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O bonito estava muito bom

João Octávio Lima na sua oficina, dezembro de 1982 © D.R.

Estes tempos de céus carregados de núvens, de árvores vergadas pelo vento e de mar encapelado, fazem-me recordar um jantar em casa dos meus avós paternos.

Era uma noite escura, muito mais escura do que o habitual. Tinha havido um apagão em toda a vila e a trémula chama do candeeiro a petróleo iluminava a cozinha. O assobiar do vento numa frincha teimosa cobria o tinir dos talheres. Apreciava-se um bonito assado no forno a lenha. A minha mãe comprara-o, de manhã cedo, a um par de vendilhões que, a pé, apregoavam ‘eh peixe grado e fresco’, governara-o, recheara-o e assara-o no final da cozedura do pão de milho. Uma delícia, acompanhada com batatas cozidas de alho e pimenta, e empurrada com vinho de cheiro. O pão ensopado no molho de vilão rematava o pitéu.

No tempo do Cordeiro, a luz não falhava tantas vezes como agora, dizia o meu avô, testemunha da implantação da iluminação pública em S. Miguel. Estava dado o mote ao tema de conversa do serão com recordações de um passado quase sempre pouco risonho, estimulada por perguntas que eu lhe fazia para tentar situar-me nas épocas que ele descrevia.

Nascido nos últimos anos do século XIX, o meu avô cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos. Cedo descobriu que tinha de desenvolver competências necessárias para poder ser autónomo e sobreviver em tempos sempre difíceis para os mesmos do costume. Atravessou os conturbados tempos da implantação da República, da Primeira Guerra, do Estado Novo, da Segunda Guerra, períodos de grande contenção económica e repressão política. Ainda novo, quando não conseguia arranjar trabalho como pintor, construía bandolins, guitarras e violões, que depressa desapareciam nas mãos de músicos amadores e de emigrantes radicados nos arredores de Boston e New York. Mais tarde, perante a escassez de trabalho, reparava máquinas de pianos e afinava-os, restaurava órgãos de igreja, melódios e acordeões. Nos tempos livres, repintava portas e janelas das nossas casas geminadas, subia ao telhado para desobstruir uma caleira ou repor uma telha levantada por um golpe de vento e que provocava uma pinga, desmontava uma fechadura, limpava-a, oleava-a e, sorridente, contemplava-a como nova. Várias vezes usou o seu pequeno torno para, a partir de galhos selecionados de laranjeira, araçazeiro ou nespereira, me fazer piões que irritavam solenemente os meus companheiros de escola e de rua por serem tão duros que enxotavam os ataques dos ferrões dos piões deles.

O serão prolongou-se por não haver trabalho no dia seguinte. Continuava a ouvir-se o bramido do mar e o tamborilar da chuva. O meu avô já ia no seu segundo Santa Justa sem filtro e a restante família bebericava o vinho abafado fabricado pela minha avó e pela minha madrinha. Bem disposto, relembrou um episódio muito divertido protagonizado por um amigo músico de Ponta Delgada.

Chamemos-lhe Faustino. Músico amador residente em Ponta Delgada, passeava o seu violoncelo e o seu contrabaixo debaixo do braço com muita elegância e sem qualquer dificuldade. Uma vez aparecera em casa do meu avô para ele o consertar. Acontecera que, depois de uma festa numa igreja, o sr Faustino acompanhara o coro à sacristia, onde fora servido um refresco, com laranjadas, vinho do Porto, bolinhos, massa sovada e figos passados. De tudo provara e apreciara o sr Faustino e mais guardara no bojo do contrabaixo, através de cujos éfes no tampo introduzira sorrateiramente figos e fatias de massa sovada. Na euforia do regresso a casa, cedo se esquecera de retirar o surripanço resguardado no instrumento. A massa sovada e os figos tinham criado bolor e a humidade concentrada fizera descolar as ilhargas junto ao pé do contrabaixo. Contava o meu avô que fora o conserto mais divertido que fizera na sua vida.

E assim se passavam alguns serões em família naquelas tenebrosas noites de outono e inverno na Lagoa de meados dos anos 60.

Comentários

  1. avatar Rosa Teorgas 17-12-2023 21:51:47

    Um relato pormenorizado de acontecimentos passados que a memória recorda.