a realidade local.

Hoje, nas Flores, quem quiser estará tão bem informado e terá uma noção tão objetiva quanto possível da realidade, como quem esteja noutro centro qualquer”, sustentou.

Ao descrever a vivência atual na ilha, o diretor destacou a serenidade social e a qualidade de vida como marcas distintivas.

As Flores, as suas gentes, sempre foram características de gente calma, serena, ponderada”, disse, acrescentando com humor que tem “um amigo que diz que padece de stress por não ter stress nesta ilha”.

Para quem chega de fora, Luís Filipe Vieira acredita que a principal surpresa é encontrar um território seguro, acolhedor e de enorme valor natural.

Encontram uma ilha com aquilo que eu acho que hoje em dia não tem preço, que ainda é uma segurança enormíssima. Você vai na rua e ninguém o vai roubar, ninguém vai fazer-lhe qualquer tipo de mal”, afirmou. A isso junta-se uma “paisagem fantástica”, que considera um dos maiores ativos florentinos.

Questionado sobre o futuro, preferiu prudência, reconhecendo que a velocidade da mudança tecnológica torna arriscadas previsões concretas. Ainda assim, deixou uma certeza.

Tenho a certeza que daqui a 30 ou 40 anos, quando eu já cá não estiver, será de certeza melhor do que é hoje”, enfatizou.

No plano migratório, Luís Filipe Vieira mostrou-se convicto de que a tradição de acolhimento permanece intacta.

Eu penso que essa gente será sempre bem-vinda nesta ilha”, afirmou.

O responsável recordou várias fases históricas de chegada de pessoas vindas do exterior, desde escravizados africanos aos franceses dos anos 1960, passando por trabalhadores oriundos de países africanos de expressão portuguesa nos anos 1980, afirmando que “uma boa parte deles casaram, estão perfeitamente integrados na comunidade e não se foram embora”.

Na mensagem final dirigida a quem pondera visitar a ilha, o diretor do Museu das Flores reconheceu que os custos de deslocação, alojamento e alimentação ainda constituem um obstáculo.

Tenho plena consciência que vir às Flores não é uma tarefa barata”, admitiu.

Ainda assim, acredita que a experiência compensa largamente.

Se encontrarem algumas dificuldades nos custos, outras coisas vão compensá-los, nomeadamente a segurança e a paisagem que é fabulosa”, sustentou.

Luís Filipe Vieira concluiu com um apelo simples e direto: “Nós também somos gente relativamente simpática e acolhedora, penso que valerá sempre a pena uma visita à ilha das Flores”, finalizou.

Obra de beneficiação do ramal do Porto Formoso concluída

© SRTMI

Prometida para 2022 e posteriormente adiada a conclusão para 2024, está concluída a empreitada de beneficiação do ramal do Porto Formoso, na Ribeira Grande, obra promovida pela Direção Regional das Obras Públicas, da tutela da Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas.

A intervenção teve início com a execução de trabalhos preparatórios, que incluíram o reperfilamento de lancis e a melhoria da drenagem existente, tendo posteriormente avançado para a pavimentação da via.

Com um investimento aproximado de 143 mil euros, a obra englobou a reabilitação do pavimento em dois troços do ramal do Porto Formoso, numa extensão total de cerca de um quilómetro.

Os trabalhos incluíram a regularização das deformações existentes no pavimento, com a aplicação de uma nova camada de desgaste em betão betuminoso com 0,05 metros de espessura.

No troço inserido na zona urbana foi aplicada uma camada de desgaste em microbetão betuminoso, com 0,035 metros de espessura, adequada às especificidades do contexto urbano.

Para além da pavimentação, a empreitada contemplou ainda a execução de sinalização horizontal, nomeadamente a marcação do eixo da via com pintura termoplástica a quente, contribuindo para a melhoria das condições de segurança e conforto dos utentes.