Vindima aos 90 anos e cultiva quinta na Atalhada do tamanho de um campo de futebol

O Diário da Lagoa acompanhou um dia da vindima de José Câmara, um dos agricultores mais velhos do concelho. Contamos quem é, o que fez e o que o faz continuar ligado à terra

José Câmara tem 90 anos e cultiva mais de 40 variedades de fruta e legumes FOTO DL

Chegámos dez minutos atrasados, eram 8h40 da manhã. Passámos o portão e o caminho de asfalto levou-nos até à adega, colada à casa onde José Câmara vive no lugar da Atalhada, na Lagoa. À porta da adega, o anfitrião com 90 anos, acabados de fazer em julho, espera por quem ainda não tinha chegado – família e amigos. “Eu nem sei quantos netos tenho”, brinca. No total, são sete, entre netos e bisnetos. Com José Câmara, mais conhecido por José Mariano, estavam três dos sete homens que se juntariam a ele para o momento para o qual trabalha o ano inteiro: a vindima.

A covid-19 afasta os cumprimentos mas não bloqueia os sorrisos e o de José Câmara recebe-nos logo, antes de nos apresentarmos. A conversa com o Diário da Lagoa foi imediata e o entusiasmo de quem adora o que faz e ama a terra que pisa fez o resto. E antes de irmos à vindima, quisemos saber quem cuida da vinha, ano após ano, década após década. “Bom, esta vinha tem uns 100 anos, eu vim para aqui vai fazer 37 e ela já existia há muito tempo”, começa por contar o dono da quinta que, até lhe chegar às mãos, pertencia ao padre Agostinho de Almeida. “Sempre quis ter uma quinta porque eu gosto muito de fruta, sempre gostei e lá para os meus lados não havia muita”, explica José Câmara.

“Todos os dias ele está na terra”
O agricultor que também já foi produtor de gado, nasceu na freguesia do Livramento, em 1930, mas foi com os pais para Santa Bárbara, no concelho de Ponta Delgada, na costa norte da ilha de São Miguel, onde viveu até voltar para o sul da ilha. “Eu soube que este terreno estava à venda, vim e comprei”. Inicialmente, deslocava-se até à Atalhada só para tratar da vinha e para a vindima mas depressa percebeu que não podia continuar tão longe da terra que tinha comprado: “estavam a roubar tudo, não tinha casa aqui neste terreno, fui eu que a fiz, comecei por fazer uma coisa pequena e depois fui aumentando”, conta o agricultor, um dos mais velhos do concelho, se não mesmo o mais velho em atividade permanente. A conversa desenrola-se sem dificuldade e a ligação à terra torna-se logo evidente. “Não há nenhum dia que não vá para a terra, nenhum”, garante José Câmara. E se dúvidas houvessem, o único filho que tem, José Agostinho Câmara, que só se viria a juntar ao grupo da vindima mais tarde, confirma: “sai de manhã, todos os dias ele está na terra, das oito da manhã até à noite, ele gosta imenso disto e está aqui até mesmo ao fim de semana, sábado e domingo”.

António Vieira é amigo de José Câmara há vários anos FOTO DL

“Não conheço ninguém que vindime aos 90 anos”
O dia que marcou o arranque da vindima na quinta de José Câmara foi mais atarefado do que o habitual. O trabalho começa com uma lavagem rápida, para retirar o pó, ao esmagador que simplifica e muito o trabalho que antes só os pés faziam. Entretanto o grupo já está completo e é preciso ir para a terra, colher o que durante o ano foi cuidado, mês após mês.

Os oito “vindimadores” vão-se distribuindo pela vinha com dois baldes distintos: um é para os cachos que se vão transformar no conhecido “vinho de cheiro” açoriano e o outro é para a chamada “escolha”. Durante o processo da vindima nada se perde e tudo é aproveitado. Os bagos e os cachos que estão podres, amarelos ou mais secos não são deitados fora, são também recolhidos para depois darem origem à aguardente, sendo colocados à parte durante a apanha da uva.

António Vieira mora na Atalhada há 22 anos. Nos últimos sete faz questão de vir, no início de setembro ajudar o amigo José Câmara. “Venho para matar saudades porque o meu pai tinha quatro alqueires de terra de vinha, tínhamos a tradição das adegas e desde criança que nos habituamos à vindima”, começa por contar. O contabilista certificado lembra que “era uma lida muito grande, começava em agosto e só terminava em outubro as vindimas”. Reviver as memórias de infância acaba por alavancar a vontade de vir para a terra mas depois também há a admiração pelo anfitrião da vindima: “não conheço ninguém que vindime aos 90 anos e com essa idade a exercer as funções de agricultor é muito raro, a maioria dos velhotes resignam-se, vão para os lares ou vão para as praças e “amoucham”. O José tem essa coisa bonita de nunca baixar os braços e estar sempre pronto para tudo com vigor”, sublinha o amigo de há mais de uma década.

Vindima deste ano deu 1600 litros de vinho FOTO DL

10 mil metros quadrados com mais de 40 plantações
A vindima vai continuar – já continuamos a contar como correu mais à frente – mas antes disso, abrimos um parêntesis para falar do resto. José Câmara não só cultiva vários tipos de uva – de “cheiro”, “jaquê” e “abremont”. O agricultor tem na sua terra mais de 40 tipos de legumes e fruta, onde se podem encontrar bananas, feijão, favas, pimenta, milho, laranjas, batata, tomate cherry, diospiro, pêra abacate ou araçás, sendo a lista longa, variada e até impossível de enumerar num artigo de jornal. “Quase não temos de comprar nada, o meu pai cultiva tudo aqui”, garante o filho José.

Terreno tem uma área superior a 10 mil metros quadrados FOTO DL

No total são mais de oito alqueires de terra, o equivalente a mais de 10 mil metros quadrados de plantações variadas, o equivalente ao tamanho de um campo de futebol. Tudo é semeado e cuidado pelas mãos de José Câmara: “todo o ano comemos daqui, se sobra alguma coisa vendemos. O meu filho sabe fazer isto tudo mas ele tem outra vida e ajuda-me às vezes ao fim de semana”, explica José Câmara ao DL que fez questão de fazer uma pausa na apanha da uva para nos mostrar a quinta que se estende por um longo corredor que atravessa o terreno. “Isto aqui está a ver? Sabe como é que se chama?”, pergunta-nos enquanto nos mostra as pequenas folhas verdes. “Serão beldroegas?”, atiramos. “Isso mesmo, isto é muito bom”. Confirmamos, é uma das plantas com mais omega 3 e uma vasta lista de outros benefícios.

José Câmara conta com a ajuda de vários amigos na vindima FOTO DL

“Ano que não dá amoras não dá uvas”
Durante a vindima que começou às 9h da manhã e só terminou pelas 18h, José Câmara nunca se queixou nem do sol, nem do calor ou da exigente posição a que a vinha açoriana obriga durante a apanha. Um dos amigos com quem mais interage é Nelson Correia. Veio de propósito da Fajã de Baixo para ajudar o amigo na vindima: “conheço o senhor José há 10 anos e venho porque gosto de estar com ele, acho que não vai encontrar ninguém por aí com a idade dele que faça isto tudo”, garante. Todos lhe reconhecem uma fibra rara de encontrar. E o filho que vindima há já 40 anos, diz que pelo pai, o ritual vai continuar a repetir-se: “todos os anos pensamos que é o último e nunca é, felizmente”, diz o filho de José. “Costuma-se dizer que ano que não dá amoras não dá uvas e este ano não é de amoras”, brinca o filho José Agostinho Câmara, empresário no ramo automóvel. Estava certo. A produção este ano caiu para metade em comparação com o ano passado. Depois da apanha, as uvas, antigamente, eram amassadas com os pés mas agora seguem para o esmagador mecânico e o sumo escorre para o tanque. Nas 24 horas seguintes está pronto o conhecido “vinho doce”, mas o “vinho de cheiro” só fica no ponto mais de uma semana depois. “Para sabermos se já está bom acendemos um fósforo e pomos no meio do vinho, se se incendiar está pronto, se ele ficar apagado significa que é preciso mais fermentação e o processo ainda não está completo”, explica o José Agostinho Câmara.

O filho José Agostinho Câmara a retirar o vinho da prensa FOTO DL

No ano passado, da quinta da Atalhada saíram 3200 litros de vinho. Este ano, a mesma vinha ficou-se pelos 1600. “Todos os anos pensamos que é o último e nunca é”, diz a sorrir José Agostinho.
Mesmo com menos uvas e menos vinho, José Câmara mostra-se orgulhoso do que a terra lhe dá: “claro que fico feliz quando vejo isto tudo”. Conhece de cor cada um dos metros quadrados que cultiva, e só se foca no presente: “eu não sei quanto é que vou ter de vida, se é um dia, se são segundos, eu não sei”. Não sabe o José nem sabe quem escreve nem que lê. Esta vindima já ninguém lhe pode tirar.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2020)

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. Paulo 6 Outubro, 2020, 06:53

    Obrigado ao sr José,que exemplo de vida,obg a quem fez esta reportagem,parabens.

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  2. H.Botelho 4 Outubro, 2020, 10:33

    Excelente trabalho jornalístico!
    Ir ao encontro do que é raro hoje dia, dando a conhecer estes verdadeiros heróis que se recusam deixar a tradição morrer.
    Parabéns ao senhor José Câmara!
    Parabéns ao DL!

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