
Está sol, não há nuvens e a equipa de reportagem do Diário da Lagoa (DL) tem destino marcado rumo a uma das outras pontas da ilha. Na agenda, o apontamento de que há uma tradição no concelho do Nordeste que justifica os quilómetros. Vamos em busca de saber mais sobre um prato antigo que luta contra o esquecimento.
Na freguesia da Achadinha, o restaurante, Os Melos, está aberto todos os dias. Para quem aprecia a gastronomia local é uma porta de entrada para o concelho nordestense. Vitor Melo, 39 anos, é o gerente do estabelecimento, e é quem nos recebe de sorriso rasgado enquanto explica que o restaurante surge porque o pai teve um Café Cervejaria “durante uns 25 anos” e que “quis manter o mesmo nome”.
Enquanto isso, já atarefada na cozinha está Sara Félix, cozinheira há já uma década, que começa por preparar o famoso galo capão para o almoço, enquanto Vítor afasta os braços e diz que “a cozinha é deste tamanho, não tem mais” e defende que o segredo não está no tamanho do espaço, mas sim no método.
“O segredo disto é quatro panelas e quatro tabuleiros para o forno”, avança Vítor ao DL que faz dupla com Sara na cozinha. O galo que a cozinheira prepara pesa cerca de “três quilos e 400 gramas”. Vítor aproveita e desabafa que “já se custa a encontrar, só há nesta época”.
Para novembro, Vítor diz que já compraram 16 galos e adianta que no Natal não faz o peru: “só faço o galo capão. Há muita procura. No ano passado acabamos por fazer 14 a 15 galos capões” na quadra natalícia, garante.

Vítor explica que cada galo dá para cerca de cinco pessoas e é acompanhado com recheio e batata assada. Assegura que “não tem nenhum segredo” enquanto, após insistência do nosso fotógrafo, volta a frisar que se houver um segredo “é o forno, tem que ser cozido a 160 graus”, revela. O famoso galo capão é “uma carne muito macia” uma vez que “o galo é castrado ao segundo ou terceiro mês [de vida] e chega aos quatro a cinco quilos”.
Ao DL, o gerente d´Os Melos conta que “vêm pessoas de toda a ilha” e que “há muita procura pelo galo-capão”.
Já quanto ao serviço buffet, explica que o restaurante dispõe de “nove a 10 pratos, todos os dias, desde o peixe à carne e massas”. O galo capão ao domingo está sempre presente, até ao fim de novembro, assegura Vítor.
O gerente justifica a escolha pelo buffet porque “chega à hora de almoço e está pronto”, argumentando que assim os tabuleiros “estão sempre na estufa e quentes”. O facto de estar localizado a apenas alguns quilómetros da Ribeira dos Caldeirões, também é uma mais valia pois o cliente “quer comer e andar, porque está a passear”.
O nordestense conta que o fim de semana “é sempre bom” e que o restaurante tem capacidade para cerca de 50 pessoas sentadas. “São cerca de 120 a 140 almoços. Com o galo capão a procura é outra. Se tivéssemos uma casa com 200 lugares sentados vinha mais pessoas”, diz.

“Para fazer isto é preciso gosto, muito sacrifício, muitas horas aqui. Tenho dias de estar aqui 16 horas”, conta enquanto atende o telemóvel a clientes que fazem novas reservas.
Questionado sobre quantas pessoas trabalham no estabelecimento, Vitor diz que “somos quatro” e que a mãe, Dina de Maria Torres, “já está reformada, mas está sempre aqui a ajudar”.
Ao Diário da Lagoa, Dina, a mãe de Vitor, diz que é um trabalho cansativo, mas que também é agradável: “faço mais por gosto, passo aqui um bocadinho e entretenho-me”.
Vítor destaca, ainda, que outra mais valia é a internet e que arrecadou “quatro prémios consecutivos do TripAdvisor. É muito importante, principalmente o Google Maps onde temos mil e poucos comentários e estamos no 4.5 [de classificação]”.

Chegada a hora de almoço, começam a chegar os primeiros clientes, Vítor deixa de conseguir dar-nos a devida atenção e rapidamente as mesas vão ficando ocupadas. Denis Correia, empresário de animação turística, natural de Rabo de Peixe diz que: “já oiço falar do galo capão desde 1992, é tradicional mais aqui da zona de Nordeste, faz-se de várias maneiras, aqui com um pouco mais de limão, já vi outros fazerem como guisado também, aprovo as duas maneiras” e acrescenta: “onde se faz o melhor galo capão é aqui no Nordeste, é uma tradição que tem que se manter”.
Eduardo Miranda, guia turístico, natural de Santa Clara, em Ponta Delgada, defende que “é proveitoso para toda a gente, não só para quem tem a oportunidade de provar algo que é característico e único e que dá bastante trabalho para criar”.
De Toronto, no Canadá, veio Sasha Bramasco que diz que o galo “é muito bom, tem imenso sabor, é delicioso”. Da Índia, mas a viver na Alemanha, veio a Vinay Uppal que nos conta que acha “realmente interessante o sabor a limão do molho no capão”, mas que se trata de “algo novo” e “diferente de tudo” que já comeu. “É bom”, confessa, em inglês.
Por último, numa das mesas mais afastadas e com alguns amigos conhecidos encontramos o antigo provedor da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, Eduardo Medeiros, que nos explica que “viemos de propósito para o capão porque como toda a gente sabe é uma refeição típica do Nordeste, do tempo dos meus avós. O capão era a melhor oferta que se dava ao médico, ao professor e ao padre. O peru de hoje era o capão do século passado. Pelo Natal era a refeição mais apreciada. Recomendo aos meus amigos, tanto que eles vieram de propósito”.
Clife Botelho
Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2022
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