
Comecei por pensar qual teria sido o evento mais marcante no mês de Janeiro para o privilegiar nesta crónica. Vieram-me de imediato à lembrança os dramas de Paris: a execução de cartoonistas e de jornalistas no Charlie Hebdo, de polícias também, e depois de judeus, no supermercado kosher…
Mas lembrei-me também das recentes eleições gregas com a vitória da esquerda radical ainda há poucos meses assumidamente contra o euro e contra a União Europeia, ao mesmo tempo que sem recursos nem para pagar ordenados sem o apoio de financiamento externo. Qual o impacto das relações da actual Grécia com a Europa, esta União de que fazemos parte e que condiciona e modela as nossas vidas, o nosso quotidiano…?
Lembrei-me ainda da celebração dos 70 anos da libertação de Auschwitz, um testemunho perene da crueldade que o Homem é capaz de infligir ao seu semelhante, quando hoje há quem pretenda negar a existência de campos de extermínio para os que entre iguais eram separados como diferentes.
Optei ficar pelos eventos que mais directamente interpelam os nossos valores por considerar que são estes que formatam a nossa interpretação da realidade. A leitura que fazemos dos eventos de Paris, como a narrativa que contamos das acções nazis, dependem dos valores que partilhamos e, simultaneamente, condicionam a evolução desses valores.
Os valores sociopolíticos e também morais que estruturam as nossas sociedades democráticas são os dos Direitos do Homem que contemplam a liberdade individual e condenam toda a forma de opressão e coação. Eles enraízam-se fortemente nos crimes nazis e assumem-se como meios de prevenir a sua repetição, o que lamentavelmente não têm conseguido: o genocídio continuou a acontecer, no Rwanda como na Bósnia, entre outras regiões do mundo; a disposição da pessoa como mero objecto descartável em função dos objectivos de alguns repete-se em todos os actos de terrorismo como hoje na actividade quotidiana de organizações como o Boko Haram ou o Estado Islâmico.
Mas o facto das atrocidades humanas se perpetuarem, mesmo que sob novas roupagens, não deve nem pode esmorecer a nossa condenação total e absoluta, sem qualquer “mas”. Todos os eventos têm contextos, mas muitos não são desculpabilizadores. Há acções más em si mesmas que circunstâncias podem explicar mas não justificar. E perante o que é absolutamente mau a nossa condenação não pode ser titubeante, não pode ter hesitações ou atenuantes. Tem de ser absoluta também.
Era o que parecia estar a acontecer imediatamente após os actos terroristas de Paris. Mas o seu rescaldo revelou-nos uma outra realidade, marcada pelo relativismo que hoje vai contaminando a nossa visão do real como a nossa interpretação da vida. Sob o pretexto de “provocação”, um termo de conotação negativa, tentou-se contextualizar e, assim, não só explicar mas justificar o mal perpetrado no Charlie Hebdo. E no supermercado kosher? A “provocação” desculpabiliza também? Quem tem autoridade para classificar o que é provocador? E não é verdade que o que provoca uns não provoca necessariamente outros…? E qualquer um que se sinta provocado pode reagir violentamente? Afinal, sabemos que temos sensibilidades diferentes em relação ao que consideramos provocador e sabemos que temos meios não violentos para contrariar as provocações…
Condenar as execuções terroristas mas mitigá-las no contexto e pretexto da “provocação”, como tem vindo a ser feito, é cair no relativismo no seio do qual tudo pode valer de acordo com as circunstâncias. Esta é uma via perigosa que pode abrir a porta a qualquer acção justificada por uma qualquer interpretação. Não! Há acções que só podem ser absolutamente condenadas e esta crónica fala delas.
Patrão Neves
Professora Universitária
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